Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
03 Jan, 2020 - 10:43

Suplementos diuréticos: uma opção viável para a retenção de líquidos?

Nutricionista Hugo Canelas

Os suplementos diuréticos são substâncias que ajudam a controlar a retenção de líquidos. Saiba se realmente funcionam.

Suplementos diuréticos: realmente funcionam?

Os suplementos diuréticos são substâncias que aumentam a quantidade de urina produzida e ajudam a controlar a retenção de líquidos, ou seja, a sensação de inchaço concentrado nos membros inferiores.

Para além do inchaço, outros sintomas incluem rigidez articular, variações de peso e o surgimento de “pregas” cutâneas, semelhantes àquelas que se verifica nos dedos quando se tomam banhos mais prolongados.

Vários fatores contribuem para a retenção de líquidos, alguns bastante graves como insuficiência cardíaca ou insuficiência renal. No entanto, a retenção não associada a doença está ligada a fatores como a dieta, o ciclo menstrual, sedentarismo ou mesmo a predisposição genética.

Nestes casos, alguns suplementos podem ajudar a contornar o problema. Neste artigo, fique a conhecer um pouco melhor os suplementos diuréticos disponíveis, a sua eficácia em humanos e segurança.

Diuréticos naturais: o que são?

Algumas ervas medicinais ou concentrados de substâncias apresentam efeito diurético comprovado. Uma vez que são considerados mais seguros que os fármacos tradicionais (1), o uso indiscriminado de ervas medicinais para prevenção ou tratamento de doenças tem crescido, mesmo que as suas ações terapêuticas sejam questionáveis do ponto de vista científico.

Devido aos potenciais efeitos secundários graves, a maior parte das plantas medicinais são pouco estudadas. Para além disso, são atribuídos vários efeitos terapêuticos às plantas medicinais, a maior parte das vezes observados em células in vitro ou modelos animais e não em humanos. A verdade é que há relatos de casos de insuficiência renal e hepática bem como alterações neurológicas associadas à toma de suplementos ou chás de ervas (2).

Suplementos diuréticos: cafeína

Suplementos diuréticos: realmente funcionam?

Para além dos vários efeitos benéficos para a saúde, está descrito um potencial diurético associado à cafeína (3). Quantidades elevadas de cafeína – entre 250 e 300 mg ou o equivalente a 3 ou 4 chávenas de café – aumentam a produção de urina (4).

No entanto, se é um consumidor habitual de café, é normal que se desenvolva uma tolerância às propriedades diuréticas da cafeína (45). Para além do café, outros produtos contêm cafeína como suplementos do composto, chás verde e preto, noz de cola e yerba mate.

Suplementos diuréticos: extrato de dente-de-leão

O extrato de dente-de-leão é um suplemento popular devido ao seu efeito diurético (6), e é possível que este efeito se deva ao seu elevado teor de potássio (7).

A ingestão de alimentos ricos em potássio funciona como um sinalizador para os rins, alertando para a necessidade de eliminar mais sódio e água através da urina (8). Este efeito pode, em teoria, ser válido, mas a quantidade de potássio contida no extrato de dente-de-leão pode variar muito, assim como o seu potencial diurético.

Embora haja poucos estudos em humanos, num deles é relatado que a toma de um suplemento de dente-de-leão aumentou a quantidade de urina produzida nas 5 horas subsequentes (9). Independentemente destes resultados promissores, são necessários mais estudos com humanos para avaliar a eficácia e segurança deste suplemento.

Suplementos diuréticos: cavalinha

Chávena de chá de cavalinha

A cavalinha, seja em chá ou em forma de cápsula, é utilizada frequentemente para combater a retenção de líquidos.

Um ensaio clínico em voluntários saudáveis concluiu que a toma de 900 mg/dia de cavalinha produzia os mesmos efeitos de 25 mg/dia de hidroclorotiazida, um medicamento diurético, sem que se tenha verificado qualquer efeito adverso na sua toma aguda (10). Numa revisão de literatura de 2007 foram obtidos resultados semelhantes, embora algumas espécies tenham provocado maior excreção de sódio e potássio do que outras (11).

Embora a cavalinha seja considerada segura, não se recomenda a sua utilização a longo prazo nem por pessoas com doenças como diabetes e doença renal (12).

Misturas de suplementos diuréticos

Uma vez que algumas substâncias têm efeito diurético, várias empresas tentam combinar os seus efeitos num único produto. No entanto e muito embora sejam incluídos alguns dos exemplos citados acima, são também incluídos outros que apresentam resultados interessantes em modelos animais mas que não têm eficácia comprovada em humanos.

Exemplos populares são a salsa, a Nigella sativa, o espinheiro e os cominhos.

Suplementos diuréticos: hibisco

Chá de hibisco
Chá de hibisco

Varias partes desta planta são usadas com propriedades diferentes. De facto, as folhas e cálices de hibisco são tradicionalmente utilizadas pelos seus efeitos diuréticos, sedantes e hipotensores (11).

Foi realizado apenas um ensaio clínico de forma a avaliar o potencial drenante dos cálices, tendo-se concluído que a ingestão de 10 gramas de hibisco em 500 mL de água ingeridos ao pequeno-almoço tinham um potencial hipotensor semelhante ao do captopril, um medicamento anti hipertensor. Para além disso, a eliminação de sódio através da urina também aumentou (13).

No entanto, são necessários mais estudos de forma a avaliar o efeito agudo e crónico da ingestão deste produto.

Conclusão

Fazer uso de alguns dos suplementos diuréticos descritos acima pode ajudar a controlar a retenção de líquidos. No entanto, uma grande parte dos suplementos no mercado contem substâncias para a qual não há evidência suficiente que suporte o suposto efeito diurético.

Mais se alerta que as ervas medicinais podem conter vários compostos bioativos com possível efeito com alguns medicamentos, podendo potenciar ou inibir o seu efeito terapêutico.

Posto isto, combinar a toma de alguns destes suplementos com alterações de estilos de vida como alimentação saudável, prática de atividade física e ingestão regular e suficiente de água ou líquidos sem açúcar pode ajudar a eliminar os líquidos a mais.

Outros fatores que podem ajudar são o consumo de alimentos ricos em potássio e, no caso de mulheres com síndrome pré-menstrual, alimentos ricos em magnésio, associado à restrição de sal e sódio na dieta.

Fontes

1. Andrew, R., & Izzo, A. A. (2017). Principles of pharmacological research of nutraceuticals. Diponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28500635
2. Bruno, L. O., et.al. (2018). Pregnancy and herbal medicines: An unnecessary risk for women’s health-A narrative review. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29417644
3. Marx, B., et.al. (2016). Mécanismes de l’effet diurétique de la caféine. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27225921
4. Maughan, R. J., & Griffin, J. (2003). Caffeine ingestion and fluid balance: a review. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19774754
5. Killer, S. C., et.al. (2014). No Evidence of Dehydration with Moderate Daily Coffee Intake: A Counterbalanced Cross-Over Study in a Free-Living Population. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24416202
6. Schütz, K., et.al. (2006). Taraxacum—A review on its phytochemical and pharmacological profile. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16950583
7. Hook, I., et.al. (1993). Evaluation of Dandelion for Diuretic Activity and Variation in Potassium Content. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.3109/13880209309082914
8. Gallen, I., et.al. (1998). On the mechanism of the effects of potassium restriction on blood pressure and renal sodium retention. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9428447
9. Clare, B. A., et.al. (2009). The Diuretic Effect in Human Subjects of an Extract of Taraxacum officinale Folium over a Single Day. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19678785
10. Carneiro DM, et.al. (2014). Randomized, Double-Blind Clinical Trial to Assess the Acute Diuretic Effect of Equisetum arvense (Field Horsetail) in Healthy Volunteers. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24723963
11. Wright, C. I., et.al. (2007). Herbal medicines as diuretics: A review of the scientific evidence. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17804183
12. Tago, Y., et.al. (2010). Evaluation of the Subchronic Toxicity of Dietary Administered Equisetum arvense in F344 Rats. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22272034
13. Herrera-Arellano, et.al. (2004). Effectiveness and tolerability of a standardized extract from Hibiscus sabdariffa in patients with mild to moderate hypertension: a controlled and randomized clinical trial. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15330492

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