Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
22 Abr, 2020 - 14:13

Sensibilidade ao glúten: esta doença existe ou não?

Nutricionista Hugo Canelas

A ingestão de glúten por pessoas mais suscetíveis pode desencadear sintomas, mas apenas 1% delas sofre de doença celíaca.

Mulher com sensibilidade ao glúten

A doença celíaca é a forma mais severa de intolerância ao glúten, a porção proteica encontrada em cereais como o trigo, o centeio e a cevada.

Embora os estudos epidemiológicos europeus e norte-americanos indiquem que é uma doença relativamente comum, podendo estar presente em até 1% da população, existe um certo grau de sub-diagnóstico devido à progressão e instalação dos sintomas característicos (1).

Existe uma outra forma de sensibilidade ao glúten, designada não-celíaca, que é frequentemente discutida e é altamente controversa entre profissionais de saúde (2).

A controvérsia surge logo na designação, havendo profissionais que, de acordo com os estudos mais recentes, defendem que esta designação não é a mais correta.

Neste artigo discutimos as características desta doença e se a denominação “sensibilidade ao glúten” será a mais correta ou não.

Sensibilidade ao Glúten: O que é o glúten?

Sensibilidade ao glúten: mulher a rejeitar comer pão

Chamamos glúten à porção proteica existente no trigo, centeio e cevada. De entre todos os cereais contendo glúten, o trigo é sem dúvida o mais consumido, estando presente em massas e derivados de farinhas como pão e produtos de pastelaria.

As duas principais proteínas do glúten são a gliadina e a gluteína que, quando misturadas com água, são responsáveis pelas propriedades elásticas e textura das farinhas (345).

Glúten: tire todas as suas dúvidas sobre esta proteína
Veja também Glúten: tire todas as suas dúvidas sobre esta proteína

Doenças relacionadas com o glúten

dor no fundo da barriga nas mulheres

Algumas doenças estão relacionadas com o glúten, sendo a mais conhecida a forma autoimune, a doença celíaca (6).

Nestes casos, o sistema imunitário “confunde” as proteínas do glúten com agentes invasores, desencadeando uma resposta imune para as atacar e eliminar.

Nesta tentativa, o sistema imunitário ataca também as estruturas da parede intestinal, causando danos severos na superfície absortiva (7).

No entanto, a sensibilidade ao glúten não celíaca é diferente da forma autoimune (8) e, embora o mecanismo fisiopatológico seja diferente, os sintomas podem ser semelhantes (9).

Outra doença associada ao glúten é a alergia ao trigo, mas esta condição é relativamente rara, especialmente em adultos, afetando menos de 1% da população mundial (10).

As reações adversas ao glúten têm vindo a ser associadas a várias doenças como a ataxia do glúten (na qual a resposta imune ao consumo do glúten atinge o cérebro), tiroidite de Hashimoto, diabetes tipo 1, autismo, esquizofrenia e depressão (111213141516).

Embora o glúten não seja o agente causador destas doenças (exceto da ataxia), pensa-se que o seu consumo possa piorar os sintomas. Todavia, em alguns casos, embora uma dieta isenta de glúten tenha melhorado os sintomas destas doenças, são necessários mais estudos para confirmar a sua eficácia.

O que é a sensibilidade ao glúten?

Sensibilidade ao glúten: FODMAP

Mais recentemente, a sensibilidade ao glúten tem vindo a receber alguma atenção da comunidade médica e da população geral (2).

De forma simples, as pessoas com sensibilidade apresentam alguns dos sintomas relacionados com a ingestão de glúten e respondem de forma positiva a uma dieta isenta, mas não têm critérios de diagnóstico de doença celíaca ou alergia ao trigo.

Embora não seja cientificamente clara a forma como a sensibilidade ao glúten atua, uma das características destas pessoas é a inexistência do dano intestinal típico da doença celíaca (8).

Cada vez mais estudos relacionam esta doença com o consumo de FODMAP, uma categoria de hidratos de carbono e fibras que, por serem pouco digeríveis e facilmente fermentáveis, causam desconforto digestivo em pessoas mais suscetíveis (17).

Uma vez que não existem testes para determinar a sensibilidade ao glúten, o diagnóstico é geralmente feito por exclusão de outras causas.

O processo de diagnóstico de sensibilidade ao glúten proposto é o seguinte (18):

  1. A ingestão de glúten provoca sintomas imediatos (horas após a ingestão), quer digestivos quer extraintestinais.
  2. Os sintomas são resolvidos de forma imediata após instituição de uma dieta isenta de glúten.
  3. A reintrodução de glúten provoca reaparecimento dos sintomas.
  4. Não há diagnóstico de doença celíaca e a alergia ao glúten.
  5. A prova-cega com glúten confirma o diagnóstico.

Um estudo realizado em pessoas que reportam sensibilidade ao glúten confirma que apenas 25% das pessoas preenchem os critérios de diagnóstico (19).

Os sintomas são algo difusos e variam desde inchaço e dor abdominal, flatulência, diarreia, perda de peso, eczema, eritema, dor de cabeça, fadiga, depressão e dores nos ossos e articulações (2021).

Embora não haja dados concretos sobre a prevalência desta doença, acredita-se que cerca de 0,5 a 0,6% da população mundial apresente sensibilidade ao glúten (22), sendo mais comum em adultos e muito mais prevalente nas mulheres do que nos homens (2324).

Como saber se um alimento tem glúten em 3 passos
Veja também Como saber se um alimento tem glúten em 3 passos

Será “sensibilidade ao glúten” o termo correto?

Curiosamente, vários estudos sugerem que grande parte das pessoas que acreditam ser intolerantes não reagem, de todo, à ingestão de glúten.

Um estudo avaliou 37 pessoas com síndrome do colon irritável e sensibilidade ao glúten auto-reportada. Nele, os participantes consumiram uma dieta pobre em FODMAP, mas os investigadores substituíram as farinhas isentas de glúten por glúten isolado.

No final, o glúten isolado não teve qualquer efeito nos participantes e o estudo concluiu que a suposta sensibilidade ao glúten era, na verdade, uma sensibilidade aos FODMAP (17).

Outro estudo relatou resultados semelhantes, revelando que as pessoas com sensibilidade ao glúten auto-reportada reagiam não ao gluten, mas sim aos frutanos, uma categoria de FODMAP presente no trigo (25).

Embora haja dados fortes para acreditar que a principal razão da sensibilidade ao glúten auto-reportada sejam os FODMAP, o glúten também pode ter o seu papel nos sintomas.

De qualquer forma, vários investigadores acreditam que a utilização de termos como sensibilidade ao trigo ou síndrome de intolerância ao trigo seja mais adequado nestes casos (24, 26).

Conclusão

O consumo de glúten e do trigo é seguro para a maioria das pessoas, mas uma pequena parte reage de forma negativa a ingestão de produtos que contenham estes ingredientes.

Nestes casos a solução é, primeiro lugar, consultar o seu médico para excluir doenças mais graves como a doença celíaca e a alergia ao trigo e, em caso de diagnóstico de intolerância ao glúten, adotar uma dieta isenta deste tipo de proteínas.

Deve, no entanto, ter em atenção que grande parte dos produtos isentos de glúten existentes no mercado são altamente processados, contendo quantidades muito elevadas e açúcar, gordura saturada e conservantes.

Fontes

  1. Rubio-Tapia, A., et.al. (2012). The prevalence of celiac disease in the United States. Disponível em: https://insights.ovid.com/pubmed?pmid=22850429
  2. Fasano, A., et.al. (2015). Nonceliac Gluten Sensitivity. Disponível em: https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(15)00029-3/fulltext?referrer=https%3A%2F%2Fpubmed.ncbi.nlm.nih.gov%2F25583468%2F
  3. Wieser, H. (2007). Chemistry of gluten proteins. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0740002006001535
  4. Wieser, H. (1996). Relation Between Gliadin Structure and Coeliac Toxicity. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8783747/
  5. Tilley, K. A., et.al. (2001). Tyrosine Cross-Links:  Molecular Basis of Gluten Structure and Function. Disponível em: https://pubs.acs.org/doi/10.1021/jf010113h
  6. Lundin, K. & Sollid, L. (2014). Advances in coeliac disease. Disponível em: https://insights.ovid.com/article/00001574-201403000-00008
  7. Castillo, N. E., et.al. (2014). The present and the future in the diagnosis and management of celiac disease. Disponível em: https://academic.oup.com/gastro/article/3/1/3/2910191
  8. Troncone, R., & Jabri, B. (2011). Coeliac disease and gluten sensitivity. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1365-2796.2011.02385.x
  9. Hadjivassiliou, M., et.al. (2010). Gluten sensitivity: from gut to brain. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S147444220970290X
  10. Zuidmeer, L., et.al. (2008). The prevalence of plant food allergies: A systematic review. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0091674908004065
  11. Hadjivassiliou, M., et.al. (2008). Gluten ataxia. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18787912/
  12. Sategna-Guidetti, C., et.al. (1998). Autoimmune Thyroid Diseases and Coeliac Disease. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9872614/
  13. Hogg-Kollars, S., et.al. (2014). Type 1 diabetes mellitus and gluten induced disorders. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4185872/
  14. Buie, T. (2013). The Relationship of Autism and Gluten. Disponível em: https://www.clinicaltherapeutics.com/article/S0149-2918(13)00184-7/fulltext
  15. Kalaydjian, A. E., et.al. (2006). The gluten connection: the association between schizophrenia and celiac disease. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1600-0447.2005.00687.x
  16. Peters, S. L., et.al. (2014). Randomised clinical trial: gluten may cause depression in subjects with non-coeliac gluten sensitivity – an exploratory clinical study. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/apt.12730
  17. Biesiekierski, J. R., et.al. (2013). No Effects of Gluten in Patients With Self-Reported Non-Celiac Gluten Sensitivity After Dietary Reduction of Fermentable, Poorly Absorbed, Short-Chain Carbohydrates. Disponível em: https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(13)00702-6/fulltext?referrer=https%3A%2F%2Fpubmed.ncbi.nlm.nih.gov%2F23648697%2F
  18. Volta, U., et.al. (2013). Non-celiac gluten sensitivity: questions still to be answered despite increasing awareness. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4003198/
  19. Biesiekierski, J. R., et.al. (2014). Characterization of Adults With a Self-Diagnosis of Nonceliac Gluten Sensitivity. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1177/0884533614529163
  20. Czaja-Bulsa, G. (2015). Non coeliac gluten sensitivity – A new disease with gluten intolerance. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0261561414002180
  21. Catassi, C., et.al. (2013). Non-Celiac Gluten Sensitivity: The New Frontier of Gluten Related Disorders. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3820047/
  22. Sapone, A., et.al. (2012). Spectrum of gluten-related disorders: consensus on new nomenclature and classification. Disponível em: https://bmcmedicine.biomedcentral.com/articles/10.1186/1741-7015-10-13
  23. Volta, U., et.al. (2014). An Italian prospective multicenter survey on patients suspected of having non-celiac gluten sensitivity. Disponível em: https://bmcmedicine.biomedcentral.com/articles/10.1186/1741-7015-12-85
  24. Guandalini, S., & Polanco, I. (2015). Nonceliac Gluten Sensitivity or Wheat Intolerance Syndrome? Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0022347614012086
  25. Skodje, G. I., et.al. (2018). Fructan, Rather Than Gluten, Induces Symptoms in Patients With Self-Reported Non-Celiac Gluten Sensitivity. Disponível em: https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(17)36302-3/fulltext?referrer=https%3A%2F%2Fpubmed.ncbi.nlm.nih.gov%2F29102613%2F
  26. Carroccio, A., et.al. (2014). Non-Celiac Wheat Sensitivity Is a More Appropriate Label Than Non-Celiac Gluten Sensitivity. Disponível em: https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(13)01582-5/fulltext?referrer=https%3A%2F%2Fpubmed.ncbi.nlm.nih.gov%2F24275240%2F
Veja também