Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
10 Dez, 2020 - 15:15

Obesidade na gravidez: riscos e cuidados a adotar

Nutricionista Mafalda Serra

Fique a par dos riscos associados à obesidade na gravidez, quer para a saúde da mãe, quer para a saúde do bebé.

Obesidade na gravidez

A gravidez é um período essencial para promover não só o desenvolvimento saudável do bebé, mas também o seu estado de saúde no futuro. Deste modo, o estado nutricional e ponderal da mãe assume um papel principal na gestão desta sua fase de vida. Mas que papel tem a obesidade na gravidez?

Fique a conhecer neste artigo, quais os riscos associados e que cuidados alimentares devem ser adotados.

Que papel tem a obesidade materna na gravidez?

Grávida a pesar-se numa balança

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a obesidade pode ser definida como a acumulação anormal ou excessiva de gordura corporal que apresenta um elevado risco para a saúde do indivíduo (1).

Atualmente, é considerada um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e agravamento de doenças crónicas não transmissíveis, como a doença cardiovascular ou a diabetes Mellitus tipo 2 (2).

Sendo a gravidez um período essencial para assegurar não só o desenvolvimento saudável do feto, mas também o futuro estado de saúde da criança, torna-se determinante promover o adequado estado nutricional da mãe durante esta fase de vida (3).

A importância de controlar o aumento ponderal durante a gravidez

Durante a gravidez, uma das principais alterações fisiológicas é a mudança no peso corporal.

O aumento inevitável de peso na grávida deve-se não só ao crescimento do bebé, mas também ao incremento dos tecidos corporais maternos (como a placenta, o volume do útero e do sangue, o volume do fluido amniótico, o tecido mamário e ainda as reservas de gordura adicionais).

No entanto, existem recomendações ideais para o aumento do peso corporal consoante o peso da mãe antes da conceção e dependendo da fase de gravidez na qual esta se encontra.

Quanto maior o peso da mãe antes de engravidar, menor deverá ser o aumento ponderal durante a gravidez. É ainda importante referir que a mudança de peso corporal superior às recomendações está associada ao aumento do risco de complicações na vida adulta do bebé (4, 5).

Assim, os ajustes de peso e a adequação do estado nutricional devem ser feitos preferencialmente antes da gravidez para garantir o bom desenvolvimento de processos biológicos como a formação e implantação da placenta, a diferenciação celular, o crescimento fetal ou o correto encerramento do tubo neural (3).

No caso de não ser possível, devem ser adotados cuidados alimentares específicos para a promoção de uma gravidez saudável, mesmo que se verifique excesso de peso materno.

Riscos associados à obesidade na gravidez

Médica a verificar níveis de açúcar no sangue de paciente

O excesso de peso ou obesidade na gravidez é um fator de risco importante para o aparecimento de complicações clínicas, não só na gravidez, mas também no estado de saúde futuro do bebé.

1. Aumenta o risco de diabetes gestacional

Além de aumentar o risco de diabetes gestacional (aumento dos níveis de açúcar no sangue durante a gravidez, normalmente reversível após o parto), também pode gerar síndrome hipertensiva gestacional e pré-eclâmpsia.

2. Aumenta os riscos para o bebé

O risco para o bebé também não deve ser descartado, pois tem sido associado a trabalho de parto prematuro ou a anomalias congénitas (6).

Lembre-se de que o principal fator determinante do crescimento fetal é o ambiente no qual este se desenvolve.

O termo “programação metabólica” surgiu para descrever o fenómeno através do qual o ambiente nutricional durante uma fase crítica do período de desenvolvimento do feto, tem um impacto duradouro e persistente ao longo da sua vida, predispondo-o ou não a determinadas doenças crónicas não transmissíveis.

Estudos sugerem que a obesidade materna poderá induzir esta programação epigenética fetal, que acabará por predispor o desenvolvimento de obesidade, diabetes tipo 2 ou doenças cardiovasculares ao longo da sua vida (6, 7, 8, 9).

Além disso, uma obesidade instalada durante a gravidez e um ganho excessivo de peso durante esta fase, pode estar relacionado com um peso excessivo ao nascimento do bebé (macrossomia fetal), por sua vez associado a complicações no parto e na saúde da criança na vida adulta.

Nestes casos, há a pequena vantagem de a grávida ter o metabolismo basal aumentado, pelo que a redução energética não será tão drástica para adequar o peso ao período de gestação.

No entanto, o acompanhamento de um nutricionista durante esta fase, é essencial para garantir que não ocorrem deficiências nutricionais (3, 10).

Quais os cuidados alimentares que a grávida deve ter?

Grávida a comer salada
Beautiful pregnant woman eating healthy food and salads

Sabendo que a obesidade no período pré-concecional e o aumento excessivo do peso durante a gravidez estão normalmente associados a complicações no parto e na saúde do bebé, algumas mães iniciam autonomamente uma dieta para emagrecimento.

Qualquer tipo de dieta restritiva (salvo exceções associadas a patologias pré-existentes da mãe) é contraindicada nesta fase.

Mais do que perder peso, é essencial a ingestão alimentar e nutricional adequada. Para isso, o acompanhamento personalizado por parte de uma equipa multidisciplinar de profissionais de saúde é essencial (10).

Não adotar dietas restritivas nem excluir grupos alimentares

Ao contrário de promover a exclusão de grupos alimentares, a grávida deve promover hábitos alimentares adequados, saudáveis e variados, de forma a prevenir um aumento excessivo de peso durante a gravidez (3, 11).

De acordo com cada etapa da gravidez, a mulher tem necessidades nutricionais específicas e requisitos de energia que vão evoluindo consoante o trimestre no qual esta se encontra. Principalmente durante o 2º e 3º trimestre, a mãe deverá ingerir mais calorias, de forma a providenciar a energia necessária para o saudável desenvolvimento do bebé.

Assim, torna-se imprudente seguir uma dieta com restrição calórica excessiva nesta fase (12).

Manter uma rotina alimentar saudável

Relativamente a necessidades nutricionais, deve ser promovida uma rotina alimentar saudável e adequada em termos não só de macronutrientes (proteína, hidratos de carbono e lípidos), mas também de micronutrientes (com especial atenção ao ácido fólico, ferro, zinco, cálcio, iodo, vitamina A, vitamina C, vitamina E e vitaminas do complexo B).

A deficiência na ingestão dos mesmos poderá comprometer o normal desenvolvimento do feto e aumentar o risco de doenças crónicas no futuro (13, 14, 15).

O que podemos concluir?

Sendo a gravidez uma fase de vida tão importante para o estado de saúde da criança (não só no seu início de vida, mas também na sua fase adulta), torna-se essencial promover um adequado estado nutricional da mãe.

Sempre que possível, a gravidez deverá ser planeada de forma a adequar o peso corporal e estado nutricional da mãe. Porém, no caso de obesidade materna durante a gravidez, é essencial o acompanhamento diferenciado e multidisciplinar por uma equipa de profissionais de saúde (entre os quais o médico e o nutricionista).

Só assim será possível garantir a eficácia na gestão do peso durante a gravidez e promoção do estado de saúde quer da mãe quer da criança.

Fontes

  1. World Health Organization. Obesity and overweight; 2020. Disponível em https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight
  2. Kopelman P. Health risks associated with overweight and obesity. Obes Rev. 2007 Mar;8 Suppl 1:13-7. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17316295/ 
  3. Associação Portuguesa de Nutrição. Alimentação nos primeiros 1000 dias de vida: um presente para o futuro. E-book n.o 53. Porto: Associação Portuguesa de Nutrição; 2019. Disponível em: https://www.apn.org.pt/documentos/ebooks/1000_DIAS_EBOOK-2706.pdf 
  4. Teixeira D et al. Alimentação e nutrição na gravidez. Lisboa: Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde; 2015. Disponível em: http://nocs.pt/wp-content/uploads/2017/10/alimentacaoenutricaonagravidez.pdf 
  5. Institute of, M. and I.O.M.P.W.G. National Research Council Committee to Reexamine, The National Academies Collection: Reports funded by National Institutes of Health, in Weight Gain During Pregnancy: Reexamining the Guidelines, K.M. Rasmussen and A.L. Yaktine, Editors. 2009, National Academies Press (US), National Academy of Sciences: Washington (DC). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20669500/ 
  6. Marchi J, Berg M, Dencker A, Olander EK, Begley C. Risks associated with obesity in pregnancy, for the mother and baby: a systematic review of reviews. Obes Rev. 2015 Aug;16(8):621-38. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26016557/ 
  7. Barker DJ. In utero programming of chronic disease. Clinical Sci (London). 1998; 95:115-28. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9680492/
  8. Kwon EJ, Kim YJ. What is fetal programming?: a lifetime health is under the control of in utero health. Obstetrics & Gynecology Science. 2017;60(6):506-519. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5694724/ 
  9. World Health Organization. Programming of chronic disease by impaired fetal nutrition: evidence and implications for policy and intervention strategies / prepared by Hélène Delisle. Geneva: World Health Organization; 2001. Disponível em: https://www.who.int/nutrition/publications/obesity/WHO_NHD_02.3/en/ 
  10. Picciano, M.F., Pregnancy and lactation: physiological adjustments, nutritional requirements and the role of dietary supplements. J Nutr, 2003. 133(6): p. 1997s2002s. Dsiponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12771353/ 
  11. Walsh JM, McAuliffe FM. Impact of maternal nutrition on pregnancy outcome-does it matter what pregnant women eat? Best Pract Res Clin Obstet Gynaecol. 2015 Jan;29(1):63-78. Disponível em:  https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25438930/ 
  12. EFSA Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies (NDA). Scientific opinion on dietary reference values for energy. EFSA Journal. 2013; 11(1):3005. Disponível em:  https://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/3005  
  13. Mousa A, Nagash A, Lim S. Macronutrient and Micronutrient Intake during Pregnancy: An Overview of Recent Evidence. Nutrients. 2019; 11(2): 443. Disponível em:  https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30791647/ 
  14. Kominiarek AM, Rajan P. Nutrition recommendations in pregnancy and lactation. Med Clin North Am. 2016; 100(6): 1199–1215. Disponível em:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5104202/ 
  15. Christian P, Stewart CP. Maternal micronutrient deficiency, fetal development, and the risk of chronic disease. J Nutr. 2010 Mar;140(3):437-45. Disponível em:  https://academic.oup.com/jn/article/140/3/437/4600342 
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