Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
14 Dez, 2020 - 10:45

Obesidade e dificuldade em engravidar: haverá relação?

Nutricionista Mafalda Serra

Será que a obesidade e dificuldade em engravidar estão relacionadas? Qual será o impacto da obesidade materna na saúde do bebé?

Obesidade e dificuldade em engravidar

Ter um filho é um objetivo comum na realidade de vários casais. Porém, alguns fatores podem afetar a conceção. Estarão a obesidade e a dificuldade em engravidar associadas? Fique a conhecer a resposta neste artigo.

Obesidade e consequências na saúde

Mulher com excesso de peso a pesar-se numa balança

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a obesidade pode ser definida como a acumulação anormal ou excessiva de gordura corporal que apresenta um elevado risco para a saúde do individuo (1).

É considerada um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento e agravamento de doenças crónicas não transmissíveis (como a doença cardiovascular ou a diabetes Mellitus tipo 2) (2).

Para além disso, o seu papel na gravidez tem vindo a ser amplamente estudado na comunidade cientifica.

A obesidade materna é um fator de risco para o aparecimento de complicações clínicas quer na gravidez, quer na saúde ao longo da vida do bebé. Estudos associaram o excesso de peso ao aumento do risco de diabetes gestacional, síndrome hipertensiva gestacional ou pré-eclâmpsia e ainda ao aumento do risco de parto prematuro ou anomalias congénitas do feto.

A evidência sugere ainda que a obesidade materna poderá predispor o desenvolvimento de obesidade, diabetes tipo 2 ou doenças cardiovasculares ao longo da vida do filho (3, 4, 5, 6).

Obesidade e dificuldade em engravidar: qual a relação?

Mulher a analisar teste de gravidez

A evidência científica tem vindo a demonstrar que o excesso de gordura no organismo é um obstáculo à conceção (7).

Na mulher, o excesso de tecido adiposo e obesidade estão associados à dificuldade em engravidar devido à anovulação (ou seja, ao facto de os ovários não libertarem óvulo durante o ciclo menstrual).

Desta forma, ocorre uma diminuição da taxa de conceção natural e um maior tempo de espera até a mulher conseguir engravidar (8).

Estudos têm demonstrado que a anovulação e infertilidade ocorrem mais frequentemente em mulheres obesas do que mulheres não-obesas (9, 10, 11). O impacto negativo da obesidade na reprodução pode ainda estar associado a uma mudança hormonal que poderá interromper os ciclos menstruais ovulatórios normais (9).

A obesidade no homem pode também interferir na fertilidade. O excesso de gordura pode levar à diminuição do número de espermatozoides produzidos, afetar os níveis hormonais e comprometer a integridade do DNA do esperma. Porém, ainda não é conhecido com clareza o grau em que a adiposidade afeta realmente a fertilidade (12, 13).

Por outro lado, outras condições (como o Síndrome do Ovário Poliquístico ou a Endometriose) poderão estar associadas à dificuldade em engravidar ou à redução da fertilidade. Nestes casos, torna-se essencial o acompanhamento por parte de profissionais de saúde especializados para que sejam adotadas as estratégias terapêuticas mais adequadas.

A importância da alimentação no período da preconceção

Obesidade na gravidez

Sabendo que a obesidade representa um dos principais fatores de risco para a gestação, é importante que os pais, antes da gravidez, se aconselhem junto de profissionais de saúde especializados sobre os cuidados a ter durante a fase da preconceção.

Ao planear uma gravidez, poderá ser necessário realizar exames médicos que avaliem o estado de saúde dos pais. Assegurar um estado nutricional adequado é determinante para garantir o correto desenvolvimento de processos inerentes à gravidez, como a formação e implantação da placenta, a diferenciação celular, o crescimento fetal ou o correto encerramento do tubo neural.

Para isso, é importante compreender se há algum desequilíbrio nutricional, especialmente de nutrientes-chave como o ferro, o ácido fólico, a vitamina B12, a vitamina D, o iodo e o cálcio (14, 15, 16).

Para além da correção de possíveis défices nutricionais, é ainda fundamental avaliar se a futura grávida apresenta ou tem potencial risco de desenvolver patologias como diabetes gestacional, hipertensão ou obesidade (14, 17)

A perda de peso planeada e supervisionada, antes da gravidez, poderá minimizar estas possíveis ocorrências clínicas mais frequentes em casos de sobrepeso ou obesidade parental. No entanto, este controlo de peso não deve ser feito com recurso a dietas restritivas ou de forma abrupta.

Recomendações alimentares para a fase de preconceção

Mulher obesa a preparar uma salada

As recomendações alimentares direcionadas a uma mulher numa fase de preconceção devem ser baseadas em hábitos alimentares saudáveis, equilibrados e variados e sem exclusão de qualquer grupo alimentar.

Para além disso, devem também ser adequadas às suas necessidades energéticas e nutricionais (com especial atenção aos micronutrientes-chave acima abordados) e evitando possíveis disruptores endócrinos (como o bisfenol A, os ftalatos, as dioxinas ou os peixes contaminados com metilmercúrio) (14, 15, 18).

Nesta fase, deve ser adotado um regime alimentar baseado em produtos de origem vegetal como frutas, vegetais, cereais integrais e leguminosas. A ingestão de gorduras monoinsaturadas e polinsaturadas deve ser privilegiada, através do azeite e frutos oleaginosos.

O consumo de peixe e carne deve ser feito de forma adequada às necessidades proteicas da mulher.

No período preconcecional, é ainda importante incluir vegetais de folha verde escura e crucíferas (como as couves, os brócolos, nabiças ou os espinafres), frutas variadas e ricas em nutrientes com propriedades antioxidantes (como os frutos vermelhos, a papaia, os citrinos ou o abacaxi), lacticínios (como fonte de cálcio) e ainda frutos oleaginosos (como amêndoas, nozes, cajus, avelãs ou amendoins – sem sal) (17, 19).

Outro aspeto essencial a ter em conta é a necessidade de suplementação em micronutrientes específicos. Neste caso, o acompanhamento deverá ser personalizado, pelo que é fundamental o aconselhamento com um médico ou nutricionista especializado (17).

O que podemos concluir?

A alimentação é um dos fatores essenciais para o estabelecimento de um adequado estado de saúde, essencial para a saúde reprodutiva.

Atualmente, são vários os estudos que tem vindo a associar uma alimentação equilibrada, saudável e variada durante a fase da preconceção com um efeito benéfico na fertilidade (aplicando-se não só à mulher, mas também ao homem) (17, 19, 20,21).

Sendo a obesidade uma condição normalmente associada a hábitos alimentares desadequados e que apresenta um elevado risco para a saúde do indivíduo, poderá ser um dos fatores associados à dificuldade em engravidar.

Se este for o caso, é essencial a consulta de profissionais de saúde que a possam acompanhar nesta fase.

O planeamento de uma gravidez é essencial para assegurar a saúde futura da criança. Evite iniciar qualquer tipo de dieta de emagrecimento se acha que tem peso em excesso e está com dificuldade em engravidar: consulte um nutricionista que a possa direcionar para uma dieta adequada a esta fase de vida.

Fontes

  1. World Health Organization. Obesity and overweight; 2020. Disponível em https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight.
  2. Kopelman P. Health risks associated with overweight and obesity. Obes Rev. 2007 Mar;8 Suppl 1:13-7. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17316295/
  3. Marchi J, Berg M, Dencker A, Olander EK, Begley C. Risks associated with obesity in pregnancy, for the mother and baby: a systematic review of reviews. Obes Rev. 2015 Aug;16(8):621-38. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26016557/
  4. Barker DJ. In utero programming of chronic disease. Clinical Sci (London). 1998; 95:115-28. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9680492/
  5. Kwon EJ, Kim YJ. What is fetal programming?: a lifetime health is under the control of in utero health. Obstetrics & Gynecology Science. 2017;60(6):506-519. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5694724/
  6. World Health Organization. Programming of chronic disease by impaired fetal nutrition: evidence and implications for policy and intervention strategies / prepared by Hélène Delisle. Geneva: World Health Organization; 2001. Disponível em: https://www.who.int/nutrition/publications/obesity/WHO_NHD_02.3/en/
  7. Jokela M, Elovainio M, Kivimäki M. Lower fertility associated with obesity and underweight: the US National Longitudinal Survey of Youth. Am J Clin Nutr. 2008 Oct;88(4):886-93. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18842772/
  8. van der Steeg JW, Steures P, Eijkemans MJ, Habbema JD, Hompes PG, Burggraaff JM, Oosterhuis GJ, Bossuyt PM, van der Veen F, Mol BW. Obesity affects spontaneous pregnancy chances in subfertile, ovulatory women. Hum Reprod. 2008 Feb;23(2):324-8. Disponivel em: https://academic.oup.com/humrep/article/23/2/324/627197
  9. Bohler H Jr, Mokshagundam S, Winters SJ. Adipose tissue and reproduction in women. Fertil Steril. 2010 Aug;94(3):795-825. Disponível em:
  10. Nelson SM, Fleming RF. The preconceptual contraception paradigm: obesity and infertility. Hum Reprod 2007;22:912–5. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17172282/
  11. Ramsay JE, Greer I, Sattar N. ABC of obesity. Obesity and reproduction. BMJ 2006;333:1159–62. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5265615/
  12. Kahn BE, Brannigan RE. Obesity and male infertility. Curr Opin Urol. 2017 Sep;27(5):441-445. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28661897/
  13. Liu Y, Ding Z. Obesity, a serious etiologic factor for male subfertility in modern society. Reproduction. 2017 Oct;154(4):R123-R131. Disponível em: https://rep.bioscientifica.com/view/journals/rep/154/4/REP-17-0161.xml
  14. Teixeira D et al. Alimentação e nutrição na gravidez. Lisboa: Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde; 2015. Disponível em: https://alimentacaosaudavel.dgs.pt/
  15. Mousa A, Nagash A, Lim S. Macronutrient and Micronutrient Intake during Pregnancy: An Overview of Recent Evidence. Nutrients. 2019; 11(2): 443. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30791647/
  16. Valvada T, Gaffey MF, Bhutta ZA. Promoting Early Child Development With Interventions in Health and Nutrition: A Systematic Review. Pediatrics. 2017; 140(2): e20164308. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28771408/
  17. Associação Portuguesa de Nutrição. Alimentação nos primeiros 1000 dias de vida: um presente para o futuro. E-book n.o 53. Porto: Associação Portuguesa de Nutrição; 2019. Disponível em: https://www.apn.org.pt/documentos/ebooks/1000_DIAS_EBOOK-2706.pdf
  18. Bommarito PA, Martin E, Fry RC. Effects of prenatal exposure to endocrine disruptors and toxic metals on the fetal epigenome. Epigenomics. 2017 Mar; 9(3):333-350. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28234024/
  19. Gaskins AJ, Chavarro JE. Diet and fertility: a review. Am J Obstet Gynecol. 2018 Apr;218(4):379-389. Disponível em:
  20. Gaskins AJ, Colaci DS, Mendiola J, Swan SH, Chavarro JE. Dietary patterns and semen quality in young men. Hum Reprod. 2012 Oct;27(10):2899-907. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22888168/
  21. Giahi L, Mohammadmoradi S, Javidan A, Sadeghi MR. Nutritional modifications in male infertility: a systematic review covering 2 decades. Nutr Rev. 2016 Feb;74(2):118-30. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26705308/
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