Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
16 Jun, 2020 - 14:24

Gengibre: os benefícios que a ciência realmente suporta

Nutricionista Hugo Canelas

O gengibre é amplamente utilizado na medicina tradicional para tratar vários problemas de saúde mas nem todos os benefícios foram comprovados em humanos.

Raíz de gengibre em cima de uma mesa

gengibre é uma planta cujos rizomas ou raízes são amplamente usadas como especiaria. Pertencendo à família Zingiberaceaev está relacionado com a curcuma, o cardomomo e a galanga (ou gengibre tailandês).

Este alimento pode ser encontrado fresco, seco, em pó ou as forma de óleos e sumos e a sua vasta gama de aplicações inclui a cosmética e a indústria alimentar. A sua fragrância e sabor devem-se à presença de gingerol, um composto bioativo e, supostamente, um dos responsáveis pelas suas propriedades terapêuticas e efeito antioxidante.

Para que serve o gengibre?

Nos últimos anos o papel terapêutico do gengibre tem sido estendido para o cancro, quimioterapia, vómitos, fadiga e melhoria da qualidade de vida (1).

Este potencial farmacológico e fisiológico levou a um aumento significativo de estudos para avaliar os supostos benefícios do gengibre. No entanto, as limitações e qualidade dos mesmos continuam a ser determinantes para se poder extrapolar uma causa-efeito eficaz no uso de gengibre (1).

Benefícios do gengibre à luz da evidência científica

Gengibre: propriedades e benefícios desta especiaria
1.

O gengibre emagrece?

Este é um dos benefícios mais realçados para esta especiaria. No entanto, importa realçar que a grande maioria dos estudos disponíveis foram feitos em modelos animais ou em células isoladas.

Um estudo realizado em humanos avaliou o efeito de uma bebida quente de gengibre – 2000 mg de extrato – do dispêndio energético, apetite, saciedade e fatores de risco metabólico. Os resultados mostraram um aumento do metabolismo e redução da sensação de fome, o que sugere um potencial efeito na gestão do peso (20).

Uma meta-análise de 2018 concluiu que o consumo de gengibre, associado a um plano alimentar hipoenergético, está associado à redução do peso, perímetro de cinta e níveis de açúcar no sangue bem como melhoria dos níveis de colesterol HDL, mas sem efeito nos níveis de insulina e colesterol total e LDL.

No entanto, os estudos apresentam várias limitações: as doses utilizadas nos diferentes estudos variavam dos 50 mg aos 3000 mg de extrato de gengibre, o que dificulta a interpretação dos resultados (21).

Além disso, a azia é consistentemente relatado pelos participantes dos estudos que envolvem a suplementação com gengibre, especialmente aqueles que rondam os 500 e os 2000 mg/dia do produto. Outros sintomas gastrointestinais incluem dor abdominal, inchaço e flatulência para consumos de 750 mg a 2000 mg/dia (15).

Qualquer plano hipoenergético pode ser seguido para perda de peso, partindo da premissa de que o importante é que haja um défice calórico, ou seja, consumir menos calorias do que as que precisa. Tendo em conta as limitações dos estudos, não é possível concluir uma ação eficaz e comprovada do gengibre na perda de peso.

2.

O gengibre ajuda no tratamento de náuseas e vómitos?

O gengibre tem sido apontado como uma opção no tratamento de sintomas gastrointestinais, mais precisamente de náuseas e vómitos após cirurgias e decorrentes dos tratamentos de quimioterapia em doentes com cancro (3, 4, 5).

Vários estudos também foram feitos para determinar se este composto seria eficaz no tratamento dos enjoos matinais característicos de muitas grávidas. De acordo com os estudos, 1,1 a 1,5 g de gengibre reduzem significativamente os sintomas nestas mulheres, sem efeito, no entanto, nos vómitos (6).

No entanto, ainda são necessários estudos mais rigorosos para estabelecer a eficácia do gengibre em casos de náusea e vómito (3).

O consumo de chá de gengibre parece ser seguro para grávidas, no entanto, é necessário precaução em casos de problemas da grávida ou do bebé.

3.

O gengibre ajuda na redução de dores musculares e cansaço?

Alguns estudos consideraram o gengibre útil no combate ao cansaço e dores musculares decorrentes da prática desportiva. Segundo estes estudos, consumir 2 g de gengibre por dia, durante 11 dias, reduziu significativamente as dores musculares nos cotovelos de atletas após realização de exercícios excêntricos (7).

Acredita-se que este efeito esteja relacionado com o potencial anti-inflamatório do gengibre, e, embora não seja imediato, o efeito pode ser sentido no decorrer do tempo após realização do esforço físico (8).

No entanto, os estudos neste campo são escassos e os resultados para este efeito não foram conclusivos, não devendo por isso ser ainda considerado para o efeito.

Raíz de gengibre e gengibre em pó em cima de tábua de madeira
4.

O gengibre pode ter um diminuir a dor na osteoartrite?

A osteoartrite é uma doença músculo-esquelética crónica que envolve a degeneração das articulações do corpo, propiciando sintomas como dores e rigidez que reduzem significativamente a qualidade de vida.

Neste caso, alguns estudos tentaram comprovar que o extrato de gengibre ajuda a reduzir a dor e a necessidade de recorrer a analgésicos (9) e que, quando combinado com outros compostos como canela e óleo de sésamo e aplicado de forma tópica (pomada, unguentos), este alimento ajuda melhorar os sintomas da doença (10).

No entanto, a falta de eficácia demonstrada nos estudos e a falta de evidência sobre a segurança do extrato de gengibre são pontos essenciais que fazem com que o gengibre não deva ser apontado como terapêutica para este tipo de doença (11).

5.

O gengibre ajuda na redução do risco cardiovascular?

Grande parte dos estudos realizados com o gengibre avaliaram a associação entre diabetes tipo 2, obesidade e a suplementação com gengibre.

Num deles, realizado em 2015 com doentes diabéticos, 2 g de gengibre em pó por dia, durante 12 semanas, ajudaram a baixar os níveis de açúcar no sangue ( – 12%) e os valores de colesterol LDL oxidado ( – 23%) (12).

No que diz respeito à obesidade, os autores descreveram um efeito ligeiro da suplementação com gengibre na perda de peso e na regulação dos níveis de insulina (13).

Um outro estudo realizado em 85 pessoas com colesterol elevado avaliou o efeito do consumo de 3 g de gengibre em pó, por dia, durante 45 dias, e verificou uma redução significativa dos níveis de colesterol LDL (mau colesterol) (14).

À primeira vista, o gengibre parece potencialmente benéfico na redução dos fatores metabólicos de risco cardiovascular. No entanto, uma limitação óbvia deste tipo de estudo é o tamanho da amostra, sendo necessários mais estudos com mais pessoas para validar o efeito do gengibre na redução do risco cardiovascular (15).

6.

O gengibre ajuda na indigestão crónica?

A indigestão crónica ou dispepsia caracteriza-se por presença de dor recorrente e desconforto na parte superior do estômago.

Embora a sua origem seja algo obscura – uma vez que grande parte dos sintomas gastrointestinais são identificados pelos doentes como indigestão – acredita-se que um atraso no esvaziamento gástrico esteja na origem deste sintoma.

A maioria dos estudos da função digestiva apontam para um efeito benéfico do gengibre no esvaziamento gástrico. Num estudo realizado com 11 pessoas verificou-se que após o consumo de sopa, o gengibre ajudou a reduzir o tempo que este alimento demorava a deixar o estômago de 16 para 12 minutos (16).

Um outro estudo demonstrou que o consumo de 1,2 g de gengibre em pó antes de uma refeição ajuda a acelerar o esvaziamento gástrico em 50% (17).

Salienta-se no entanto que os participantes dos estudos que envolvem a suplementação com gengibre relataram consistentemente sintomas de azia, especialmente aqueles que rondam os 500 e os 2000 mg/dia do produto (15).

Este efeito é esperado uma vez que os constituintes do gengibre inibem a ação da cicloxigenase, uma enzima com um importante papel na defesa da mucosa gástrica [(18).

Efeitos secundários como azia e a segurança do gengibre em pó não foram ainda confirmados em estudos coesos e o número de amostra para estes estudos foi reduzido pelo que se torna difícil extrapolar estes efeitos para a população.

Mulher com dores menstruais
7.

O gengibre ajuda a atenuar as dores menstruais?

A dismenorreia ou dor menstrual faz parte dos sintomas sentidos pelas mulheres durante o ciclo menstrual.

Um estudo feito com 150 mulheres que tomaram 1 g de gengibre por dia, durante os 3 primeiros dias do ciclo, verificou uma redução na intensidade da dor (18). O mesmo efeito foi descrito em outros estudos e em todos as doses de gengibre utilizadas rondaram os 750 e os 1000 mg/dia (15).

Um outro estudo não encontrou qualquer relação entre o consumo de gengibre e a diminuição da intensidade da dor menstrual (15).

Embora o efeito analgésico do gengibre nas dores menstruais possa ser promissor, os estudos carecem de qualidade metodológica, não sendo ainda possível tirar conclusões plausíveis sobre o sei efeito na dismenorreia.

Gengibre: composição nutricional

Por 100 g de produto, podemos encontrar (2):

Energia80 Kcal
Proteínas1,8 g
Hidratos de Carbono17,8 g
Gordura0,7 g
Fibra2,0 g

Como usar gengibre

O gengibre pode ser usado em diversas receitas como especiaria, conferindo um sabor mais picante aos preparados. É frequentemente usado para acompanhar sushi e pode ser ainda acrescentado em água a ferver, fazendo assim chá de gengibre.

Receitas com gengibre: bolo de gengibre, limão e canela
Veja também Receitas com gengibre: 6 opções de refeições e bebidas para experimentar

Conclusão

O gengibre é uma especiaria que é utilizada na medicina tradicional para tratar alguns problemas comuns de saúde. No entanto, a qualidade dos estudos, a falta de evidência para a segurança da toma de extrato de gengibre e resultados contraditórios fazem com que a sua eficácia para o tratamento de várias patologias ainda não esteja comprovado.

A existência de divergências metodológicas e amostras de estudo muito pequenas fazem com que seja difícil tirar conclusões acerca dos potenciais benefícios do gengibre para a saúde humana e, como tal, qualquer alegação feita acerca deste alimento deve ser cuidadosamente estudada.

Fontes

  1. Wang S, et. al. (2014). Biological properties of 6-gingerol: a brief review. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25230520/
  2. Self Nutrition Data. Ginger root, raw Nutrition Facts and Calories. Disponível em: https://nutritiondata.self.com/facts/vegetables-and-vegetable-products/2447/2
  3. Ernst E, Pittler MH. (2000). Efficacy of ginger for nausea and vomiting: a systematic review of randomized clinical trials. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10793599/
  4. Chaiyakunapruk N, et. al. (2006). The efficacy of ginger for the prevention of postoperative nausea and vomiting: a meta-analysis. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16389016/
  5. Pillai AK, et. al. (2011). Anti-emetic effect of ginger powder versus placebo as an add-on therapy in children and young adults receiving high emetogenic chemotherapy. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20842754/
  6. Viljoen, E., et. al. (2014). A systematic review and meta-analysis of the effect and safety of ginger in the treatment of pregnancy-associated nausea and vomiting. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3995184/
  7. Black CD, et. al. (2010). Ginger (Zingiber officinale) reduces muscle pain caused by eccentric exercise. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20418184/
  8. Black CD, O’Connor PJ. (2010). Acute effects of dietary ginger on muscle pain induced by eccentric exercise. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21031618/
  9. Altman RD, Marcussen KC. (2001). Effects of a ginger extract on knee pain in patients with osteoarthritis. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11710709/
  10. Zahmatkash M, Vafaeenasab MR. (2011). Comparing analgesic effects of a topical herbal mixed medicine with salicylate in patients with knee osteoarthritis. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22308653/
  11. Marcus M, Suarez-Almazor M. (2001). Is there a role for ginger in the treatment of osteoarthritis? Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/1529-0131%28200111%2944%3A11%3C2461%3A%3AAID-ART424%3E3.0.CO%3B2-H
  12. Khandouzi, N, et al. (2015). The Effects of Ginger on Fasting Blood Sugar, Hemoglobin A1c, Apolipoprotein B, Apolipoprotein A-I and Malondialdehyde in Type 2 Diabetic Patients. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4277626/
  13. Ebrahimzadeh Attari V, et. al. (2016). Changes of serum adipocytokines and body weight following Zingiber officinale supplementation in obese women: a RCT. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26318445/
  14. Alizadeh-Navaei R, et. al. (2008). Investigation of the effect of ginger on the lipid levels. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18813412/
  15. Anh, Kim, et. al. (2020). Ginger on Human Health: A Comprehensive Systematic Review of 109 Randomized Controlled Trials. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7019938/
  16. Hu, M.-L. (2011). Effect of ginger on gastric motility and symptoms of functional dyspepsia. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3016669/
  17. Wu KL, et al. (2008). Effects of ginger on gastric emptying and motility in healthy humans. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18403946/
  18. Mao QQ, et al. (2019). Bioactive Compounds and Bioactivities of Ginger (Zingiber officinale Roscoe). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31151279/
  19. Ozgoli G, Goli M, Moattar F. (2009). Comparison of effects of ginger, mefenamic acid, and ibuprofen on pain in women with primary dysmenorrhea. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19216660/
  20. Sugimoto, K. et al. (2018). Hyperthermic Effect of Ginger (Zingiber officinale) Extract-Containing Beverage on Peripheral Skin Surface Temperature in Women. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6196930/
  21. Maharlouei, N., et. al. (2018). The effects of ginger intake on weight loss and metabolic profiles among overweight and obese subjects: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Disponível em: https://sci-hub.se/https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/10408398.2018.1427044
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