Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
08 Out, 2020 - 17:09

Inhame: conheça o tubérculo que pode substituir a batata, batata-doce ou mandioca

Nutricionista Mafalda Serra

O inhame é um alimento rico em hidratos de carbono e pode ser usado como substituto da batata, arroz ou massa.

Inhame cortado em cima de mesa de madeira

Já pode ser encontrado na maioria das grandes superfícies comerciais, mas ainda não é uma presença frequente na mesa das famílias portuguesas. Por desconhecimento dos seus benefícios nutricionais, do modo de confeção ou mesmo da sua existência, o inhame é ainda um alimento que poucas vezes integra a nossa lista de compras e rotina alimentar.


O que é o inhame?

Conjunto de inhames

O inhame (Dioscorea spp.) é um tubérculo que apresenta tradicionalmente uma forma cilíndrica, mais ou menos alongada e pele áspera, grossa e normalmente de cor castanho-escuro.

Características organoléticas

Possui um sabor amiláceo, neutro e suave, que muitos caracterizam como “sabor a terra”. Deste modo, apresenta uma grande versatilidade culinária, podendo integrar receitas doces ou salgadas, consoante o seu modo de tempero, preparação e confeção.

No entanto, as características organoléticas (como a cor, o sabor e a textura) do inhame podem variar muito consoante a espécie e a variedade da planta. Podemos encontrá-lo com várias formas (mais alongadas e cilíndricas ou pequenas e redondas), cores (desde a cor da casca à cor do interior do tubérculo) e ainda vários sabores.

Perfil nutricional do inhame

Taça com inhames descascados

Hidratos de carbono

O inhame é um alimento rico em hidratos de carbono que possui um elevado teor em amido comparativamente aos restantes tubérculos.

A presença de amido contribui não só para o valor calórico do alimento, mas também para a palatibilidade e textura do mesmo (1).

Fibra

Relativamente ao teor em fibra, a evidência apresenta valores contraditórios, que poderão estar relacionados com as diferentes espécies existentes. Um estudo de revisão referiu que o inhame tem um elevado teor de fibra comparativamente a outros tubérculos (1). Por outro lado, a tabela de composição de alimentos portuguesa caracteriza-o como o tubérculo com menor teor de fibra (2, 3).

Proteínas

Relativamente ao teor proteico, investigadores de diferentes localizações geográficas reportaram diferentes proporções proteicas entre as espécies de inhame (1). A proteína é um macronutriente essencial nas atividades estruturais e funcionais da célula humana, permitindo a regulação das atividades metabólicas dos organismos vivos.

O teor proteico do inhame é geralmente superior ao de outras raízes tropicais como a mandioca ou a batata doce (2, 3).

Gordura

Comparativamente à batata ou batata doce, o inhame apresenta maior quantidade de gordura (3). Ainda que não seja uma diferença significativa, o teor de gordura do inhame permite um aumento da palatibilidade do alimento e melhora a absorção e retenção de sabores durante a confeção (1).

Rico em potássio e manganês

O inhame é rico em potássio (um mineral importante na função renal e controlo da pressão arterial) e possui um baixo valor de sódio, podendo ser recomendado a pessoas com pressão arterial elevada (1, 2, 4, 5).

Apresenta também um bom aporte de cálcio, fósforo e zinco (2, 4). A evidência reporta ainda que o inhame é uma boa fonte alimentar de manganês, um mineral que participa em processos biológicos como: formação de tecido conjuntivo, metabolismo da gordura, regulação da glicemia ou absorção de cálcio.

Rico em vitamina C e fonte de Vitamina B6

O inhame é rico em vitamina C, uma vitamina com função antioxidante e anti-inflamatória que participa em processos como a cicatrização de feridas, absorção de ferro ou síntese de colagénio (1, 5). É também considerado uma fonte de vitamina B6 (5).

Antinutrientes

Outro aspeto importante a referir acerca do perfil nutricional do inhame é o seu teor em antinutrientes (compostos naturais que interferem na biodisponibilidade e absorção de nutrientes e reduzem o valor nutricional de um alimento).

O inhame em crú possui um sabor amargo ou picante e possui antinutrientes associados a irritação da pele e inflamação da boca e garganta. Deste modo, é importante que o tubérculo seja confecionado antes de ser consumido.

Benefícios do inhame

Inhame cortado às rodelas numa taça

Têm sido reportados efeitos antimicrobianos, antifúngicos, antimutagénicos, hipoglicémicos e imunomodulatórios às espécies Dioscorea. Porém, estas propriedades poderão ser atribuídas a outro constituinte das plantas (como bolbos ou extratos das folhas) e não necessariamente ao consumo do tubérculo (1).

Evidência cientifica já associou o inhame a efeitos biológicos benéficos. Um estudo concluiu que a administração a longo prazo de um tipo específico de inhame poderá induzir pequenas diferenças nas funções renais e hepáticas de ratinhos (6). Outro estudo referiu que o consumo de inhame melhora o perfil lipídico de ratinhos que são alimentados com uma dieta rica em colesterol (2).

No entanto, é importante ressalvar que os estudos mencionados, por terem sido desenvolvidos em ratos, ainda não é possível assumir estes efeitos em humanos.

A espécie Dioscorea é conhecida por conter uma boa quantidade de compostos bioativos como a diosgenina ou a discorina. Alguns estudos reportaram que a diosgenina poderá reduzir a absorção de colesterol, reduzir o risco de cancro do cólon e possuir atividade anti-inflamatória e antimicrobiana. A discorina é conhecida pelo seu potencial antioxidante e imunomodulatório (1).

Quais as suas utilidades na cozinha?

Sopa de inhame

De um modo geral, os inhames são cozidos em água ou a vapor, assados ou fritos, tal como os restantes tubérculos. Após confeção, podem ser consumidos como o acompanhamento glicídico da refeição (tal como o arroz, massa, batata ou batata doce) ou ser adicionados à base de sopas.

Este tubérculo pode ainda ser consumido como componente de uma refeição intermédia, em panquecas, pães, bolos ou bolachas.

Para além do tubérculo fresco, poderá ainda ser adquirido na forma de farinha, permitindo um tempo de armazenamento mais longo.

Assim, para além de ser um alimento com valor alimentar e nutritivo, o inhame apresenta-se como uma opção muito versátil, quer na sua composição, quer nas possibilidades de confeção, o que o torna numa adição interessante para quem procura promover a variedade na sua rotina alimentar.

Consumo e cultivo do inhame

Apesar de ser pouco conhecido em Portugal, é o quarto tubérculo mais consumido, seguido da batata, da mandioca e da batata doce (1). Para as populações das zonas tropicais e subtropicais do globo, com um forte componente rural e de baixo estatuto económico, o inhame é considerado uma das principais fontes de hidratos de carbono (2, 3, 4).

Cultivado principalmente na Ásia e África Central e Ocidental, tem contribuído significativamente para uma melhor ingestão nutricional destas comunidades (5). Considera-se assim, um tubérculo com um grande potencial para melhorar a segurança alimentar da população (3).

Entenda-se por segurança alimentar (associada ao termo food security), o enquadramento em que todas as pessoas, a qualquer momento, têm acesso físico, social e económico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos, que permitem satisfazer as suas necessidades em nutrientes e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável (6).

Em 2019, estima-se que cerca de 2 biliões de pessoas no mundo não tiveram acesso regular a alimentos seguros, nutritivos e suficientes, principalmente em áreas geográficas como Ásia e África (7). Assim, o consumo e produção sustentável do inhame são passos importantes para o aumento da segurança alimentar e alívio da pobreza (8), uma vez que contribui para o salário e alimentação de mais de 60 milhões de pessoas (9).

Receitas com inhame
Veja também 4 receitas com inhame deliciosas

Fontes

  1. Padhan B, Panda D. Potential of Neglected and Underutilized Yams (Dioscorea spp.) for Improving Nutritional Security and Health Benefits. Front Pharmacol. 2020 Apr 24;11:496.
  2. Wanasundera JP, Ravindran G. Nutritional assessment of yam (Dioscorea alata) tubers. Plant Foods Hum Nutr. 1994 Jul;46(1):33-9.
  3. Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Tabela de Composição de Alimentos; 2020. Disponível em: http://portfir.insa.pt/foodcomp/introduction.
  4. Maziya-Dixon B. Potential health benefits of water yam (Dioscorea alata). Food Funct. 2013 Oct;4(10):1496-501.
  5. M. R. Bhandari, T. Kasai and J. Kawabata, Nutritional evaluation of wild yam (Dioscorea sp.) tubers of Nepal, Food Chem., 2003, 82(4), 619–623.
  6. FAO, IFAD, UNICEF, WFP and WHO. 2020 The State of Food Security and Nutrition in the World 2020. Transforming food systems for affordable healthy diets. Rome, FAO.
  7. Siqueira M. Inhame (Dioscorea spp): uma cultura ainda negligenciada. Horticultura Brasileira. 2009 Aug;27: S4075-S4090.
  8. Barlagne C, Cornet D, Blazy JM, Diman JL, Ozier-Lafontaine H. Consumers’ preferences for fresh yam: a focus group study. Food Sci Nutr. 2016 Apr 13;5(1):54-66.
  9. Wanasundera JP, Ravindran G. Nutritional assessment of yam (Dioscorea alata) tubers. Plant Foods Hum Nutr. 1994 Jul;46(1):33-9.
Veja também