Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
18 Jun, 2018 - 11:00

Fact-check: testes de intolerâncias alimentares são fiáveis?

Nutricionista Hugo Canelas

Será que devemos confiar nos resultados dos testes de intolerâncias alimentares? Saiba mais sobre o assunto.

Fact-checking: testes de intolerâncias alimentares são fiáveis?
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Testes de intolerâncias alimentares são fiáveis? Não.

Não, de maneira nenhuma, fique longe deles. Há 2 tipos major de testes de intolerâncias alimentares a ser vendidos no mercado, uns com recurso a recolha de amostras de sangue e outros utilizando uma máquina de eletroacupunctura chamada VEGA test.

Na prática, é analisada a resposta à ingestão prévia de determinada alimento, recorrendo ao doseamento da imunoglobulina G (IgG), parâmetro que indica precisamente isso: que determinado alimento foi ingerido.

Os investigadores têm tentado dar algum uso clínico à IgG, mas sem sucesso. Para este efeito, a IgG plasmática não tem relevância clínica, tendo inclusive motivado a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica a emitir um comunicado no qual alerta para os riscos desta prática.

Não é preciso referir que, se um teste sanguíneo não se traduz em diagnóstico, muito menos a picada no polegar recorrendo a uma máquina de acupunctura, na qual é analisada a resposta bioelétrica à presença de determinada proteína.

Mais se alerta que planos alimentares elaborados com base nos resultados destes testes podem ser potencialmente danosos para a saúde individual e pública, e são condenados pela Ordem dos Nutricionistas devido à má prática da profissão.

Testes de intolerâncias alimentares: alergia alimentar vs hipersensibilidade alimentar

testes de intolerância alimentares

No panorama científico atual, qualquer reação adversa a um alimento designa-se hipersensibilidade alimentar. A distinção está no mecanismo envolvido: quando são demonstrados mecanismos imunológicos, o termo apropriado é alergia alimentar e, sendo relevante o papel da IgE, o termo é alergia alimentar mediada pela IgE. Todas as outras reações, anteriormente designadas como intolerâncias alimentares, devem ser designadas por hipersensibilidade alimentar não-alérgica” (1).

A alergia alimentar é uma reação adversa aos alimentos ou constituintes alimentares (proteínas ou haptenos) mediada por mecanismos imunológicos (IgE). As reações ocorrem habitualmente imediatamente ou até 2 horas após a exposição, podendo variar de gravidade. Os sintomas são causados pela resposta específica do indivíduo e não pelo alimento em si.

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Embora a maioria das reações seja ligeira, podem ocorrer episódios de anafilaxia que colocam em risco a vida das pessoas. Apesar de qualquer alimento ser potencialmente alergénico, definem-se 8 alimentos que representam cerca de 90% de todas as reações, sendo eles o ovo, o leite, amendoins, frutos secos, peixe, marisco, trigo e soja.

O diagnóstico desta doença implica o conhecimento da história clínica e familiar do doente, sendo utilizadas várias ferramentas como testes cutâneos ou sanguíneos com exatidão variável. Devido à sua importância clínica, as alergias alimentares não devem ser encaradas de ânimo leve, seja por profissionais ou doentes, muito menos diagnosticadas em nome de perder aqueles 3 quilos a mais.

Diferente da alergia, a intolerância alimentar consiste na reação adversa aos alimentos sem causa imunológica. Esta reação é causada por reações tóxicas, farmacológicas, metabólicas, psicológicas ou idiopáticas a substâncias contidas nos alimentos. Uma das mais populares é a intolerância à lactose, que pode ter diversas causas, sejam elas genéticas ou secundárias a tratamentos como radioterapia.

No entanto, o conceito “atual” de intolerância alimentar está completamente deturpado em nome da venda de testes de diagnóstico, os populares testes de intolerâncias alimentares. Este fenómeno é tão grave que levou a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica a emitir um comunicado no qual desmistifica a eficácia destas “ferramentas de diagnóstico” (2).

Testes de intolerâncias alimentares: sanguíneo e o VEGA test

Mas então, qual é o pressuposto destes testes? Em primeiro lugar, temos que distinguir as formas de “diagnóstico”: os testes laboratoriais, que envolvem a recolha de sangue, e os VEGA test, os mais conhecidos pela população, realizados em farmácias por nutricionistas.

Testes sanguíneos

Os testes sanguíneos baseiam-se no facto de que há formação de anticorpos IgG em resposta à presença de proteínas nos alimentos e que, quando o organismo é capaz de digerir de forma eficaz um alimento – ou grupo de alimentos -, isso se deve a deficiências enzimáticas ou outros mecanismos. Como consequência são produzidos compostos que o corpo não reconhece, desenvolvendo-se uma intolerância alimentar. Parece fazer sentido, certo? Mas não faz. E explicamos porquê.

A presença de anticorpos IgG apenas significa que existiu exposição prévia à proteína do alimento em questão, ou seja, se a IgG indica alguma coisa, é a nossa tolerância a um alimento. Embora os investigadores continuem a tentar dar um uso à IgG enquanto marcador bioquímico de relevância no diagnóstico de alergias e intolerâncias, neste momento, estes testes de intolerâncias alimentares são considerados inválidos e sem utilidade clínica, como refere a Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia (2).

Salienta-se ainda que a interpretação dos resultados destes testes de intolerâncias alimentares pode conduzir a casos de restrições alimentares desnecessárias, comprometendo o estado nutricional e a qualidade de vida das pessoas, com especial impacto nas crianças. Podemos então afirmar que para além de não serem cientificamente relevantes, estes estes de intolerâncias alimentares podem constituir um risco para a saúde individual e pública.

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testes de intolerâncias alimentares

VEGA test

Os VEGA test vão um “bocadinho” mais além… ou aquém, dependendo da perspectiva. Os VEGA test, que são os testes de intolerâncias alimentares mais conhecidos pela população, realizados em farmácias, por nutricionistas, fazem uso de um dispositivo de eletroacupunctura, sem que haja necessidade de recolher sangue. Durante o teste são analisados entre 500 e 800 alimentos, e a resposta ao impulso nervoso na ponta do polegar.

Ora sejamos sinceros. Se um teste invasivo é inconclusivo e considerado irrelevante para o diagnóstico médico, não foi preciso pesquisar muito para considerar que o pressuposto de diagnosticar alergias e outras doenças com base no conceito de “patologia energética” é tão ou mais rebuscado do que afirmar que shots de erva trigo substituem as transfusões sanguíneas.

De qualquer forma, ficam 2 estudos que comprovam a inutilidade dos VEGA test nos quais se afirma, entre muitas coisas, que não apresentam qualquer reprodutibilidade, ou seja, se repetir o teste uma e outra vez, os resultados vão ser sempre diferentes (34).

Para além do posicionamento da sociedades da especialidade, também a Ordem dos Nutricionistas se vê obrigada a intervir nesta “grande bagunça”. Segundo o comunicado, o Conselho Jurisdicial “informa que os nutricionistas que aplicam este tipo de testes de intolerâncias alimentares estão a exercer a profissão sem a devida sustentação científica, não respeitando os interesses do cliente, pelo que atuam em violação do preceituado no Código Deontológico da Ordem dos Nutricionistas, não prestigiando nem dignificando a profissão” (5).

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