Professor Pedro Morouço
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31 Jul, 2020 - 09:30

Fact-check: o exercício físico aumenta o metabolismo basal?

Professor Pedro Morouço

Será que praticar exercício físico aumenta o metabolismo basal? O que diz a evidência científica sobre este assunto?

fact-check impreciso

Questão em análise

É comum ouvir-se que o exercício físico promove o aumento do metabolismo basal, mas será que é mesmo assim? Saiba o que diz a evidência científica a este respeito.

O ser humano depende da energia química dos alimentos que ingere para sobreviver. Essa energia é gasta em diversas atividades do dia a dia como pensar, respirar, digerir, e, se for caso disso, praticar exercício físico. Logo, é fácil compreender a atenção constante que o exercício recebe quando se pretende perceber como o otimizar para perder peso. Mas, será que o exercício físico aumenta o metabolismo basal?

Seja pelo gasto de energia que ocorre enquanto treinamos, seja pelos efeitos colaterais, como aumentar o metabolismo basal, de facto, se o exercício tiver essa capacidade, será fantástico para ajudar a conseguir o peso que pretende.

Antes de tentarmos perceber o que nos diz a mais recente evidência científica, é importante percebermos os dois conceitos que estão associados a este processo.

O que é Exercício Físico?

Mulher a treinar acompanhada com PT

Enquanto que atividade física é todo o movimento voluntário do corpo humano que resulta num dispêndio de energia acima do metabolismo basal. O exercício físico é estruturado e sistemático, com vista a atingir objetivos específicos e previamente definidos (1).

Em termos de atividade física temos as atividades domésticas ou de lazer, atividade laboral, deslocações diárias.

No exercício físico as sessões de treino programadas com critérios de frequência, intensidade, duração, tipo, volume e progressão.

Se por um lado é importante que as pessoas percebam a importância de se tornarem mais ativas, por outro lado é determinante que compreendam os benefícios que o exercício pode trazer a longo prazo. Essa prática de exercício, que pode ser muito variada, acarreta adaptações fisiológicas que em muito contribuem para o bem-estar físico, psicológico e social do ser humano (2).

Mulher a cronometrar treino
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O que é o Metabolismo Basal?

mulher cansada após correr na rua

Trata-se do gasto energético mínimo necessário para sobreviver em repouso. É fácil lembrarmo-nos que todo o corpo humano é constituído por células. Células vivas que requerem energia para se manterem em pleno funcionamento.

O metabolismo basal, também chamado de taxa metabólica de repouso, garante os processos vitais, representando 50 a 70% do nosso gasto calórico diário. Esse valor está muito dependente na nossa quantidade de massa magra, e varia de indivíduo para indivíduo devido a fatores como a genética, idade, ou mesmo o stress psicológico (3).

Ora, será que o exercício físico aumenta o metabolismo basal, levando a um aumento da energia despendida nas funções vitais, facilitando o processo de perda de peso? A literatura é escassa e inconclusiva.

Como aumentar o metabolismo: mulher com pesos nas mãos
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Será que o exercício físico aumenta o metabolismo basal?

Aula de grupo com pesos

Se for uma pessoa sedentária, a questão nem se coloca. O exercício não existindo, não ajuda. O metabolismo basal até poderá aumentar por um aumento do peso, mas isso não será um bom indicador.

Se for alguém que pratica alguma atividade física, certamente não terá incutido estímulos suficientes para uma adaptação fisiológica tão evidente que altere o metabolismo basal. Terá benefícios sim, mas não a esse nível.

Resta-nos então perceber como será com os indivíduos que adotem uma prática regular de exercício físico. Estudos realizados demonstraram resultados controversos. Desde alguns estudos em que o exercício aumentou a taxa metabólica de repouso (4), outros em não alterou (5) e até alguns em que diminuiu (6).

Estas incongruências podem dever-se principalmente a dois aspetos primários: as alterações de composição corporal induzidas pelos próprios programas de treino e as alterações nutricionais que possam resultar da inclusão no estudo.

Existem ainda questões metodológicas que pouco abonam para termos certezas sobre a temática, como sejam o reduzido tamanho dos grupos testados, a curta duração dos programas, os métodos utilizados para medir o metabolismo basal e as caraterísticas tão diferenciadas dos programas de treino.

A prática de exercício físico regular, pode visar diferentes objetivos. Desde a vontade de correr uma maratona, ou ser capaz de levantar grandes cargas no ginásio. Objetivos diferentes que, inerentemente, incutem metodologias diferentes.

Nessa lógica, e tendo em consideração que é comum aceitarmos que o aumento da massa muscular incute um aumento do metabolismo basal, poderíamos ser tentados a concluir que o treino que vise a hipertrofia possibilitará um aumento da taxa metabólica de repouso.

Aliás, uma recente revisão da literatura apresenta mesma a possibilidade de o treino de força ser capaz de aumentar o metabolismo basal, não acontecendo o mesmo quando se faz treino cardio ou uma combinação de ambos (7). No entanto, se olharmos para os dados apresentados com detalhe, apercebemo-nos que a variação intra indivíduos foi tão grande, que reforça a importância das incongruências antes identificadas.

O principal é perceber que cada indivíduo tem, em cada momento, a sua especificidade. Assim, como a nossa regulação fisiológica que poderá precisar de mais ou menos tempo, para adaptar a sua taxa metabólica de repouso.

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É, atualmente, incorreto afirmar que o treino A ou B consegue incutir um maior metabolismo basal. Principalmente, quando com isso se pretende incentivar a pessoa à sua prática como forma de acelerar a perda de peso.

Se pretende começar ou continuar a praticar exercício físico, ótimo. Faça-o pela sua saúde! Se pretende perder peso, encontre profissionais credíveis que possam ajudar nesse processo. No final de contas, um bem planificado défice calórico poderá ser a chave para o seu sucesso.

Fontes

  1. Norton, K., Norton, L., & Sadgrove, D. (2010). Position statement on physical activity and exercise intensity terminology. Journal of Science and Medicine in Sport, 13(5), 496-502.
  2. Geneen, L. J., Moore, R. A., Clarke, C., Martin, D., Colvin, L. A., & Smith, B. H. (2017). Physical activity and exercise for chronic pain in adults: an overview of Cochrane Reviews. Cochrane Database of Systematic Reviews, 14;1(1):CD011279.
  3. Pettersen, A. K., Marshall, D. J., & White, C. R. (2018). Understanding variation in metabolic rate. Journal of Experimental Biology221(1): jeb166876.
  4. Dolezal, B. A., & Potteiger, J. A. (1998). Concurrent resistance and endurance training influence basal metabolic rate in nondieting individuals. Journal of Applied Physiology, 85(2), 695-700.
  5. Taaffe, D. R., Pruitt, L., Reim, J., Butterfield, G., & Marcus, R. (1995). Effect of sustained resistance training on basal metabolic rate in older women. Journal of the American Geriatrics Society43(5), 465-471.
  6. Byrne, H. K., & Wilmore, J. H. (2001). The effects of a 20-week exercise training program on resting metabolic rate in previously sedentary, moderately obese women. International journal of Sport Nutrition and Exercise Metabolism, 11(1), 15-31.
  7. MacKenzie-Shalders, K., Kelly, J. T., So, D., Coffey, V. G., & Byrne, N. M. (2020). The effect of exercise interventions on resting metabolic rate: A systematic review and meta-analysis. Journal of Sports Sciences, 1-15.
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