Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
30 Set, 2020 - 17:45

Dieta sem glúten: quem deve fazer e quais os erros mais comuns

Nutricionista Hugo Canelas

A dieta sem glúten é dada como uma das melhores formas para perder peso e melhorar o bem-estar geral, mas não é tão simples como retirar pão e massa da alimentação diária.

Dieta sem glúten

A dieta sem glúten tem ganho muita popularidade como técnica para perda de peso e melhoria do bem-estar geral.

Esta dieta envolve a exclusão de todos os alimentos que contenham um conjunto de proteínas vegetais – as proteínas do glúten – que são de difícil digestão no trato gastrointestinal de indivíduos mais suscetíveis. Os alimentos ricos em glúten são os que classicamente têm os cereais trigo, centeio e cevada – ou derivados – como base.

No entanto, será mesmo benéfico retirar os cereais da sua alimentação, mesmo que não apresente nenhuma intolerância à sua porção proteica?

Quem deve seguir uma dieta sem glúten?

Mulher com dores de barriga

O glúten é a designação dada à família de proteínas encontradas no trigo, centeio, cevada e espelta. O nome contém a palavra latina para cola (“glue”), uma vez que a principal propriedade destas proteínas é conferir consistência e elasticidade após mistura com água (1).

Algumas pessoas sofrem de uma doença gastrointestinal autoimune, a doença celíaca, desenvolvendo alguns sintomas desagradáveis após consumir alimentos com glúten. Esta doença pode provocar lesões na parede do intestino, dificultando a absorção de nutrientes, quando em crianças, afetando o crescimento e desenvolvimento normais (2).

Esta dieta deve ser seguida em 3 casos específicos: doença celíaca, intolerância ao glúten não-celíaca e alergia à proteína do trigo.

1

A doença celíaca

A doença celíaca tem origem autoimune, ou seja, envolve uma reação imunológica exacerbada à presença de glúten no intestino, e afeta cerca de 1% da população (2).

Os doentes celíacos podem experimentar sintomas como dores de estômago, diarreia, obstipação, eczema, inchaço, anemia, cansaço e depressão (3).

2

Intolerância ao glúten não-celíaca

Para além da doença celíaca, existe uma outra forma de sensibilidade ao glúten, designada não-celíaca, que é frequentemente discutida e é altamente controversa entre profissionais de saúde (4).

Embora não tenha o mesmo mecanismo autoimune, os sintomas da sensibilidade ao glúten não-celíaca podem ser semelhantes aos da doença celíaca (5).

3

Alergia à proteína do trigo

Por fim, uma outra doença que está associada ao glúten é a alergia à proteína do trigo, mas é relativamente rara, especialmente em adultos, e afeta menos de 1% da população mundial (6).

Quais os alimentos a evitar numa dieta sem glúten

Variedade de alimentos ricos em cereais

Evitar por complete o glúten pode ser uma tarefa complicada, principalmente porque os cereais e as suas farinhas são parte quase indispensável de muitos dos alimentos que consideramos essenciais no nosso dia a dia.

As principais fontes de glúten da dieta são:

  • Farelo e a farinha de trigo, espelta, kamut e semolina
  • Centeio e alimentos que o contenham
  • Cevada e alimentos que a contenham
  • Aveia, por contaminação cruzada com os cereais acima, que ocorre nos centros de processamento
  • Triticale
  • Malte
  • Levedura de cerveja

Sendo os cereais a principal fonte de glúten, alguns alimentos podem ser problemáticos para as pessoas que a ele sejam intolerantes, como por exemplo:

  1. Pão de trigo, centeio e cevada.
  2. Massas e couscous.
  3. Cereais de pequeno-almoço.
  4. Produtos de pastelaria e confeitaria como bolos, muffins, pizzas e sobremesas.
  5. Alimentos de snack como doces, barras de cereais, bolachas, refeições pré-confecionadas, alguns tipos de batatas fritas de pacote e alguns tipos de frutos secos.
  6. Molhos como o de soja, teriyaki, hoisin, marinadas e alguns molhos para saladas.
  7. Bebidas como a cerveja e whisky.

Assim sendo, a forma mais simples e fácil de evitar o glúten é tentar ingerir alimentos pouco processados ou que contenham apenas um ingrediente – como leite, frutas e vegetais, ou frutos secos não processados.

Outra forma é ler com atenção os rótulos e garantir que não aparecem denominações como (7):

  • Trigo e variantes, centeio, cevada e aveia
  • Malte, extrato de malte e xarope de malte
  • Cereais (sem indicar a origem)
  • Amido de…/ amido modificado
  • Proteína vegetal (sem indicar a origem)
  • Fibras alimentares (sem indicar a origem)
  • Aditivos do grupo dos E-14XX

Quais os alimentos a incluir numa dieta sem glúten

Cesto com variedade de frutas e legumes
  1. Todas as carnes e peixes, exceto se forem panadas, como douradinhos.
  2. Ovos.
  3. Produtos lácteos, exceto alguns aromatizados.
  4. Frutas e vegetais.
  5. Grãos como arroz, quinoa, tapioca, millet, milho, trigo sarraceno e aveia, desde que rotulada “sem-glúten”.
  6. Amidos e farinhas à base de batata, milho, soja, amêndoa e coco.
  7. Oleaginosas, incluindo frutos secos e sementes, desde que não processadas.
  8. Óleos e cremes vegetais.
  9. Especiarias.
  10. Grande parte das bebidas, exceto cerveja e whisky.

Quais os principais erros de quem faz uma dieta sem glúten?

Casal a ler rótulos de alimentos par verificar diferentes formas de açucar nos alimentos
1

Não interpretar corretamente os rótulos

É bastante fácil eliminar o pão e as bolachas da dieta. No entanto, há muito mais numa dieta sem glúten além de eliminar estes alimentos. A leitura dos rótulos é indispensável uma vez que, como referido acima, nem todos os ingredientes se resumem a trigo ou centeio.

Denominações ou termos como amido, proteínas vegetal, fibra vegetal e até mesmo alguns aditivos podem ser sinónimos de glúten que facilmente escapam aos olhos daqueles que apenas procuram pelos nomes dos cereais na lista de ingredientes.

Como a indústria não é legalmente obrigada a listar todos os ingredientes que contenham glúten – apenas aqueles que contêm trigo, um alergénio –, o mais fácil é mesmo escolher os alimentos que contenham a denominação “gluten-free” ou sem glúten.

2

Considerar que todos os alimentos sem glúten são saudáveis

É importante esclarecer que muitos dos alimentos sem glúten, nomeadamente bolos, biscoitos e snacks são altamente processados, ricos em gorduras trans e açúcar, e podem facilmente contribuir para o aumento de peso (8).

3

Mau planeamento de refeições

Embora haja cada vez mais opções, a dieta sem glúten pode ser algo limitadora e por vezes monótona, principalmente porque uma boa parte das refeições – especialmente as “cheat-meals” – têm por base algum tipo de cereal.

Está já confirmado que uma dieta sem glúten para a vida é a única forma de tratamento para a doença celíaca e oportunidades para “pecar” podem traduzir-se em complicações que, quando repetidas com frequência, vão desde carências vitamínicas até ao aumento significativo do risco de cancro do cólon.

No entanto, saber destes riscos não é suficiente para muitas pessoas e na verdade, cerca de ¼ das pessoas diagnosticadas com doença celíaca não aderem corretamente à dieta (9).

4

Acreditar que uma dieta sem glúten irá resolver todos os problemas de saúde

Caso seja doente celíaco ou apresente uma sensibilidade ao glúten não-celíaca, uma dieta sem glúten irá sem dúvida melhorar a sua digestão e os seus níveis de energia, entre outras vantagens.

Porém, não espere que esta dieta resolva todos os seus problemas de saúde. Por exemplo, embora algumas pessoas percam peso com esta dieta – sendo esta uma das principais razões da sua popularidade -, nem toda a gente tem os mesmos resultados e há inclusive quem ganhe peso (10).

Para além disso, outros problemas como carências nutricionais específicas e obstipação podem resultar de uma dieta sem glúten.

Os estudos referem que seguir uma dieta isenta de glúten não previne ou trata carências nutricionais específicas (811). Isto deve-se ao facto de as pessoas que seguem esta dieta optarem por alimentos processados em detrimento de outros mais nutritivos como frutas e vegetais (11).

Por outro lado, grande parte dos alimentos sem glúten não é fortificada com vitaminas do complexo B, incluindo o ácido fólico. Uma vez que o pão fortificado é uma fonte interessante destas vitaminas, as pessoas que seguem uma dieta isenta de glúten estão em risco de carência.

Quanto à obstipação, é do conhecimento geral que a ingestão de fibras é de extrema importância para a saúde intestinal. No entanto, partindo do principio que a dieta sem glúten envolve a eliminação de fontes importantes de fibras – como o pão e outros derivados de grãos e cereais – a obstipação constitui um dos efeitos secundários desta dieta.

Paralelamente a isso, a grande maioria dos substitutos isentos de glúten são extremamente pobres em fibras, o que pode piorar ainda mais a obstipação (11, 12).

Fontes

  1. Tilley, K. A., et.al. (2001). Tyrosine Cross-Links:  Molecular Basis of Gluten Structure and Function. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11368646
  2. Ludvigsson, J. F., et.al. (2014). Screening for celiac disease in the general population and in high-risk groups. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25922671
  3. Dewar DH, Donnelly SC, McLaughlin SD, Johnson MW, Ellis HJ, Ciclitira PJ. (2012). Celiac disease: management of persistent symptoms in patients on a gluten-free diet. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22493548/
  4. Fasano, A., et.al. (2015). Nonceliac Gluten Sensitivity. Disponível em: https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(15)00029-3/fulltext?referrer=https%3A%2F%2Fpubmed.ncbi.nlm.nih.gov%2F25583468%2F
  5. Hadjivassiliou, M., et.al. (2010). Gluten sensitivity: from gut to brain. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S147444220970290X
  6. Zuidmeer, L., et.al. (2008). The prevalence of plant food allergies: A systematic review. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0091674908004065
  7. APC. (n.d.). Dieta isenta de glúten. Disponível em: https://www.celiacos.org.pt/alimentos/
  8. Vici, G., et.al. (2016). Gluten free diet and nutrient deficiencies: A review. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27211234
  9. Villafuerte-Galvez J, Vanga RR, Dennis M, et al. (2015). Factors governing long-term adherence to a gluten-free diet in adult patients with coeliac disease. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/apt.13319
  10. Calcaterra V, Regalbuto C, Madè A, Magistrali M, Leonard MM, Cena H. (2019). Coexistence of excessive weight gain and celiac disease in children: An unusual familial condition. Disponível em: https://pghn.org/DOIx.php?id=10.5223/pghn.2019.22.4.407
  11. Saturni, L., et.al. (2010). The Gluten-Free Diet: Safety and Nutritional Quality. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3257612/
  12. THOMPSON, T. (2000). Folate, Iron, and Dietary Fiber Contents of the Gluten-free Diet. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11103663
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