Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
28 Dez, 2020 - 11:32

Proteína de cânhamo: o que é, perfil nutricional e como pode ser utilizada

Nutricionista Mafalda Serra

Desde potenciar o ganho de massa muscular ou colmatar deficiências de padrões alimentares, as razões que promovem a inclusão da proteína de cânhamo na rotina alimentar podem ser variadas.

Proteína de cânhamo numa taça

As proteínas em pó são suplementos alimentares obtidos a partir do processamento de vários alimentos de origem animal (como o leite), ou vegetal (como algumas sementes e leguminosas).

Podem ser utilizadas para variados propósitos, entre os quais o aumento de massa muscular, a melhoria da performance desportiva ou a adequação nutricional de dietas, como a dieta vegetariana ou vegan.

Neste artigo, vamos ficar a conhecer a proteína de cânhamo (uma proteína de origem vegetal), o seu interesse a nível nutricional, os benefícios associados ao seu consumo e em que contexto poderá ser utilizada.

O que é a proteína de cânhamo?

Scoop de proteína de cânhamo

A proteína de cânhamo é um suplemento alimentar obtido através da pressão a frio aplicada nas sementes de cânhamo, de forma a extrair inicialmente o máximo do seu conteúdo em óleo.

De seguida, as sementes são submetidas a um processo de moagem até à obtenção de um pó homogéneo, rico em proteína e facilmente assimilável pelo nosso organismo. O produto final é embalado e distribuído e tem um sabor neutro ou similar ao dos frutos secos.

Qual o seu perfil nutricional e quais os seus benefícios?

As sementes de cânhamo são particularmente apreciadas e consumidas pela sua alta densidade nutricional. No entanto, apesar de existir literatura relativa à composição nutricional das mesmas, ainda são necessários estudos que permitam compreender com clareza os efeitos benéficos do consumo dos seus subprodutos, como a proteína de cânhamo, o óleo de cânhamo ou a farinha de cânhamo (1).

Apesar de alguns estudos relatarem que o perfil nutricional das sementes de cânhamo pode variar consoante o seu genótipo e fatores ambientais associados à zona de cultivo, esta apresenta tipicamente cerca de 25-35% de gordura, 20-25% de hidratos de carbono (principalmente fibra insolúvel) e 20-25% de proteína de alto valor biológico (1).

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Rica em aminoácidos essenciais

As proteínas presentes nas sementes de cânhamo, a partir das quais é obtido o suplemento alimentar, são de alto valor biológico, contendo todos os aminoácidos essenciais.

Os aminoácidos essenciais são aminoácidos cujo nosso organismo não tem a capacidade de produzir e que têm de ser obtidos a partir da alimentação.

As principais fontes alimentares de alto valor biológico são fontes animais como a carne, peixe, leite e ovos. Assim, o cânhamo apresenta uma excelente alternativa proteica vegetal para indivíduos que praticam uma alimentação vegetariana ou vegan (1, 2, 3).

Para além destes, é ainda importante destacar a arginina. Apesar de não ser um aminoácido essencial, a arginina é um precursor do óxido nítrico, um composto importante na saúde cardiovascular. Adicionalmente, a arginina e o óxido nítrico têm sido associados à melhoria da função imunitária e à reparação muscular (1, 4).

2

Fonte de ómega 6 e ómega 3

A proteína de cânhamo apresenta ainda uma alta digestibilidade. Estudos referem que a digestibilidade das proteínas de cânhamo se assemelha à de outras leguminosas (como as lentilhas) e é superior à de proteínas presentes em cereais (4, 5).

Apesar do seu processo de produção, cuja etapa inicial inclui a extração do óleo das sementes, a proteína de cânhamo em pó acaba por conter ainda cerca de 10% de gorduras insaturadas (6). Ao consumir uma porção de proteína de cânhamo (que tipicamente ronda as 25g a 30g), obtemos cerca de 3 g deste tipo de gordura.

Para além do teor em gordura insaturada, o rácio de ómega-6 / ómega-3 presente no cânhamo é outro fator que o enriquece nutricionalmente (7, 8).

3

Fonte de minerais

A proteína de cânhamo é também fonte de minerais como o fósforo, potássio, magnésio, cálcio, ferro, manganês, zinco e cobre.

A sua riqueza nutricional pode ainda ser atribuída à presença de compostos bioativos como compostos fenólicos com ação antioxidante, anti-inflamatória e neuroprotetora e de fitoesteróis (compostos que intervém na redução da absorção de colesterol) (1, 7).

Em que contexto é utilizada?

Homem a fazer batido de whey

Sendo uma proteína de origem vegetal, a proteína de cânhamo é frequentemente consumida por indivíduos que praticam uma alimentação vegetariana ou vegan.

A sua riqueza não só em proteína e aminoácidos essenciais, mas também noutros nutrientes provenientes especialmente de fontes alimentares de origem animal (como o ómega-3 ou ferro), torna-a uma proteína de eleição para esta população em específico.

As razões que promovem a inclusão de um suplemento na rotina alimentar podem ser variadas.

Indivíduos que praticam desporto podem recorrer à ingestão proteica através de suplementos de forma a potenciar o ganho de massa muscular ou melhorar a performance desportiva (10).

Por outro lado, a ingestão de proteína de cânhamo pode ser benéfica também para colmatar deficiências ou inadequações especificas de padrões alimentares individuais (como o veganismo).

Como pode ser utilizada?

A proteína de cânhamo pode ser ingerida em crú, adicionada a sumos ou batidos, a iogurtes ou patés. Poderá ainda ser um componente de algumas refeições intermédias como pudins de chia ou papas de aveia.

Relativamente à dose adequada, esta é dependente das necessidades nutricionais e objetivos concretos de cada indivíduo.

Por norma, no rótulo destes produtos alimentares, é aconselhada uma dose de ingestão diária. No entanto, consulte o seu nutricionista para aferir quais as suas necessidades proteicas individuais.

Pode ser interessante para substituir outros tipos de proteína?

Scoop de proteina em cima de uma mesa

A nível nutricional, a proteína de cânhamo em pó, quando comparada com proteína de soro de leite (um dos suplementos proteicos de origem animal mais utilizados, tipicamente denominada proteína whey) e proteína de soja em pó, apresenta um menor teor proteico, mas maior teor em fibra insolúvel e gordura insaturada (11).

Relativamente à composição em aminoácidos essenciais, ao comparar a proteína de cânhamo com a caseína (uma proteína de origem animal de referência), verificou-se que apenas a isoleucina, a lisina e a fenilalanina estavam presentes em menor quantidade (1).

Assim, é possível constatar que a proteína de cânhamo parece ser uma opção viável e promissora para potenciar o aporte não só de proteína de alto valor biológico, mas também de ácidos gordos essenciais e fibra insolúvel, especialmente em dietas de cariz vegetariano ou vegan.

Fontes

  1. Farinon B, Molinari R, Costantini L, Merendino N. The seed of industrial hemp (Cannabis sativa L.): Nutritional Quality and Potential Functionality for Human Health and Nutrition. Nutrients. 2020 Jun 29;12(7):1935. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7400098/
  2. Callaway, J.C. Hempseed as a nutritional resource: An overview. Euphytica 140, 65–72 (2004). Disponível em: https://europepmc.org/article/agr/ind43733822
  3. McPartland, J.M.; Guy, G.W.; Hegman,W. Cannabis is indigenous to Europe and cultivation began during the Copper or Bronze age: A probabilistic synthesis of fossil pollen studies. Veg. Hist. Archaeobotany 2018, 27, 635–648.
  4. House, J.D.; Neufeld, J.; Leson, G. Evaluating the Quality of Protein from Hemp Seed (Cannabis sativa L.) Products Through the use of the Protein Digestibility-Corrected Amino Acid Score Method. J. Agric. Food Chem. 2010, 58, 11801–11807. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20977230/
  5. Mamone, G.; Picariello, G.; Ramondo, A.; Nicolai, M.A.; Ferranti, P. Production, digestibility and allergenicity of hemp (Cannabis sativa L.) protein isolates. Food Res. Int. 2019, 115, 562–571. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30599980/
  6. Pihlanto A, Mattila P, Mäkinen S, Pajari AM. Bioactivities of alternative protein sources and their potential health benefits. Food Funct. 2017 Oct 18;8(10):3443-3458. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28804797/
  7. Teh, Sue-Siang; Birch, John (2013). Physicochemical and quality characteristics of cold-pressed hemp, flax and canola seed oils. Journal of Food Composition and Analysis, 30(1), 26–31. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/257273419_Physicochemical_and_quality_characteristics_of_cold-pressed_hemp_flax_and_canola_seed_oils
  8. Harbige LS. Fatty acids, the immune response, and autoimmunity: a question of n-6 essentiality and the balance between n-6 and n-3. Lipids. 2003 Apr;38(4):323-41. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12848277/
  9. EFSA NDA Panel (EFSA Panel on Dietetic Products, Nutrition and Allergies). Scientific Opinion of the Panel on Dietetic products, Nutrition and Allergies on a request from European Commission related to labelling reference intake values for n-3 and n-6 polyunsaturated fatty acids. EFSA J. 2009, 8, 1461. Disponível em: https://www.efsa.europa.eu/en/efsajournal/pub/1176
  10. Jäger R et al. International Society of Sports Nutrition Position Stand: protein and exercise. J Int Soc Sports Nutr. 2017 Jun 20;14:20. Disponível em: https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-017-0177-8
  11. U.S. Department of Agriculture, Agricultural Research Service. FoodData Central, 2020. Disponível em: https://fdc.nal.usda.gov/
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