Revisão Vida Ativa
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04 Nov, 2020 - 11:10

Tem a sensação de barriga inchada? Estas são as possíveis causas

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As causas na origem da barriga inchada podem ser de várias índoles, sendo uma delas a alimentação. Estes são alguns dos alimentos que podem estar a contribuir para a distensão abdominal.

Mulher deitada no sofá com sensação de barriga inchada

Já quase todos nós sentimos, em algum momento da nossa vida, a sensação de inchaço ou distensão abdominal. Para a maioria, esta é uma manifestação que ocorre após as refeições e que se resolve espontaneamente.

Porém, para outros, o inchaço abdominal é uma sensação crónica e incómoda, com um impacto negativo no dia a dia. Neste artigo, vamos perceber o que é o inchaço abdominal, quais as suas possíveis causas e que estratégias poderão ser aplicadas para a redução da “sensação de barriga inchada”.

O que é o inchaço abdominal: porque sentimos a barriga inchada?

Mulher com dores de barriga

O inchaço abdominal ou sensação de barriga inchada é descrito como a sensação de aumento de pressão abdominal provocada pela presença de gases.

Esta sensação pode ou não ser acompanhada de distensão abdominal, ou seja, de um aumento efetivo da circunferência abdominal. Alguns pacientes descrevem-no ainda como uma sensação de enfartamento, que pode ocorrer em qualquer parte do abdómen (1, 2).

Assim, o inchaço abdominal associa-se a uma sensação subjetiva, enquanto que a distensão abdominal é uma manifestação física mensurável através da medição da circunferência abdominal. O inchaço e distensão abdominal podem ocorrer independentemente, embora frequentemente coexistam (1).

Em pessoas saudáveis, a circunferência abdominal aumenta ao longo do dia e volta aos valores normais durante a noite (3). Porém, em indivíduos que sofrem de inchaço e distensão abdominal crónicos, o seu impacto na qualidade de vida é substancial.

Possíveis causas para a sensação de barriga inchada

A causa do inchaço abdominal crónico é complexa, muitas vezes multifatorial (ou seja, causada por mais do que um fator) e ainda pouco compreendida (1).

A maior parte dos pacientes acredita que os seus sintomas se devem apenas ao aumento de gás no trato gastrointestinal. Porém, a causa da sensação de “barriga inchada” poderá variar em termos de gravidade, pelo que o seu diagnóstico é essencial.

1

Síndrome do Intestino Irritável

Mulher com vontade de urinar


A Síndrome do Intestino Irritável (SII) é um distúrbio gastrointestinal crónico caracterizado por dor e desconforto abdominal associados a hábitos intestinais alterados. Este desconforto é muitas vezes acompanhado de inchaço e distensão abdominal (4).

Uma das estratégias terapêuticas utilizadas é o seguimento de uma dieta baixa em FODMAP. Os FODMAP são hidratos de carbono de cadeia curta que não são bem absorvidos no intestino delgado e seguem para o intestino grosso, onde alimentam a microbiota.

Para indivíduos saudáveis, os FODMAP são seguros e constituem um substrato para as bactérias intestinais. Para indivíduos que sofrem de SII, há um aumento de produção de gases pelas bactérias que poderá causar inchaço ou dor abdominal (4, 5).

A dieta baixa em FODMAP é uma dieta altamente restritiva e pouco nutritiva, pelo que é essencial o acompanhamento por parte de um nutricionista. Após o controlo dos sintomas, os alimentos restringidos devem ser reintroduzidos gradualmente e de forma controlada, integrando um plano alimentar específico e individualizado (4)

A evidência tem vindo a detetar algumas diferenças entre a microbiota intestinal de indivíduos que sofrem de SII e de indivíduos saudáveis, embora ainda nenhum estudo se tenha focado especificamente nas implicações da microbiota no inchaço abdominal.

Ainda assim, alguns estudos concluíram que, em indivíduos que sofrem de SII, a suplementação de probióticos específicos melhorou a sensação de inchaço abdominal (1, 6).

2

Crescimento excessivo de bactérias intestinais (SIBO)

O sobrecrescimento de bactérias no intestino delgado (SIBO) pode causar sintomatologia associada à fermentação dos hidratos de carbono. A produção excessiva de gases por parte destas bactérias poderá levar à sensação de barriga inchada (1).

Estima-se que até 20% da população saudável possa sofrer de sintomatologia associada ao SIBO. Porém, este sobrecrescimento de bactérias poderá estar associado à sintomatologia de outras patologias de maior gravidade, como a doença celíaca ou Doença de Crohn.

Assim, torna-se essencial realizar os exames de diagnóstico necessários para determinar a origem do inchaço abdominal, para que possam ser adotadas as estratégias alimentares e/ou farmacológicas indicadas (7).

3

Doença celíaca ou sensibilidade não celíaca ao glúten

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A doença celíaca é uma doença crónica autoimune cujo único tratamento aceite consiste na dieta isenta de glúten para toda a vida.

Nesta patologia, a ingestão de glúten origina um quadro de inflamação intestinal que poderá apresentar como sintomatologia a sensação de “barriga inchada”. Para além disso, ocorre uma redução da capacidade de absorção de nutrientes, comprometendo o estado de saúde do individuo (8, 9).

Assim, se apresenta sintomas suspeitos de doença celíaca, é essencial que consulte um médico para que se efetuem os exames de diagnóstico necessários antes de iniciar autonomamente uma dieta isenta de glúten (1).

4

Intolerância a hidratos de carbono (como a lactose)

A intolerância à lactose é um distúrbio que se refere aos sintomas associados ao consumo de alimentos que contenham lactose (maioritariamente lacticínios).

Os sintomas incluem frequentemente inchaço e distensão abdominal devido ao aumento de retenção de líquidos e ao excesso de fermentação no cólon (11).

A restrição de alimentos que contém lactose é a estratégia alimentar mais utilizada. Porém, esta deve ser acompanhada por um nutricionista de forma a prevenir eventuais carências nutricionais que possam resultar de uma dieta demasiado restritiva (11).

5

Funcionamento gastrointestinal anormal ou outras disfunções fisiológicas

Mulher com dores de barriga

A sensação de “barriga inchada” é comum em pacientes com dispepsia funcional ou motilidade gastrointestinal alterada (ou seja, com alterações nos movimentos de contração do estômago – como gastroparesia – ou do intestino – como dismotilidade do intestino delgado).

Pacientes com trânsito intestinal mais demorado mostraram ter maior distensão abdominal do que pacientes com trânsito intestinal regular (12).

Os indivíduos poderão ainda apresentar outras disfunções fisiológicas que causam a sensação de inchaço abdominal. No caso da dissinergia pélvica, a resposta fisiológica aos gases presentes no estômago ou no intestino é contrária à resposta fisiológica normal, provocando um aumento da circunferência abdominal. No caso de disfunção do pavimento pélvico, há uma maior dificuldade em evacuar eficazmente as fezes e os gases (1).

O que podemos concluir?

A causa da sensação de “barriga inchada” é muitas vezes complexa e multifatorial. De forma a compreender a sua verdadeira origem, é necessário obter informação clínica detalhada sobre o indivíduo como: qual o timing do inchaço abdominal, qual a história clínica e cirúrgica do paciente, que tipo de medicação ou suplementação faz ou quais os seus hábitos alimentares.

A presença de um médico é essencial, na medida em que devem ser realizados exames de diagnóstico (como endoscopias altas, imagiologia abdominal, testes serológicos, entre outros), de forma a excluir quaisquer patologias que possam estar na base dos sintomas.

Após o diagnóstico médico, será então possível determinar uma terapêutica de tratamento adequada e individualizada (13).

Assim, se sofre de “barriga inchada” e considera que este sintoma tem um impacto negativo na sua qualidade de vida, não inicie dietas restritivas ou suplementação de forma autónoma. Consulte primeiro um profissional de saúde.

Fontes

  1. Lacy BE, Cangemi D, Vazquez-Roque M. Management of Chronic Abdominal Distension and Bloating. Clin Gastroenterol Hepatol. 2020 Apr 1:S1542-3565(20)30433-X.
  2. Malagelada JR, Accarino A, Azpiroz F. Bloating and Abdominal Distension: Old Misconceptions and Current Knowledge. Am J Gastroenterol. 2017 Aug;112(8):1221-1231.
  3. Lewis MJ, Reilly B, Houghton LA, Whorwhell PJ. Ambulatory abdominal inductance plethysmography: towards objective assessment of abdominal distention in irritable bowel syndrome. Gut 2001; 48: 216-220.
  4. McKenzie YA, Bowyer RK, Leach H, Gulia P, Horobin J, O’Sullivan NA, Pettitt C, Reeves LB, Seamark L, Williams M, Thompson J, Lomer MC; (IBS Dietetic Guideline Review Group on behalf of Gastroenterology Specialist Group of the British Dietetic Association). British Dietetic Association systematic review and evidence-based practice guidelines for the dietary management of irritable bowel syndrome in adults (2016 update). J Hum Nutr Diet. 2016 Oct;29(5):549-75.
  5. Altobelli E, Del Negro V, Angeletti PM, Latella G. Low-FODMAP Diet Improves Irritable Bowel Syndrome Symptoms: A Meta-Analysis. Nutrients. 2017 Aug 26;9(9):940. 
  6. Ringa-Kulka T, Benson AK, Carroll IM, et al. Molecular characterization of the intestinal microbiota in patients with and without abdominal bloating. Am J Physiol Gastrointest Liver Physiol 2016; 310: G417-426.
  7. Grace E, Shaw C, Whelan K, Andreyev HJ. Review article: small intestinal bacterial overgrowth–prevalence, clinical features, current and developing diagnostic tests, and treatment. Aliment Pharmacol Ther. 2013 Oct;38(7):674-88.
  8. Al-Toma A, Volta U, Auricchio R, Castillejo G, Sanders DS, Cellier C, Mulder CJ, Lundin KEA. European Society for the Study of Coeliac Disease (ESsCD) guideline for coeliac disease and other gluten-related disorders. United European Gastroenterol J. 2019 Jun;7(5):583-613.
  9. Caio G, Volta U, Sapone A, Leffler DA, De Giorgio R, Catassi C, Fasano A. Celiac disease: a comprehensive current review. BMC Med. 2019 Jul 23;17(1):142.
  10. Reilly NR. The Gluten-Free Diet: Recognizing Fact, Fiction, and Fad. J Pediatr. 2016 Aug;175:206-10.
  11. Szilagyi A, Ishayek N. Lactose Intolerance, Dairy Avoidance, and Treatment Options. Nutrients. 2018 Dec 15;10(12):1994. 
  12. Agrawal A, Houghton LA, Reilly B, et al. Bloating and distension in irritable bowel syndrome: the role of gastrointestinal transit. Am J Gastroenterol 2009; 104: 1998-2004.
  13. Kamboj AK, Oxentenko AS. Workup and Management of Bloating. Clin Gastroenterol Hepatol. 2018;16:1030-1033.
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