Nutricionista Luís Cristino
Nutricionista Luís Cristino
21 Fev, 2020 - 08:25

Multivitamínicos: o que precisa de saber sobre estes suplementos

Nutricionista Luís Cristino

O uso de multivitamínicos é cada vez mais comum, no entanto a sua utilização não garante um melhor estado de saúde. Fique a saber mais sobre este tema.

Multivitamínicos espalhados numa mesa

O uso de multivitamínicos está amplamente disseminado na população geral como algo benéfico, com indicações terapêuticas ou para a promoção e manutenção do estado de saúde.

No entanto, a evidência atual tem demonstrado que o uso destes suplementos poderá não estar associado a melhorias no estado de saúde em indivíduos que não apresentem défices nutricionais, podendo inclusive causar prejuízos. Sendo que uma alimentação variada e adequada garante o aporte necessário de micronutrientes (vitaminas e minerais) necessários para a manutenção da homeostasia (equilíbrio) do corpo (12).

Porém, em situações especificas, referidas no texto abaixo, poderá ser justificado o uso destes suplementos.

O que são e para que servem os multivitamínicos?

Dieta 3 Passos: tudo o que precisa saber

Um multivitamínico é um suplemento composto por mais do que uma vitamina. Sendo que, no mercado atual, os multivitamínicos incluem usualmente, para além de diversas vitaminas, minerais essenciais (2). Os micronutrientes são fundamentais para uma ampla gama de funções bioquímicas e fisiológicas do organismo (1).

Existem 15 vitaminas e 20 minerais essenciais para um correto funcionamento do corpo humano, sendo necessários para diversas funções fisiológicas, tais como:

  • Participação em reações metabólicas como coenzimas
  • Função antioxidante, diminuindo os danos causados pelas espécies reativas de oxigénio (radicais livres)
  • Modulação da transcrição dos genes
  • Componentes e cofatores de enzimas
  • Componentes estruturais dos tecidos (1)

Dadas as funções descritas, é fácil entender a importância de combater o défice de alguma vitamina ou mineral.

Devo tomar um multivitamínico?

Para a maioria das pessoas, a resposta a esta pergunta é não (2).

O uso de multivitamínicos só deve ser considerado quando uma destas premissas existir (1):

  • Para correção de deficiências devido à ingestão inadequada de micronutrientes através da dieta
  • Em situações em que as necessidades em micronutrientes estão aumentadas (por exemplo, na gravidez) ou a absorção comprometida (por exemplo, doenças inflamatórias intestinais e doentes submetidos a cirurgia bariátrica)

O uso de suplementos com vista no aumento da performance, ou como efeito protetor de possíveis futuras doenças crónicas é controverso, apresentando evidência científica pouco clara, podendo até ser prejudicial (1).

Como diagnosticar a deficiência de micronutrientes

O diagnóstico da deficiência de uma determinada vitamina ou mineral requer a integração de diversos dados clínicos, dados da ingestão alimentar e dados bioquímicos.

A diminuição da ingestão, comparativamente com os valores de referência, é o primeiro indicador de défice. No entanto, alterações na absorção ou na excreção, podem desencadear deficiências mesmo com valores de ingestão adequada. Estados de infeção e o stress podem igualmente afetar o estado nutricional (1).

Condições em que é aconselhada a toma de multivitamínicos

Chás na gravidez: quais deve preferir e quais deve evitar

Como já referido, existem situações especificas em que existe a necessidade de realizar suplementação em multivitamínicos, ou num determinado mineral ou vitamina.

1. Gravidez

Durante a gravidez as mulheres podem beneficiar com a suplementação de ácido fólico e iodo, ajudando na formação do tubo neuronal do feto assim como no tamanho adequado para a idade gestacional (3, 4, 5, 6).

Estes micronutrientes são encontrados na maioria dos multivitamínicos, no entanto geralmente são recomendados de forma isolada (2).

2. Doenças inflamatórias intestinais

Doenças como a doença de Crohn e a colite ulcerosa estão associadas a défices nutricionais (7). Devido à inflamação intestinal ocorre diminuição da absorção de micronutrientes, podendo ser necessária a suplementação com multivitamínicos na tentativa de atenuar os défices, embora possa ser uma solução pouco eficaz (1).

3. Doentes submetidos a cirurgia bariátrica

As alterações na anatomia e fisiologia do trato gastrointestinal, típicas deste procedimento cirúrgico para o tratamento da obesidade, geralmente levam a défices na absorção de micronutrientes.

Juntamente com a redução do estômago, e como consequência, surge a diminuição da ingestão alimentar. Assim, e de forma a aumentar a ingestão de micronutrientes e contrabalançar esta condição, o uso de multivitamínicos é prática comum.

4. Dietas excessivamente restritivas

A adesão a dietas restritivas mal planeadas, como as dietas vegans, sem glúten, baixas em hidratos de carbono (cetogénicas), ou com restrições energéticas elevadas geralmente estão associadas a défices em micronutrientes fundamentais para diversas funções fisiológicas (8, 9, 10).

Nestas situações, o uso de multivitamínicos poderá ser uma opção, no entanto o planeamento adequado, por parte de um nutricionista, deste tipo de dietas e o uso de alimentos fortificados geralmente é suficiente e a opção recomendada.

Conclusão

Por fim, a evidência atual indica que os suplementos multivitamínicos não possuem efeitos protetores em indivíduos saudáveis, sendo que uma dieta balanceada e saudável é a forma mais segura de garantir o aporte necessário destes micronutrientes (1,2).

Em acréscimo, a evidência científica sugere que o corpo absorve mais eficazmente nutrientes provenientes da alimentação do que de suplementos.

No caso de fazer parte de uma população específica referida a cima, deve avaliar com o seu médico ou nutricionista a possível necessidade de suplementação em micronutrientes, seja na forma isolada, para combater um determinado défice, ou na forma de multivitamínicos, para suprimir vários défices.

Fontes

1. Combet, E. et al. (2014). Micronutrient deficiencies, vitamin pills and nutritional supplements. Disponível em:
https://www.medicinejournal.co.uk/article/S1357-3039(14)00326-0/abstract
2. Incze, M. (2019). Vitamins and Nutritional Supplements: What Do I Need to Know? Disponível em:
https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2720139
3. Viswanathan, M. et al. (2017). Folic Acid Supplementation for the Prevention of Neural Tube Defects: An Updated Evidence Report and Systematic Review for the US Preventive Services Task Force. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28097361
4. Zhang, Q. et al. (2017). Effect of folic acid supplementation on preterm delivery and small for gestational age births: A systematic review and meta-analysis. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27856370
5. Castaño, E. et al. (2017) Folate and Pregnancy, current concepts: It is required folic acid supplementation? Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28542653
6. Dieração-Geral da Saúde. (2013). Aporte de iodo em mulheres na preconceção, gravidez e amamentação. Disponível em:
http://s3.observador.pt/wp-content/uploads/2016/09/28130452/recomendacao-dgs.pdf
7. Filippi, J. et al. (2006) Nutritional deficiencies in patients with Crohn’s disease in remission . Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16534419
8. Craig, W. J. (2009). Health effects of vegan diets. Am J Clin Nutr. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19279075
9. Vici, G. et al. (2016) Gluten free diet and nutrient deficiencies: A review. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27211234
10. Shepherd, S. J. et al. (2013). Nutritional inadequacies of the gluten-free diet in both recently-diagnosed and long-term patients with coeliac disease. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23198728

Veja também