Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
08 Fev, 2021 - 09:05

Alimentação e visão: 6 nutrientes que promovem a saúde ocular

Nutricionista Mafalda Serra

A saúde ocular está intimamente relacionada com o nosso adequado estado nutricional e há nutrientes que a promovem. Saiba quais são.

Alimentação e visão

A adoção de hábitos alimentares saudáveis é uma estratégia de sucesso para otimizar o nosso estado de saúde a vários níveis, entre os quais a promoção da saúde ocular.

Mas será que existe algum alimento ou nutriente que contribui para uma boa visão ao longo da vida? O que nos diz a evidência científica sobre a associação entre a alimentação e a visão?

Alimentação e visão: que nutrientes estão envolvidos na saúde ocular?

Sendo a adesão a uma rotina alimentar saudável, variada e equilibrada um dos fatores mais importantes para promover um adequado estado de saúde ocular, há alguns nutrientes que poderão ter um papel específico na visão. Estes nutrientes podem ajudar a manter uma função ocular adequada, a reduzir o risco de desenvolvimento de doenças degenerativas ou a proteger os olhos contra fatores prejudiciais externos (como a luz).

1

Vitamina A

brócolos numa tigela de madeira

A vitamina A é uma vitamina fundamental para o bom funcionamento ocular, ao ser um componente essencial da rodopsina (uma proteína que absorve a luz nos recetores da retina). Para além disso, ainda participa no processo de diferenciação e na função das membranas conjuntivais e da córnea (1).

A deficiência de vitamina A é uma das causas mais comuns de cegueira no mundo, principalmente prevalente nos países em desenvolvimento. O baixo acesso a alimentos ricos em vitamina A (ou em qualquer um dos seus percursores), aumenta o risco de desenvolvimento de xeroftalmia (ou olho seco), principalmente em crianças jovens ou mulheres grávidas.

Um dos sinais precoces de xeroftalmia é a cegueira noturna ou a falta de visão em locais mais escuros. De acrescentar ainda que a deficiência em vitamina A é uma das principais causas da cegueira em crianças que poderia ser evitável (1, 2, 3).

As principais fontes de vitamina A são:

  • Óleos de peixe ou de fígado
  • Lacticínios (como leite ou iogurte) e ovos (particularmente a gema do ovo).
  • Vegetais de folha verde escura (brócolos, espinafres, couves)
  • Legumes ou fruta de cor amarela ou laranja (pimento, cenoura, abóbora, manga, papaia) ou a batata-doce
2

Vitamina C

Cuidados a ter no consumo de kiwi

A vitamina C é uma vitamina com função antioxidante que tem vindo a ser associada a efeitos benéficos em patologias oculares.

A degeneração macular associada à idade e as cataratas são duas das principais causas de perda de visão em indivíduos mais velhos. O stress oxidativo tem sido apontado como um possível fator-chave no desenvolvimento de ambas as patologias.

Assim, os investigadores têm colocado a hipótese de que a vitamina C ou outros nutrientes com função antioxidante poderão ter um papel positivo no progresso ou tratamento destas patologias oculares (5, 6).

A evidência científica ainda é pouco esclarecedora. Porém, ainda não há resultados que mostrem uma associação entre os antioxidantes e o desenvolvimento de degeneração macular associada à idade. A evidência existente permite apenas sugerir que poderão ajudar no atraso da progressão da doença (5, 6).

As principais fontes de vitamina C são (4):

  • Citrinos (laranja, limão), papaia, kiwi, morangos
  • Pimentos
  • Couve de bruxelas
  • Agrião
  • Couve galega ou portuguesa
  • Couve roxa ou rabanete
3

Ómega-3

taça branca com nozes picadas

Os ácidos gordos ómega-3 têm sido referenciados como um nutriente importante para a saúde ocular, devido à sua atividade anti-inflamatória.

A síndrome do olho seco é uma condição crónica na qual há uma redução na quantidade e qualidade do líquido lacrimal, levando à inflamação do olho e, em último caso, a dano ocular.

Os pacientes são aconselhados a aumentar o aporte de ómega-3 (através da dieta ou através de suplementação), como “ajuda” complementar a outros tratamentos (7, 8).

Porém, a evidência existente não demonstra uma relação consistente entre o consumo de fontes alimentares de ómega-3 e a síndrome do olho seco. São necessários mais estudos para compreender se o aumento no aporte de ómega-3 na dieta (ou a suplementação do mesmo) tem efetivamente resultados benéficos na redução do risco ou tratamento da doença (9).

Relativamente à degeneração macular associada à idade, os investigadores têm sugerido que os ómega-3 têm um efeito citoprotetor na retina, que poderá ajudar a prevenir o desenvolvimento ou progressão da doença (10). Porém, uma revisão de 2015 concluiu que a suplementação em ómega-3 durante 5 anos nestes doentes não reduziu o risco de progressão da perda de visão (11).

As principais fontes de ómega-3 são:

4

Luteína e Zeaxantina

Mitos sobre o ovo

A luteína e a zeaxantina são carotenóides com função antioxidante presentes no pigmento macular do olho (12, 13).

Um maior consumo de fontes alimentares que contenham luteína e zeaxantina parece reduzir o risco de degeneração macular e desenvolvimento de cataratas (14, 15).

As principais fontes destes nutrientes são:

  • Gema de ovo
  • Brócolos, espinafres, couve, milho, pimento, abóbora e courgete
  • Laranja, kiwi, uvas vermelhas

Como a presença de gordura potencia a absorção destes nutrientes, acompanhe estas fontes alimentares com azeite, frutos oleaginosos ou abacate (12).

5

Vitamina E

Taça com sementes de girassol descascadas

A vitamina E é uma vitamina lipossolúvel com função antioxidante.

A evidência cientifica existente ainda é inconsistente no que respeita à associação entre a ingestão de vitamina E e a redução do risco de desenvolvimento de degeneração macular associada à idade ou cataratas.

Porém, os suplementos que contém formulações com vitamina E, outros antioxidantes, zinco e cobre parecem ter efeitos promissores no atraso da progressão de degeneração macular em pessoas de alto risco (6).

As principais fontes de vitamina E são:

6

Zinco

Ostras servidas com limão

O zinco é um mineral associado à redução do risco de desenvolvimento de degeneração macular avançada em indivíduos com risco elevado.

Apesar de a evidência existente estudar principalmente os efeitos associados à suplementação em zinco, é possível aumentar o seu aporte na dieta, através da ingestão das seguintes fontes alimentares:

  • Ostras
  • Carne, peixe, ovos, lacticínios
  • Leguminosas (feijão, soja), frutos oleaginosos (nozes, amendoins)
  • Cereais integrais

O que podemos concluir?

A saúde ocular, tal como outros sistemas do nosso organismo, está intimamente relacionada com o nosso adequado estado nutricional.

Embora o risco de desenvolver determinadas patologias dependa de diversos fatores, a dieta desempenha um papel importante na promoção de um bom estado de saúde.

Assim, incluir regularmente os nutrientes mencionados poderá ser um aspeto importante na promoção da nossa saúde ocular.

Fontes

  1. National Institutes of Health, 2020. “Vitamin A. Fact Sheet for Health Professionals”. Disponível em: https://ods.od.nih.gov/factsheets/VitaminA-HealthProfessional/
  2. Sommer A. Vitamin A deficiency and clinical disease: An historical overview. J Nutr 2008;138:1835-9.
  3. World Health Organization. Global Prevalence of Vitamin A Deficiency in Populations at Risk 1995–2005: WHO Global Database on Vitamin A Deficiency. Geneva: World Health Organization; 2009.
  4. National Institutes of Health, 2020. “Vitamin C. Fact Sheet for Health Professionals”. Disponível em: https://ods.od.nih.gov/factsheets/VitaminC-HealthProfessional/
  5. Evans JR. Antioxidant vitamin and mineral supplements for slowing the progression of age-related macular degeneration. Cochrane Database Syst Rev 2006;(2):CD000254.
  6. Age-Related Eye Disease Study Research Group. A randomized, placebo-controlled, clinical trial of high-dose supplementation with vitamins C and E, beta carotene, and zinc for age-related macular degeneration and vision loss: AREDS report no. 8. Arch Ophthalmol 2001;119:1417-36
  7. The Dry Eye Assessment and Management Study Research Group. Omega-3 fatty acid supplementation for treatment of dry eye disease. N Engl J Med 2018;378:1681-90.
  8. Ziemanski JF, Wolters LR, Jones-Jordan L, Nichols JJ, Nichols KK. Relation between dietary essential fatty acid intake and dry eye disease and meibomian gland dysfunction in postmenopausal women. Am J Ophthalmol 2018;189:29-40.
  9. National Institutes of Health, 2020. “Omega-3 Fatty Acids. Fact Sheet for Health Professionals”. Disponível em: https://ods.od.nih.gov/factsheets/Omega3FattyAcids-HealthProfessional/#age
  10. SanGiovanni JP, Chew EY. The role of omega-3 long-chain polyunsaturated fatty acids in health and disease of the retina. Prog Retin Eye Res 2005;24:87-138.
  11. Lawrenson JG, Evans JR. Omega 3 fatty acids for preventing or slowing the progression of age-related macular degeneration. Cochrane Database Syst Rev 2015;4:CD010015.
  12. National Institutes of Health, 2020. MedLine Plus.Trusted Health Information for you. “Lutein”. Disponível em: https://medlineplus.gov/druginfo/natural/754.html
  13. Age-Related Eye Disease Study 2 Research G. Lutein + zeaxanthin and omega-3 fatty acids for age-related macular degeneration: the Age-Related Eye Disease Study 2 (AREDS2) randomized clinical trial. JAMA 2013;309:2005-15.
  14. Feng L, Nie K, Jiang H, Fan W. Effects of lutein supplementation in age-related macular degeneration. PLoS One 2019;14:e0227048.
  15. Lai JS, Veetil VO, Lanca C, et al. Maternal lutein and zeaxanthin concentrations in relation to offspring visual acuity at 3 years of age: The GUSTO Study. Nutrients 2020;12:274.
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