Teresa Santos
Teresa Santos
30 Out, 2020 - 10:00

COVID-19 e metabolismo: perceba melhor esta relação

Teresa Santos

Qual a relação entre a COVID-19 e metabolismo? E por que é que a diabetes tipo 2 e a hipertensão são fatores de risco para esta doença? Fique a perceber.

COVID-19 e metabolismo

O estudo “A metabolic handbook for the COVID-19 pandemic”, da autoria de Janelle S. Ayres, reflete sobre a relação entre a COVID-19 e metabolismo e tenta perceber por que é que distúrbios metabólicos pré-existentes, como a diabetes tipo 2 ou a hipertensão, podem constituir fatores de risco, em caso de infeção pelo novo coronavírus.

Além disso, esta investigação sobre a COVID-19 e metabolismo divide esta doença em quatro fases, no caso dos doentes sintomáticos. Fique a saber mais sobre as conclusões desta pesquisa.

COVID-19 e metabolismo: as 4 fases possíveis da doença

Mulher a verificar febre com termómetro

Uma das caraterísticas que tem sido identificada na COVID-19 prende-se com os diferentes níveis de gravidade que ela pode assumir nas pessoas infetadas, podendo ir de assintomática a quadros de grande severidade e mesmo fatais.

Os doentes com COVID-19 assintomáticos representam cerca de 25% a 50% dos indivíduos infetados e caraterizam-se por pessoas cujo estado de saúde se mantém inalterado, não manifestando qualquer sintoma de infeção (2).

Por outro lado, os indivíduos sintomáticos apresentam sinais da doença, depois de uma fase pré-sintomática, isto é, sem sintomas. Destes, cerca de 80% apresenta sintomas leves a moderados da doença, enquanto os restantes 20% evoluem para quadros severos e críticos, associados a complicações como pneumonia, síndrome respiratória aguda grave, falência respiratória, choque sético e falência de vários órgãos (1).

As 4 fases possíveis da doença COVID-19

Como já dissemos, após serem infetados pelo novo coronavírus, os doentes com COVID-19 podem permanecer assintomáticos ou passar por algumas etapas da doença que correspondem a 4 fases: (1)

  1. Fase 1: esta primeira fase pode caraterizar-se por sintomas leves a moderados, como febre, dores ou desconforto, tosse seca e perda de olfato e de paladar. A maioria dos doentes não evolui além desta fase, passando logo para o período de recuperação (fase 4).
  2. Fase 2: alguns doentes podem passar para esta fase, já mais severa, e caraterizada por quadros de inflamação pulmonar e pneumonia com ou sem redução dos níveis de oxigénio no organismo. Estes pacientes precisam de internamento hospitalar e, por vezes, necessitam de ventilação mecânica.
  3. Fase 3: se passarem à fase 3, os doentes podem desenvolver síndrome respiratória aguda grave, síndrome sistémica extrapulmonar de hiperinflamação, choque sético, vasoplegia, falência respiratória, colapso cardiopulmonar, miocardite, lesão renal aguda, falência de vários órgãos, entre outras complicações. O prognóstico dos doentes nesta fase é bastante reservado.
  4. Fase 4: ultrapassada a fase anterior, os doentes entram num período de recuperação, embora possam nunca retomar o seu estado original de saúde.

COVID-19 e metabolismo: as doenças multissistémicas

Ilustração de pulmões

A saúde metabólica de um indivíduo está relacionada com o funcionamento adequado dos processos metabólicos do seu organismo, coordenados pelos seus múltiplos sistemas fisiológicos. Quando estes sistemas não operam corretamente, isso causa uma disfunção orgânica nos processos metabólicos e um decréscimo da saúde metabólica.

No caso do novo coronavírus, o risco maior para um quadro severo de COVID-19 é ter uma saúde metabólica frágil.

Com base nos surtos de coronavírus existentes no passado, a diabetes tipo 2 foi uma das comorbilidades mais comuns em indivíduos infetados. Corroborando esta evidência estão os dados atuais de que a diabetes tipos 2, a obesidade e a hipertensão são as comorbilidades mais frequentes em pessoas com quadros severos e críticos de COVID-19 (3).

Naturalmente que estes dados podem ter explicações multifatoriais e estar relacionados com uma disfunção imunitária. Além das doenças metabólicas poderem comprometer, no geral, a resposta imunitária e antiviral; as complicações fisiológicas associadas a elas podem também tornar estes pacientes mais suscetíveis a desenvolverem um quadro severo, em caso de infeção pelo Sars-Cov-2 (1).

As doenças multissistémicas

Tanto a COVID-19, como a síndrome metabólica e a diabetes tipo 2, são doenças multissistémicas. Todas estas doenças afetam os mesmos sistemas do nosso corpo, o que também pode explicar o porquê dos doentes com patologias metabólicas e infetados com o novo coronavírus desenvolverem quadros mais severos da doença.  

Além das doenças metabólicas poderem diminuir a função imunitária do indivíduo; do ponto de vista fisiológico, a maior vulnerabilidade destes indivíduos para a COVID-19 pode ainda estar relacionada com uma maior suscetibilidade destas pessoas para este genéro de patologia.

As alterações fisiológicas provocadas pela síndrome metabólica e pela diabetes tipo 2 podem interferir com a COVID-19 e com o curso da doença, pois as doenças do metabolismo caraterizam-se por estados inflamatórios crónicos. E os quadros mais severos e graves da COVID-19 são causados, precisamente, por uma resposta inflamatória exacerbada à infeção (1).

Obesidade

mulher a medir gordura abdominal

A obesidade, mesmo em adultos jovens, também pode ser um fator de risco no caso de infeção pelo novo coronavírus. Algumas das explicações para este facto podem prender-se com as dificuldades repiratórias, causadas pela obstrução do diafragma, e a diabetes, muitas vezes presente nas pessoas obesas.

A diabetes aumenta o risco de fibrose pulmonar e de doença pulmonar obstrutiva crónica, enquanto diminui a função respiratória (1).

Diabetes

Médica a controlar glicemia de paciente

A terapêutica realizada pelos diabéticos tipo 2 também pode elevar a expressão do ACE2, o recetor que medeia a entrada do novo coronavírus nas células do corpo. Este comportamento pode facilitar a entrada e a replicação do Sars-Cov-2 no organismo.

Ou seja, uma estratégia de defesa fisiológica usada para reforçar a saúde metabólica, no caso da diabetes tipo 2, pode tornar-se prejudicial nas situações de infeção pelo novo coronavírus.

Manter a glicemia controlada parece ser uma forma de regular a resposta inflamatória, limitar a vulnerabilidade em caso de infeção e moderar a função fisiológica, durante as fases mais graves da infeção (1).

COVID-19 e diabetes: mulher com caneta de insulina
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COVID-19 e metabolismo: consequências e complicações associadas

1

Complicações renais

Médico a analisar resultados de radiografia abdominal

A diabetes e a hipertensão são fatores de risco para as doenças renais. O mau funcionamento dos rins pode intoxicar o organismo e prejudicar outros órgãos.

Da mesma forma, os danos provocados pela hipertensão nos vasos sanguíneos podem reduzir a quantidade de sangue que chega aos rins, causando lesões nestes órgãos.

Por este motivo, os problemas renais são uma complicação comum na COVID-19. Assim, pode concluir-se que as doenças metabólicas pré-existentes podem tornar os rins mais vulneráveis, em caso de infeção pelo novo coronavírus (1).

2

Complicações cardiovasculares

Eletrocardiograma

A obesidade, a diabetes e a hipertensão também aumentam o risco de derrame cerebral e de complicações cardiovasculares, as quais são muitas vezes reportadas em casos graves de COVID-19.

Ora, se a hiperglicemia e a obesidade danificam os vasos sanguíneos e constituem fatores de risco para a criação de placas e de coágulos de sangue, é compreensível que as pessoas com estas condições possam apresentar uma resposta de coagulação exagerada em caso de infeção pelo Sars-Cov-2, a qual aumenta o risco de derrame cerebral e de embolia pulmonar.

A obesidade e a diabetes também podem conduzir à hipertensão, a qual altera a estrutura do coração. Essa alteração pode tornar o coração mais vulnerável aos danos causados por uma resposta inflamatória à infeção.

Isto pode explicar o porquê de alguns doentes com COVID-19 apresentarem complicações cardíacas e sinais de ataque cardíaco (1).

COVID-19 e doenças cardiovasculares
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3

Complicações neurológicas

Puzzle a ilustrar cérebro

A diabetes pode ainda prejudicar os vasos sanguíneos e os nervos do cérebro, podendo causar demência, derrame cerebral e comprometimento cognitivo vascular.

Portanto, estas condições pré-existentes, em caso de infeção pelo novo coronavírus, podem tornar o doente com COVID-19 mais suscetível a desenvolver este género de complicações, mais relacionadas com a saúde neurológica (1).

Fontes

  1. Ayres, Janelle S. A metabolic handbook for the COVID-19 pandemic. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s42255-020-0237-2#Fig1
  2. Yu, X. & Yang, R. COVID-19 transmission through asymptomatic carriers is a challenge to containment. Influenza Other Respir. Viruses. Disponível em: https://doi.org/10.1111/irv.12743
  3. Zhang, J. J. et al. Clinical characteristics of 140 patients infected with SARS-CoV-2 in Wuhan, China. Allergy. Disponível em: https://doi.org/10.1111/all.14238
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