Enfermeira Paula Gonçalves
Enfermeira Paula Gonçalves Co-autoria com Camila Farinhas
07 Jul, 2020 - 15:07

COVID-19 e diabetes: riscos, cuidados e dúvidas frequentes

Enfermeira Paula Gonçalves Co-autoria com Camila Farinhas

No que toca à COVID-19 e diabetes, conheça os cuidados a ter e quais as recomendações das sociedades científicas nacionais e internacionais nesta área.

COVID-19 e diabetes: mulher com caneta de insulina

A European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC) e a Direção Geral da Saúde (DGS) são claras na afirmação: idosos e indivíduos com doença crónica como hipertensão, diabetes, patologia cardiovascular e doença respiratória crónica, estão em risco de desenvolver sintomas mais graves de infeção por COVID-19.

Com a evolução da propagação da infeção no nosso país e a taxa de população diabética mais elevada da Europa (9,9%), importa perceber como este grupo de risco deve gerir a sua doença, prevenir a infeção e atuar em caso de suspeita (1). No que diz respeito à COVID-19 e diabetes, conheça as precauções a adotar.

COVID-19 e diabetes: como prevenir a infeção

Parasitas intestinais: sintomas, prevenção e tratamento

A Diabetes Mellitus aumenta a suscetibilidade a doença infeciosa bem como a quadros de maior gravidade e prognóstico menos favorável (2).

As Sociedade Portuguesa de Diabetologia (Spd), Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (Spedm), Sociedade Portuguesa Medicina Interna (Nedm/Spmi) e Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar criaram um documento de consenso em que reforçam as indicações da DGS para a prevenção da infeção por COVID-19 na população diabética. Recomendam:

  • Manter-se no domicílio, reduzindo o número de saídas ao mínimo possível; evitar multidões ou aglomerados
  • Tomar precauções diárias, mantendo distância de segurança de 1 metro de outras pessoas
  • Evitar o contacto com pessoas doentes ou que apresentem sintomatologia respiratória
  • Lavar frequentemente as mãos com água e sabão ou desinfetante
  • Não partilhar comida nem utensílios
  • Manter-se hidratado, controlar a glicemia, corpos cetónicos e medir a temperatura
  • Perante aparecimento de sintomas como febre, tosse ou falta de ar, deve manter-se em isolamento no seu domicílio e contactar a Linha de Apoio Saúde24

Gerir a diabetes em tempos de confinamento domiciliário

COVID-19 e diabetes: mulher diabética em casa

A American Diabetes Association (ADA) afirma que doentes com diabetes bem controlada não terão maior risco de contrair o vírus do que a população em geral (3).

Alterações às rotinas diárias provocadas pelo confinamento, como o decréscimo da atividade física, ou mudanças na dieta habitual pelo acesso limitado a alguns bens alimentares, podem dificultar essa gestão.

Valores de açúcar no sangue flutuantes ou acima dos valores-alvo, aumentam o risco de complicações relacionadas com a diabetes e tornam o doente diabético mais vulnerável a processos infeciosos, incluindo infeções virais. A própria infeção tenderá a ser mais agressiva, podendo contribuir para quadros mais graves e de mau prognóstico.

A situação poderá ser potenciada se, para além da diabetes, o doente é idoso ou tem patologia cardíaca. Estas condições aumentam a possibilidade de ficar gravemente doente com o COVID-19, porque a capacidade do corpo para combater uma infeção está comprometida.

Um controlo escrupuloso da diabetes é, portanto, fundamental nesta fase. A International Diabetes Federation (IDF) reforça essa importância e alerta:

  • Mantenha-se hidratado
  • Monitorize a sua glicose no sangue
  • Monitorize a sua temperatura
  • Se estiver medicado com insulina, monitorize também os corpos cetónicos;
  • Siga as recomendações da sua equipe de saúde (4)
  • A IDF tem também disponível na sua página sugestões para exercício físico em casa, adequado à condição física de cada doente (5), ajudando a contrariar o decréscimo de atividade física decorrente do confinamento.

Dúvidas frequentes sobre COVID-19 e Diabetes

Criança com bomba de insulina
1.

O risco de infeção pelo novo coronavírus é maior para diabéticos tipo 1 ou tipo 2?

Até ao momento, não existe evidência de diferença para risco de infeção de pessoas com diabetes tipo 1 ou tipo 2. Outros fatores associados à diabetes como idadecontrolo da doença e doenças crónicas associadas, parecem ter maior relevância para desenvolver casos mais graves de COVID-19.

2.

Se a diabetes estiver bem compensada, o risco de infeção pelo novo coronavírus é menor?

Sim. Se a diabetes estiver bem compensada, o risco de infeção pelo novo coronavírus é semelhante ao da população em geral. Quando a diabetes está descompensada, a probabilidade do sistema imunitário estar mais fragilizado é maior, logo mais facilmente a pessoa poderá contrair uma infeção. Por outro lado, se estiver infetado pela COVID-19, a probabilidade de descompensar a diabetes é maior. Assim, é de extrema importância manter o controlo da glicemia e vigiar a tensão arterial.

3.

As crianças e jovens diabéticos tipo 1 são considerados grupos de risco?

De acordo com a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e Diabetologia Pediátrica, o risco de uma criança ou jovem portador de diabetes tipo 1 contrair COVID-19 é semelhante ao da população em geral, assim como para o mesmo grupo etário (6). Apenas 1,7% dos casos de COVID-19 são relativos à população pediátrica e os sintomas são ligeiros. Apenas nos casos de crianças e jovens com problemas respiratórios e cardiovasculares, os sintomas e quadro clinico poderá ser mais grave (6).

4.

Os sintomas da COVID-19 são diferentes para quem sofre de diabetes?

Não. Os sintomas são semelhantes aos da população em geral e podem agravar-se de forma progressiva: febre (acima de 38.º), tosse e dificuldade respiratória. Em alguns casos, podem ainda surgir dores de cabeça, congestão nasal, dores musculares ou articulares, e alterações do trato gastro-intestinal (vómitos e diarreia).

Caso suspeite de estar infetado pela COVID-19, deverá manter-se em isolamento e contatar a linha de saúde 24 (808 24 24 24). Não se esqueça de mencionar a diabetes e a sua medicação habitual. Deverá também contatar o seu médico assistente, que o poderá orientar sobre como proceder em relação à diabetes.

5.

Tenho diabetes e resultado positivo para COVID-19. O que devo fazer?

Dependendo do tipo de diabetes (1 ou 2), as orientações a seguir são diferentes. A Associação Protetora de Diabéticos de Portugal (7), disponibiliza um manual com os diferentes cuidados a ter consoante a tipologia da doença. Caso tenha alguma dúvida, poderá ainda entrar em contacto com a linha de aconselhamento especializado a adultos, através do número 21 381 61 61.

6.

Existem alterações no acesso à insulina?

Não. As Sociedades Cientificas na área da diabetes, em associação com Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (APIFARMA), emitiram um comunicado conjunto onde esclarecem que: as insulinas necessárias à saúde dos Portugueses continuam a ser disponibilizadas aos doentes diabéticos e as principais companhias farmacêuticas abasteceram, atempadamente, o mercado reforçando-o em 20% (8).

Resposta do sistema de saúde em tempos de pandemia

Sintomas da diabetes: 10 sinais associados à doença

Outra preocupação gerada pelo cenário atual, é a forma como vai ser realizado o seguimento regular aos doentes diabéticos, e que medidas específicas foram tomadas pelas instituições de saúde no que diz respeito a este grupo de risco.

O “Documento de consenso de abordagem do doente diabético integrado no plano nacional de preparação e de resposta para a doença por COVID-19″ (2) dá conta das alterações durante este período:

  1. Adiamento de consultas, exames ou procedimentos considerados não urgentes, nomeadamente exames de rastreio de retinopatia diabética.
  2. Alteração da tipologia de consultas de diabetologia dos hospitais públicos e privados, centros de saúde e clínicas, para consultas à distância, via telefone ou correio electrónico, conforme a instituição o determine. Devem ser garantidas condições para que estas se concretizem com normalidade, nomeadamente efetivação da consulta sem a presença do doente, telefone com acesso ao exterior e sem temporizador. Os doentes devem ser avisados por quem a instituição determine da alteração da tipologia da consulta e os contactos telefónicos devem ser validados.
  3. Deve ser garantido o receituário aos doentes com consulta agendada, de forma a evitar falhas terapêuticas ou deslocações a outros centros para renovação de receituário.
  4. Situações detetadas na comunidade com eventual indicação para internamento, devem ser discutidos sempre que possível com os elos de ligação das diferentes especialidades (médicos e enfermeiros) antes de serem enviados ao hospital. Deve ser considerada também a hipótese de internamento eletivo nas Unidades de Hospitalização Domiciliária, com admissão do doente no domicílio.
  5. Profissionais de saúde diabéticos devem preferencialmente realizar consultas não presenciais, de modo a assegurar a sua proteção.

Os doentes diabéticos deverão manter o contacto com as suas unidades ou profissionais de referência (médico ou enfermeiro de família) de forma a conhecerem as alterações específicas no seu local de residência e quais as opções disponíveis em caso de necessidade.

Com várias unidades de saúde em atendimento exclusivo de situações de COVID-19, não se deverão dirigir a nenhuma destas unidades sem contacto prévio. O recurso ao serviço de urgência só deverá acontecer após contacto com a linha Saúde 24 ou, em caso de situações de maior gravidade, através do número europeu de socorro, 112.

Crie uma rede de apoio e esteja preparado

Idosa a fazer chamada telefónica

É recomendável que doentes e famílias de doentes diabéticos se preparem para a continuidade do isolamento social, antecipando possíveis necessidades e criando estratégias de gestão familiar em caso de doença. Deixamos-lhe alguns conselhos:

  • Tenham disponíveis os contactos dos seus profissionais de saúde de referência (médico ou enfermeiro de família, por exemplo)
  • Discuta com o seu médico a necessidade de ajustes de medicação ou dieta durante este período de confinamento. Coloque-lhe todas as dúvidas que tiver e perceba de que forma poderá obter medicação extra caso necessite de permanecer em casa durante um período prolongado
  • Garanta que tem toda a sua medicação habitual, todo o material necessário para controlo da glicemia em quantidade suficiente e alguns medicamentos de SOS (como o paracetamol, por exemplo)
  • Faça uma lista de alimentos e outros artigos de primeira necessidade e mantenha-a atualizada. Evitará deslocações desnecessárias ao supermercado. Tente que nada lhe falte durante, pelo menos, uma a duas semanas. Sempre que possível, delegue essas deslocações a outro membro menos vulnerável da família
  • Se viver sozinho, organize com a sua família ou rede de apoio de forma a poder receber em casa todos os bens essenciais sem precisar de se deslocar. Caso esteja isolado ou não disponha de qualquer ajuda, contacte a sua autarquia e dê conhecimento dessa circunstância
  • A maioria dos doentes infetados por COVID-19 recebe tratamento domiciliário. Planeie em família de que forma se poderão organizar no caso de um ou vários membros adoecerem.

Fontes

  1. DGS. (2019). Programa Nacional para a Diabetes. Desafios e estratégias. Disponível em: https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/relatorio-programa-nacional-para-a-diabetes-desafios-e-estrategias-2019-pdf.aspx
  2. Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Diabetes – COVID-19 Disponível em: https://www.spmi.pt/nedm-diabetes-covid-19/
  3. American Diabetes Association. Diabetes and Coronavirus. Disponível em: https://www.diabetes.org/coronavirus-covid-19
  4. International Diabetes Association. COVID-19 outbreak: guidance for people with diabetes. Disponível em: https://idf.org/our-network/regions-members/europe/europe-news/196-information-on-corona-virus-disease-2019-covid-19-outbreak-and-guidance-for-people-with-diabetes.html
  5. International Diabetes Association. Home-based exercise for people with diabetes. Disponível em: https://idf.org/aboutdiabetes/what-is-diabetes/covid-19-and-diabetes/home-based-exercise.html
  6. Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e Diabetologia Pediátrica (2020). COVID-19 e a diabetes na idade pediátrica. Acedido a 6 de Julho de 2020. Disponível em: https://www.spedp.pt/news/category/pediatria
  7. Associação Protetora de Diabéticos de Portugal (2020). Diabetes: O que fazer quando o resultado é positivo para COVID-19? Disponível em: https://apdp.pt/coronavirus-e-diabetes/
  8. Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (2020). Esclarecimento público conjunto. Acedido a 6 de Julho de 2020. Disponível em: https://www.apifarma.pt/salaimprensa/comunicados/Paginas/Esclarecimento-Publico-Conjunto-Insulinas-nas-Farmacias.aspx
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