Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
05 Mar, 2020 - 06:30

Fact-check: faz sentido fazer uma dieta sem glúten para emagrecer?

Nutricionista Hugo Canelas

O princípio para a perda de peso é transversal, incluindo à dieta sem glúten: o consumo de energia deve ser inferior às necessidades.

Sensibilidade ao glúten: mulher a rejeitar comer pão
fact-check falso

Questão em análise

Em teoria, uma dieta sem glúten possibilita um melhor controlo na expressão de insulina e, por isso, promove uma perda de peso superior às convencionais. No entanto, o fator determinante para a perda de peso não é o tipo de dieta que se pratica.

Uma dieta sem glúten promove sim a perda de peso, mas porque se eliminam calorias indesejadas e se introduzem mais frutas, legumes, vegetais e proteínas magras. Se a premissa do consumo energético ser inferior às necessidades se cumprir, qualquer dieta promove a perda de peso, sem riscos nutricionais associados.

Embora seja comum perder peso com uma dieta sem glúten, isso acontece porque ao mesmo tempo que se eliminam calorias indesejadas (na forma de alimentos processados), também se introduzem mais frutas, legumes, vegetais e proteínas magras.

O princípio para a perda de peso é transversal a qualquer dieta, seja ela sem glúten, cetogénica, paleo ou mediterrânica: o consumo de energia deve ser inferior às necessidades energéticas. Neste sentido e desde que esta premissa básica da física seja respeitada, qualquer dieta planeada para a perda de peso funciona.

No entanto, com a evolução do estudo na área das ciências da nutrição, têm surgido vários exemplos de dietas para perder peso, uns mais exóticos, outros mais baseados na ciência, mas que geralmente pressupõem a restrição em um ou mais grupos de alimentos.

A dieta sem glúten para perder peso é apenas mais um destes exemplos. Por ser cada vez mais disseminada nos meios de comunicação social, por pessoas sem formação para tal, este método têm uma coisa em comum com os demais: não sendo estritamente necessário é potencialmente nocivo e mal informado quanto aos riscos e benefícios.

É importante esclarecer que muitos dos alimentos sem glúten, nomeadamente bolos, biscoitos e snacks são altamente processados, riscos em gorduras trans e açúcar, e podem facilmente contribuir para a acumulação de peso (1).

No caso, se for sensível ao glúten, deve evitar consumir alimentos que o contenham, até porque este é o único tratamento disponível para a doença celíaca. Caso contrário, retirar os cereais da dieta pode causar algum desconforto e efeitos adversos (23).

O QUE É UMA DIETA SEM GLÚTEN?

Alimentos que parecem saudáveis mas não são

Uma dieta isenta de glúten envolve excluir todos os alimentos que contenham um conjunto de proteínas vegetais – as proteínas do glúten – que são de difícil digestão no trato gastrointestinal de indivíduos mais suscetíveis. Os alimentos ricos em glúten são os que classicamente têm os cereais trigo, centeio e cevada – ou derivados – como base.

A maior parte dos estudos que envolvem as dietas sem glúten foram realizados em doentes celíacos mas existe uma outra condição, a sensibilidade ao glúten não celíaca, que também envolve reações adversas à presença de gliadinas no intestino.

No caso, se for sensível ao glúten, deve evitar consumir alimentos que o contenham, até porque este é o único tratamento disponível para a doença celíaca. Caso contrário, retirar os cereais da dieta pode causar algum desconforto e efeitos adversos (23).

O QUE É O GLÚTEN?

O glúten é a designação dada á família de proteínas encontradas no trigo, centeio, cevada e espelta. O nome contem a palavra latina para cola (“glue”) uma vez que a principal propriedade destas proteínas é conferir consistência e elasticidade após mistura com água (4).

Infelizmente, algumas pessoas podem desenvolver alguns sintomas desagradáveis após consumir alimentos com glúten. Nos casos mais graves, onde se verifica uma reação do sistema imune à presença de glúten no intestino, damos o nome de doença celíaca. 

Sendo uma doença autoimune, a doença celíaca afeta cerca de 1% da população e pode levar a alterações estruturais e funcionais do intestino, dificultando a absorção de nutrientes, quando em crianças, afetando o crescimento e desenvolvimento normais (5).

O QUE LEVA AS PESSOAS A FAZER UMA DIETA SEM GLÚTEN?

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Pessoas alérgicas ao trigo, doentes celíacos ou pessoas com sensibilidade ao glúten não celíaca devem evitar consumir grande parte dos cereais.

Mais ou menos violentos, os sintomas de uma reação adversa ao glúten incluem dores e inchaço abdominal, alterações no trânsito intestinal (diarreia ou obstipação) e manifestações cutâneas como eczema.

Felizmente, apenas 1% da população parece estar condenado a este pesadelo sempre que inadvertidamente consome algo com o mínimo de glúten por isso, se não apresenta nenhum destes sintomas após consumo de pão ou massas, pela sua saúde, não elimine os cereais da sua alimentação.

Embora seja comum perder peso com uma dieta, isso acontece porque ao mesmo tempo que se eliminam calorias indesejadas na forma de alimentos processados e pouco saudáveis, também se introduzem mais frutas, legumes, vegetais e proteínas magras.

É importante esclarecer que muitos dos alimentos sem glúten, nomeadamente bolos, biscoitos e snacks são altamente processados, ricos em gorduras trans e açúcar, e podem facilmente contribuir para a acumulação de peso (1).

EFEITOS NEGATIVOS DE UMA DIETA SEM GLÚTEN

Dieta sem glúten: pão glúten free

Embora seja parte fundamental do tratamento dos doentes celíacos, uma dieta isenta de glúten apresenta alguns aspetos negativos, nos quais não vale a pena arriscar caso seja saudável.

Risco de carências nutricionais

Os celíacos são doentes de risco nutricional. As carências mais marcadas são e fibras, ferro, cálcio, zincos e vitaminas B12, A, D, E e K (6).

Curiosamente (ou não), os estudos referem que seguir uma dieta isenta de glúten não previne ou trata carências nutricionais específicas (17). Isto prende-se com o facto de as pessoas que seguem este tipo de dietas optarem mais rapidamente por alimentos isentos de glúten, extremamente processados, em detrimento de outros mais nutritivos como frutas e vegetais (7).

Para além disso, a maioria dos produtos sem glúten não são fortificados com vitaminas do complexo B, incluindo o ácido fólico. Uma vez que o pão fortificado é uma fonte interessante destas vitaminas, as pessoas que seguem uma dieta isenta de glúten estão em risco de carência.

Isto é especialmente preocupante em mulheres grávidas, uma vez que o complexo B é vital para o crescimento e desenvolvimento do feto (8).

Obstipação

A importância da ingestão de fibras para a saúde intestinal está mais do que estudada (79).

A obstipação é um efeito secundário comum das dietas sem glúten, por eliminar fontes importantes de fibras como o pão e outros derivados de grãos e cereais.

Paralelamente a isso, a grande maioria dos substitutos isentos de glúten são extremamente pobres em fibras, o que pode piorar ainda mais a obstipação (1011).

Preço e socialização

Seguir uma dieta sem glúten pode ser complicado em termos financeiros.

De acordo com as pesquisas, os alimentos sem glúten são cerca de 2 a 3 vezes mais caros do que os chamados convencionais (12). Estes custos estão associados à produção, que é bem mais dispendiosa.

Por exemplo, este tipo de alimentos é submetido a testes de segurança alimentar bem mais apertados e rigorosos do que os alimentos regulares.

Grande parte das interações sociais é feita à volta da mesa. Este ponto pode representar uma barreira para os adeptos de uma dieta sem glúten.

Embora cada vez mais restaurantes apresentem no menu algumas opções sem glúten, a verdade é que existe sempre o risco de contaminação cruzada (13).

Na verdade, cerca de 21% dos doentes celíacos evitam eventos sociais como forma de conseguirem seguir a dieta (14).

Fontes

  1. Vici, G., et.al. (2016). Gluten free diet and nutrient deficiencies: A review. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27211234
  2. Dewar, D.H., et.al. (2012). Celiac disease: management of persistent symptoms in patients on a gluten-free diet. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22493548
  3. Elli, L., et.al. (2015). Diagnosis of gluten related disorders: Celiac disease, wheat allergy and non-celiac gluten sensitivity. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22493548
  4. Tilley, K. A., et.al. (2001). Tyrosine Cross-Links:  Molecular Basis of Gluten Structure and Function. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11368646
  5. Ludvigsson, J. F., et.al. (2014). Screening for celiac disease in the general population and in high-risk groups. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25922671
  6. Barton, S. H., et.al. (2007). Nutritional Deficiencies in Celiac Disease. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17472877
  7. Saturni, L., et.al. (2010). The Gluten-Free Diet: Safety and Nutritional Quality. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3257612/
  8. Strand, T. A., et.al. (2015). Vitamin B-12, Folic Acid, and Growth in 6- to 30-Month-Old Children: A Randomized Controlled Trial. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25802345
  9. Murray, J. A., et.al. (2004). Effect of a gluten-free diet on gastrointestinal symptoms in celiac disease. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15051613
  10. THOMPSON, T. (2000). Folate, Iron, and Dietary Fiber Contents of the Gluten-free Diet. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11103663
  11. Thompson, T., et.al. (2005). Gluten-free diet survey: are Americans with coeliac disease consuming recommended amounts of fibre, iron, calcium and grain foods? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15882378
  12. Stevens, L., & Rashid, M. (2008). Gluten-Free and Regular Foods: A Cost Comparison. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18783640
  13. Roos, S., et.al. (2013). Everyday Life for Women With Celiac Disease. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23899485/
  14. Leffler, D. A., et.al. (2007). Factors that Influence Adherence to a Gluten-Free Diet in Adults with Celiac Disease. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17990115
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