Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
20 Jan, 2021 - 09:15

Alimentação infantil saudável: garantir o estado de saúde futuro

Nutricionista Mafalda Serra

A alimentação na infância tem uma relação direta com o estado de saúde na vida adulta. Conheça, por isso, 5 pilares de uma alimentação infantil saudável.

Alimentação infantil saudável

A alimentação durante a infância tem um papel determinante não só no crescimento e desenvolvimento da criança, mas também na programação da sua saúde futura. No artigo de hoje, fique a conhecer os pilares que caracterizam a alimentação infantil saudável.

A importância de uma alimentação saudável durante a infância

Crianças a almoçar na escola

A evidência científica tem vindo a demonstrar a existência de um forte impacto da alimentação e do estado nutricional nos primeiros anos de vida na saúde futura do indivíduo.

Os hábitos alimentares adotados na infância têm um papel determinante não só no potencial individual de crescimento e desenvolvimento das crianças, mas também na modulação individual do risco de doenças crónicas enquanto adulto, nomeadamente da doença cardiovascular, diabetes ou cancro.

Programação metabólica e comportamental: o que se come na infância reflete-se na saúde na vida adulta

A esta influência precoce da alimentação e da nutrição no estado de saúde na fase adulta chama-se “programação” (que é não só metabólica, mas também comportamental).

Assim, a promoção de uma alimentação saudável nesta fase de vida é também essencial para a aquisição e sedimentação de bons hábitos alimentares, uma vez que é durante a infância que se moldam os nossos gostos e preferências alimentares (1 ,2, 3).

Tendo em conta estes conceitos, torna-se claro que a promoção de hábitos alimentares na infância é essencial (2).

Neste sentido, têm vindo a ser adotadas várias medidas de saúde pública (como a alteração da oferta alimentar em ambiente escolar, o imposto sobre as bebidas açucaradas, a restrição da publicidade alimentar dirigida a crianças e outras iniciativas na área da promoção da literacia alimentar e nutricional), que poderão estar envolvidas na tendência decrescente da prevalência de excesso de peso nas crianças portuguesas que se tem verificado nos últimos anos (4).

Ainda assim, os encarregados de educação são os modelos que as crianças tendem a imitar. A educação e o ambiente alimentar no qual a criança está inserida é essencial para determinar os seus hábitos alimentares. Quando os pais são um exemplo de hábitos alimentares saudáveis, as crianças tendem a sê-lo também (2, 5).

Desta forma, apresentamos 5 pilares de uma alimentação saudável, que deve promover no seu seio familiar.

5 pilares de uma alimentação saudável na infância

1

Fazer uma alimentação completa, variada e equilibrada

Truques para ajudar as crianças a gostar de sopa

As crianças devem fazer uma alimentação completa, variada e equilibrada, segundo os princípios da Roda dos Alimentos.

O conceito de alimentação saudável tem subjacente a prática de uma alimentação completa, equilibrada, variada e segura, conforme sugerido na Roda dos Alimentos (6).

As crianças devem ser incentivadas a ingerir diferentes alimentos de diferentes grupos alimentares, nas quantidades propostas. Assim, grupos alimentares com maior dimensão devem ser consumidos em maior quantidade.

Porém, mantenha presente que o mais importante nesta fase de vida é a qualidade (variedade) e não a quantidade de alimento. A oferta repetida de cada novo alimento, em família e num contexto lúdico e educativo facilita a sua aceitação (2).

Mais recentemente, foi publicada a “Roda da Alimentação Mediterrânica” que, mantendo todos os fundamentos da “Roda dos Alimentos”, enfatiza e recupera os alimentos característicos da dieta mediterrânica (6, 7).

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2

Incluir frutas e legumes todos os dias

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A inclusão diária de 5 porções de fruta e/ou hortícolas por dia é essencial para atingir as necessidades diárias de vitaminas e minerais.

Esta recomendação pode ser atingida, por exemplo, com a inclusão de 2 a 3 peças de fruta por dia e com o consumo de sopa de legumes e legumes no prato às refeições principais (1, 2).

Para aumentar o consumo de fruta nas crianças, poderá variar a sua apresentação (com canela, hortelã ou ervas aromáticas) ou ainda experimentar diferentes cortes e formas. Deve optar por fruta à sobremesa do almoço e jantar e incluí-la nas refeições intermédias.

As hortícolas são, por vezes, rejeitadas pelas crianças. Assim, poderá ser necessária criatividade na forma de apresentação das mesmas no prato (5).

Varie os legumes e a apresentação dos mesmos, de forma a dar cor ao prato e a torná-lo mais atrativo. Não se limite à cozedura de legumes, usufrua de diferentes técnicas de confeção, cortes, sabores e texturas. Para além dos legumes no prato, inclua também diariamente sopa de hortícolas nas refeições principais.

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3

Evitar o consumo de alimentos densamente calóricos, mas pouco nutritivos

Menino a comer guloseimas

A ingestão alimentar excessiva de açúcares simples, gorduras saturadas e sal está amplamente associada ao consumo regular de snacks densamente calóricos, mas pouco nutritivos.

As bolachas, biscoitos, barras de cereais ou cereais de pequeno almoço incluídos nas refeições intermédias e snacks das crianças devem ser evitados.

Promova a substituição destes e de outros alimentos processados por alimentos mais saudáveis, mas saborosos, como peças de fruta ou lacticínios (1, 2, 4).

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4

Privilegiar a ingestão de água em vez de bebidas açucaradas

Cuidados alimentares com as crianças: menina a beber água

As bebidas açucaradas (como néctares, refrigerantes ou outros sumos de fruta) são um dos alimentos que mais contribui para a ingestão de açúcares simples nas crianças e adolescentes.

Estas bebidas podem contribuir para o aumento do risco de cárie dentária e podem ser anorexígenas, retirando o apetite para alimentos saudáveis. Para além disso, quando gaseificadas, comprometem a saúde óssea (1, 2).

A água deve ser, sem dúvida, a bebida de eleição durante a infância. Natural ou aromatizada com fruta ou ervas aromáticas, deve ser consumida regularmente ao longo do dia de forma a cumprir as necessidades hídricas (1, 2).

Quanto aos chás e às tisanas, também não são bebidas interessantes, pois deseducam o paladar e podem interferir com a absorção de alguns minerais (como o ferro) (2).

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5

Investir na educação alimentar e participação das crianças no planeamento e preparação das refeições

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A evidência científica tem mostrado que o envolvimento das crianças na preparação dos alimentos é um fator chave para a melhoria dos seus hábitos alimentares. A educação alimentar deve basear-se em afirmações e exemplos concretos e o ambiente de aprendizagem deve permitir à criança usar os sentidos, deixando-a participar ativamente (2, 8).

Se possível, inclua a criança na preparação ou confeção de alguns alimentos. Os mais novos podem ajudar em tarefas simples como lavar a fruta e os hortícolas ou misturar os ingredientes necessários.

Crianças mais velhas já poderão ajudar na preparação de alguns alimentos ao retirar as sementes das frutas ou hortícolas, medir ingredientes ou empratar o produto final.

Conclusão

Os primeiros anos de vida são um período crítico em que as necessidades fisiológicas em nutrientes são mais elevadas do que as necessidades em energia.

Assim, uma alimentação saudável torna-se essencial para garantir não só o desenvolvimento adequado da criança, mas também o seu estado de saúde futuro.

Sendo a “alimentação saudável” um conceito amplo e complexo, a verdade é que uma dieta de elevada qualidade nutricional que cumpra as 5 características abordadas, parece ser o suficiente para garantir o bom estado de saúde da criança.

Fontes

  1. Associação Portuguesa de Nutrição. Alimentação nos primeiros 1000 dias de vida: um presente para o futuro. E-book n.o 53. Porto: Associação Portuguesa de Nutrição; 2019.
  2. Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável. Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos – Linhas de Orientação para Profissionais e Educadores. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2019.
  3. Koletzko B, Brands B, Grote V, Kirchberg FF, Prell C, Rzehak P, Uhl O, Weber M for the Early Nutrition Programming Project. Long-term health impact of early nutrition: The power of programming .Ann Nutr Metab 2017; 70 (3):161–169.
  4. Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Childhood Obesity Surveillance Initiative COSI Portugal – 2019. 2019.
  5. Vamos pôr a alimentação saudável ON em casa. Cuidados Alimentares e atividades para crianças em tempos de COVID-19. Lisboa: Direção-Geral da Saúde; 2020. Disponível em: https://nutrimento.pt/activeapp/wp-content/uploads/2020/03/Alimentac%CC%A7a%CC%83o-sauda%CC%81vel-on-em-casa.pdf
  6. Rodrigues S, Franchini B, Graça P, de Almeida M. A new food guide for the Portuguese population: development and technical considerations. J Nutr Educ Behav. 2006;38 (3):189-95.
  7. Pinho I, Franchini B, Rodrigues S. Guia Alimentar Mediterrânico: Relatório justificativo do seu desenvolvimento. Graça P, editor. Lisboa 2016.
  8. Başkale H, Bahar Z, Başer G, Ari M. Use of Piaget’s theory in preschool nutrition education. Rev Nutr Campinas. 2009;22 (6):905- 17.
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