Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
10 Nov, 2020 - 09:30

5 mitos sobre a sensação de barriga inchada

Nutricionista Mafalda Serra

A informação disponibilizada para combater o inchaço abdominal é vasta e, por vezes, pouco baseada em evidência cientifica. Fique a par de 5 mitos sobre a sensação de barriga inchada.

Mitos sobre a sensação de barriga inchada

O inchaço abdominal é uma sensação incómoda que pode afetar negativamente o nosso dia a dia. Sendo uma manifestação relativamente comum, a informação disponibilizada para combater a “sensação de barriga inchada” é vasta e, por vezes, pouco baseada em evidência cientifica.

Neste artigo, vamos compreender o que é o inchaço abdominal e quais os mitos associados à sensação de barriga inchada.

Como é definida a “sensação de barriga inchada”?

Mulher com dores de barriga

O inchaço abdominal é descrito como a sensação de aumento de pressão abdominal que pode ou não ser acompanhada de distensão abdominal, ou seja, de um aumento efetivo da circunferência abdominal (1, 2).

O inchaço e distensão abdominal podem ocorrer independentemente, embora frequentemente coexistam. Enquanto que o conceito de “barriga inchada” se associa a uma sensação subjetiva provocada pela presença de gases, a distensão refere-se a uma manifestação física mensurável através da medição da circunferência abdominal.

Embora atualmente a distinção entre os dois conceitos já se encontre bem estabelecida, ambos já foram utilizados incorretamente em literatura passada (1, 2).

5 mitos sobre a sensação de barriga inchada

Mito 1

Retirar o glúten da alimentação leva à diminuição da sensação de barriga inchada

mulher a recusar comer pão

A perceção não fundamentada de que o glúten tem efeitos negativos na nossa saúde (entre os quais, o aumento da sensação de barriga inchada) tem vindo a promover a adesão injustificada, do ponto de vista médico, a uma dieta isenta de glúten (3).

Atualmente, este regime alimentar é apenas indicado para doentes diagnosticados com doença celíaca, sensibilidade ao glúten não celíaca ou alergia ao trigo mediada pela Imunoglobulina E (4).

Em indivíduos saudáveis, o glúten não apresenta efeitos inflamatórios negativos que justifiquem a sua exclusão da dieta (5). Na verdade, a evidência alerta-nos para as possíveis carências nutricionais e escolhas alimentares inadequadas que podem acompanhar uma dieta isenta em glúten (6).

Assim, se sofre de inchaço abdominal ou de outros sintomas que possam ser atribuídos ao consumo de glúten, é essencial que consulte um médico para que se efetuem os exames de diagnóstico necessários antes de iniciar autonomamente uma dieta isenta de glúten (3).

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Mito 2

A eliminação de lacticínios da alimentação melhora a sensação de barriga inchada

Variedade de laticínios numa mesa

Um dos sintomas mais comuns em indivíduos que sofrem de intolerância à lactose, é a sensação de “barriga inchada” após o consumo de alimentos que contém este açúcar (como o leite, iogurte, natas ou queijo) (7).

Porém, a sintomatologia associada ao consumo de lactose é variada. Alguns indivíduos toleram o consumo de iogurtes ou queijo, excluindo apenas o leite da sua dieta. Outros indivíduos são forçados a excluir todos os lacticínios de forma a eliminar os sintomas gastrointestinais.

Assim, este novo regime alimentar deve ser acompanhado de um nutricionista, de forma a prevenir eventuais carências nutricionais ou a adoção desnecessária de uma dieta demasiado restritiva (7).

Para além disso, antes de iniciar qualquer tipo de dieta, é essencial identificar a origem dos sintomas gastrointestinais, de forma a compreender se a intolerância à lactose é a causa principal ou se está associada a outra patologia-base (como a Síndrome do Intestino Irritável) (7).

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Mito 3

A ingestão de determinados chás de ervas melhora a sensação de barriga inchada

Mulher a beber chá


A sensação de barriga inchada pode estar comummente (e incorretamente) associada a obstipação ou retenção de líquidos. Assim, a promoção não fundamentada de chás específicos aparece frequentemente associada ao alívio do inchaço abdominal.

A regulação do trânsito intestinal pode ser um passo inicial válido na gestão do inchaço abdominal. Porém, do ponto de vista científico, e considerando as pequenas quantidades de gás que ficam espontaneamente acumuladas no intestino em situações de obstipação, é expectável que a evacuação tenha efeitos terapêuticos pouco significativos na sensação de barriga inchada.

Relativamente à retenção de líquidos enquanto causa de inchaço abdominal, esta está associada a fenómenos de intolerância alimentar e não à ingestão hídrica insuficiente (1, 2).

Mito 4

A sensação de barriga inchada é causada maioritariamente pelo aumento de gás no trato gastrointestinal

Mulher com dores de barriga

A maior parte dos pacientes acredita que os seus sintomas se devem ao aumento de gás no trato gastrointestinal, o que só é verdade para uma pequena percentagem das pessoas que sofrem de inchaço abdominal (1).

A aerofagia (ou seja, a deglutição excessiva de gás), causada pela rápida velocidade de ingestão alimentar ou pelo consumo de bebidas gaseificadas, é apontada como uma das causas do inchaço ou distensão abdominal. Porém, esta tende a não ser a causa principal da sensação de barriga inchada por dois motivos principais.

Em primeiro lugar, os indivíduos que tendem a deglutir ar em excesso são os mesmos que o expelem através de eructação, pelo que não acumulam gás suficiente para causar inchaço abdominal. Em segundo lugar, os gases que avançam do estômago para o intestino delgado são rapidamente absorvidos e difundidos na parede intestinal ou libertados através do ânus, em vez de se manterem circunscritos à cavidade abdominal (1).

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Mito 5

É possível eliminar a causa da sensação de barriga inchada apenas com a restrição autónoma de determinados alimentos da dieta

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A causa do inchaço abdominal é complexa e muitas vezes multifatorial (ou seja, causada por mais do que um fator ou mais do que um alimento).

De forma a determinar a terapêutica de tratamento adequada e individualizada para a redução da sensação de “barriga inchada”, é essencial que se consulte um profissional de saúde e se efetuem os exames de diagnóstico necessários (2, 8).

Assim, a estratégia terapêutica para combater a barriga inchada é altamente dependente de um diagnóstico médico. Esta pode ser caraterizada quer pela restrição controlada de determinados alimentos da dieta (como alimentos que contenham glúten, lactose ou hidratos de carbono de cadeia curta), quer pela prescrição de tratamentos farmacológicos ou cirúrgicos específicos.

O que podemos concluir?

A sensação de barriga inchada é uma manifestação complexa. Para a maioria, ocorre apenas após as refeições e é resolvida espontaneamente. Para outros, é uma sensação crónica e incómoda, com um impacto negativo no dia a dia.

Sendo uma manifestação comum a uma percentagem significativa da população, é possível encontrar uma ampla variedade de informação associada à gestão de sintomas, mas nem sempre baseada em evidência científica.

Assim, se sofre de inchaço ou distensão abdominal, evite ingressar em regimes alimentares restritivos e desnecessários e consulte previamente um médico.

Fontes

  1. Malagelada JR, Accarino A, Azpiroz F. Bloating and Abdominal Distension: Old Misconceptions and Current Knowledge. Am J Gastroenterol. 2017 Aug;112(8):1221-1231.
  2. Lacy BE, Cangemi D, Vazquez-Roque M. Management of Chronic Abdominal Distension and Bloating. Clin Gastroenterol Hepatol. 2020 Apr 1:S1542-3565(20)30433-X.
  3. Reilly NR. The Gluten-Free Diet: Recognizing Fact, Fiction, and Fad. J Pediatr. 2016 Aug;175:206-10.
  4. Cabanillas B. Gluten-related disorders: Celiac disease, wheat allergy, and nonceliac gluten sensitivity. Crit Rev Food Sci Nutr. 2020;60(15):2606-2621.
  5. Niland B, Cash BD. Health Benefits and Adverse Effects of a Gluten-Free Diet in Non-Celiac Disease Patients. Gastroenterol Hepatol (N Y). 2018 Feb;14(2):82-91.
  6. Shepherd SJ, Gibson PR. Nutritional inadequacies of the gluten-free diet in both recently-diagnosed and long-term patients with coeliac disease. J Hum Nutr Diet. 2013 Aug;26(4):349-58. 
  7. Szilagyi A, Ishayek N. Lactose Intolerance, Dairy Avoidance, and Treatment Options. Nutrients. 2018 Dec 15;10(12):1994. 
  8. Kamboj AK, Oxentenko AS. Workup and Management of Bloating. Clin Gastroenterol Hepatol. 2018;16:1030-1033.
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