Isabel Coimbra
Isabel Coimbra
16 Dez, 2016 - 11:54

Crónica #33: tenho que voltar a isto

Isabel Coimbra

A minha obstetra entendeu arrancar-me à força toda a confiança, poder, otimismo e boa onda que acumulei nestes nove meses.

Crónica #33: tenho que voltar a isto

Infelizmente, há várias pessoas que fazem questão de dizer alarvidades a grávidas, porém, quando se trata da vizinha do quinto esquerdo, que tem 60 anos e a quarta classe, ou aquela amiga que nunca esteve grávida, vestes uma capa de paciência que não tens e segues caminho. Mas não são alarvidades que esperas ouvir da boca de profissionais de saúde, no Serviço Nacional de Saúde, com anos de experiência e – espera-se! – conhecimento científico e saber acumulado nesses largos anos.

Não esperas que seja a tua obstetra a juntar-se ao coro desafinado de vozes que procuram instalar-te o pânico a poucos dias de parir. Mas foi o que aconteceu. Às 36 semanas de gravidez, a obstetra da Maternidade Júlio Dinis, entendeu que devia dizer-me, com os olhos muito arregalados, revolta na voz e o semblante carregadíssimo que “Ninguém, ninguém!, aguenta as dores do parto. Ninguém.” e que “As dores do parto são uma coisa absolutamente horrível. Horrível.”, entre outras pérolas igualmente adoráveis e empoderadoras. Perante o choque e o meu “isso não se diz a uma grávida”, a senhora repetiu.

É uma besta. Mas é uma besta cuja opinião, quer se queira quer não, acaba por ter alguma ascendência sobre ti. E o resultado disso notou-se na noite seguinte. Durante a madrugada acordei com os intestinos aos trambolhões e tive que ir a correr para o quarto de banho. Duas vezes. E por lá me demorei largos minutos. Dei por mim a pensar que seria o meu corpo a preparar-se para o parto e a agonia começou a subir (há quem conta que antes de entrar em trabalho de parto, teve fortes descargas intestinais). Fiquei muito enjoada, procurei controlar o vómito e transpirava a rodos. 

Comecei a sentir-me desmaiar. Sentei-me no chão e encostei as costas à parede para que o gelo do mosaico me acalmasse o corpo. Demorou para resultar porque a voz e a expressão de bruxa da médica não desapareciam. De repente um novo coro invisível gritava “não vais ser capaz”, “não estás preparada”, “vais desmaiar à primeira dor”, “não vais ser capaz”, “não vais ser capaz”, “não vais ser capaz”! Um ataque de pânico e várias lágrimas depois estou melhor. Mas não precisava disto.


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