Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
10 Dez, 2020 - 14:23

Contaminação de suplementos alimentares: quais são os riscos?

Nutricionista Hugo Canelas

Embora a contaminação de suplementos se prenda maioritariamente com a limpeza insuficiente dos equipamentos, em alguns casos pode ser intencional.

Contaminação de suplementos alimentares

Um estudo realizado na Alemanha verificou que quase 15% dos suplementos se encontravam contaminados com substâncias dopantes. Noutros países, essa percentagem ultrapassava os 20 %, ou seja, 1 em cada 5 suplementos estavam contaminados com substâncias que por alguma razão violam as normas antidoping.

Embora o interesse no assunto tenha aumentados desde então, o problema ainda existe (1). A contaminação de suplementos alimentares ainda é prevalente, ainda existem muitos problemas associados com o controlo da qualidade dos produtos e, muitas vezes, os suplementos mão contêm o que o rótulo promete. Fique a saber tudo neste artigo.

O que são suplementos alimentares?

Estudo sobre suplementos alimentares: atleta a tomar suplementos para aumentar a performance desportiva

Um suplemento alimentar é um produto destinado a complementar a dieta em um ou mais componentes específicos, sejam eles macronutrientes (proteínas, hidratos de carbono ou gorduras), micronutrientes (vitaminas ou minerais) ou outros componentes sob a forma de concentrados ou extratos (cafeína, beta-alanina, etc…).

Regra geral, a utilização de suplementos é maior na população atlética, sendo naturalmente superior nos atletas de elite em relação aos não-elite. Alguns estudos referem taxas de utilização em torno dos 69 e dos 94% por parte dos atletas de elite, sendo os multivitamínicos os mais consumidos (2, 3, 4, 5).

As razões para a toma deste tipo de produtos são várias, incluindo a promoção da recuperação, manutenção do estado de saúde, manipulação da composição corporal, melhoria da performance e compensar para possíveis carências associadas à dieta (6).

https://www.vidaativa.pt/a/suplementos-termogenicos-o-que-sao/
Veja também Suplementos termogénicos: uma opção que realmente funciona?

Contaminação de suplementos: agentes contaminantes

Suplementos vitamínicos no desporto: vitaminas e minerais

Todos os anos é publicada pela Agência Mundial Anti-doping (WADA) uma lista atualizada das substâncias proibidas, no sentido de manter os desportos competitivos limpos de compostos ilícitos e assim proteger a saúde dos atletas (7).

Uma substância é considerada proibida se preencher 2 de 3 critérios:

  1. Apresenta potencial para ou incrementa verdadeiramente a performance desportiva.
  2. Representa um risco potencial ou atual para a saúde do atleta.
  3. Viola o espírito desportivo.

Estes agentes vão desde os óbvios, como hormonas esteroides e outros agentes anabólicos, até aos supostamente inofensivos, muitas vezes encontrados nas gavetas de medicamentos de muitos doentes, como diuréticos e beta-bloqueadores (7):

IDSusbtância proibidaTipoQuando proibida
S0Substâncias não aprovadasSubstânciaSempre
S1Agentes anabólicosSubstânciaSempre
S2Hormonas pépticas, fatores de crescimento, substâncias relacionadas e miméticosSubstânciaSempre
S3Agonistas beta 2SubstânciaSempre
S4Moduladores hormonais e metabólicosSubstânciaSempre
S5Diuréticos e outros agentes mascarantesSubstânciaSempre
S6EstimulantesSubstânciaDurante a competição
S7NarcóticosSubstânciaDurante a competição
S8CanabinoidesSubstânciaDurante a competição
S9GlicocorticoidesSubstânciaDurante a competição
M1Manipulação de amostras de sangue ou componentesMétodoSempre
M2Manipulação física ou químicaMétodoSempre
M3Doping genéticoMétodoSempre
P1ÁlcoolSubstânciaDeterminados desportos
P2Beta bloqueadoresSubstânciaDeterminados desportos

O código de conduta da WADA afirma ainda que cada atleta tem o dever pessoal de assegurar que não ingere nenhum tipo de substância proibida, sendo ainda responsável por qualquer vestígio ou metabolito que seja encontrado nas amostras de sangue, urina e fezes recolhidas.

O problema é que, muitas vezes, os casos de doping resultam da utilização inconsciente ou desinformada de determinados suplementos alimentares. Embora seja difícil determinar a extensão do problema, estima-se que entre 6 e 9% de todos os casos de doping documentados resultem do consumo de suplementos alimentares contaminados (8).

Fontes de contaminação de suplementos alimentares

Mulher a ler rótulo de frasco de suplementos

Na maioria dos casos, a contaminação prende-se com a limpeza dos equipamentos, que podem conter vestígios de ingredientes do produto anterior.

Esta situação é semelhante ao que acontece nas fábricas de processamento de cereais, onde a aveia, naturalmente isenta de glúten, pode ser contaminada após contacto com outros cereais processados anteriormente.

No entanto, há casos em que a contaminação é intencional, no sentido de tornar o suplemento mais eficiente no que se propõe a ajudar atingir.

Há relatos desde 2002 de produtos intencionalmente contaminados com quantidades elevadas de esteroides anabolizantes “clássicos” (metandienona, estanozolol, boldenona, oxandrolona, metiltestosterona, etc.) a circular no mercado, compostos esses não declarados nos rótulos (6).

Em 2005, por exemplo, foram confiscados lotes de vitamina C, magnésio e multivitaminas de origem chinesa, contaminados com estanozolol e metandienona (1).

A verdade é que cerca de 40% a 70% dos atletas usam suplementos alimentares (no caso dos profissionais, 69 a 94%) e que se estima que 12 a 58% de todos os suplementos possam conter substâncias proibidas.

A realidade portuguesa não está muito longe da internacional, tendo-se estimado que cerca de 44% dos praticantes de ginásio consumem algum tipo de suplemento, incluindo proteína (80,1%), multivitamínicos e/ou minerais (38,3%), barras energéticas (37,3%), aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) (36,8%) e ómega-3 (35,5%) (9).

Estes números indicam claramente que existe um risco considerável de testar positivo nos testes antidoping, arriscando sanções pesadas, apenas porque o suplemento consumido está acidental ou inadvertidamente contaminado com substância proibidas.

Contaminação de suplementos: controlo do risco

Se o atleta decidir que os benefícios são superiores aos riscos, é aconselhável adquirir suplementos de grandes empresas, uma vez que as marcas de suplementos mais reputadas apresentam padrões mais elevados de produção, incluindo testes de segurança e qualidade.

Por outro lado, empresas mais obscuras, geralmente as que visam o mundo do fisioculturismo, são mais passiveis de ter suplementos contaminados.

Por fim, empresas que não produzam ou comercializem esteroides e pró-hormonas apresentam menos risco de que os seus produtos estejam contaminados com essas substâncias.

Fontes

  1. Geyer H, Parr MK, Mareck U, Reinhart U, Schrader Y, Schänzer W. (2004). Analysis of non-hormonal nutritional supplements for anabolic-androgenic steroids – results of an international study. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14986195/
  2. Baylis A, Cameron-Smith D, Burke LM. (2001). Inadvertent doping through supplement use by athletes: assessment and management of the risk in Australia. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11591885/
  3. Braun H, Koehler K, Geyer H, Kleiner J, Mester J, Schanzer W. (2009). Dietary supplement use among elite young German athletes. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19403956/
  4. Froiland K, Koszewski W, Hingst J, Kopecky L. (2004). Nutritional supplement use among college athletes and their sources of information. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15129934/
  5. Maughan RJ, Depiesse F, Geyer H. (2007). International Association of Athletics Federations. The use of dietary supplements by athletes. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18049988/
  6. Mathews, N.M. (2017). Prohibited contaminants in dietary supplements. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5753965/#bibr10-1941738117727736
  7. WADA. (2020). 2020 list of prohibited substances and methods. Disponível em: https://www.wada-ama.org/en/content/what-is-prohibited?gclid=CjwKCAiA4o79BRBvEiwAjteoYBfUbImWfZeePj21P5Znv7zXoKINgdO7BcmdmQwfOi1QqnA6mn48exoCTOIQAvD_BwE
  8. Outram S, Stewart B. (2015). Doping through supplement use: a review of the available empirical data. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25722470/
  9. Ruano J, Teixeira VH. (2020). Prevalence of dietary supplement use by gym members in Portugal and associated factors. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32093724/
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