Nutricionista Rita Lima
Nutricionista Rita Lima Com a colaboração de: Nutricionista Hugo Canelas
06 Jan, 2020 - 10:05

Drenantes: o que são e qual o seu verdadeiro efeito no emagrecimento

Nutricionista Rita Lima Com a colaboração de: Nutricionista Hugo Canelas

Os drenantes têm sido apontado como uma ajuda no combate à retenção de líquidos e emagrecimento. Mas será que são eficazes?

Drenantes: o que são e qual o seu verdadeiro efeito no emagrecimento

A perda de peso é um objetivo a alcançar para muitas pessoas. Além da acumulação de gordura que leva ao aumento de peso, ainda existe a questão da retenção de líquidos, que afeta particularmente pessoas do sexo feminino, podendo contribuir para a sensação de inchaço, aparecimento de celulite e outros problemas de saúde.

Neste contexto, e para prevenir ou tentar contornar estas duas questões, existem alguns compostos são normalmente apontados como solução para este tipo de problemas, nomeadamente os drenantes.

Os drenantes têm como principal função eliminar a retenção de líquidos (através do seu efeito diurético). Mas será que são realmente úteis para este problema e que ajudam na perda de peso?

O que é a retenção de líquidos?

Drenantes: o que são e qual o seu verdadeiro efeito no emagrecimento

Para percebermos melhor a ação dos drenantes e se podem ajudar no emagrecimento, importa esclarecer o que é a retenção de líquidos.

Trata-se de uma condição que se caracteriza por uma acumulação excessiva de líquidos, dentro e fora das células, em particular nas células de gordura, dando origem a edema / inchaço e, consequentemente, a aumento de peso, má circulação e celulite.

Com efeito, para manter o equilíbrio hídrico e uma percentagem de cerca de 60% água, o nosso organismo tem mecanismos compensatórios que lhe permitem eliminar mais ou menos água de acordo com a percentagem que possui no momento.

Quando a ingestão hídrica é reduzida, os líquidos presentes nos vasos sanguíneos saem dos mesmos e acumulam-se no tecido subcutâneo, normalmente nas pernas, tornozelos, mãos, pés e abdómen, provocando o aspeto inchado da pele, sensação de pernas pesadas, desconforto e um aumento de peso.

O que são Drenantes?

Os drenantes são apontados como substâncias que aumentam a produção de urina pelo organismo e que ajudam a eliminar o excesso de água acumulado nos tecidos (ou seja, retenção de líquidos).

A maior parte dos suplementos drenantes concentram um ou mais princípios ativos/extratos de origem vegetal com ação fitoterápica.

O estudo de ervas medicinais ou concentrados de substâncias com efeito drenante ou diurético continua na ordem do dia. Há uma razão para a utilização indiscriminada e crescente destes produtos, uma vez que são considerados pela população em geral como mais seguros que os fármacos tradicionais (1).

No entanto, isto não quer dizer que haja evidência científica suficiente para apoiar as alegações feitas em relação a determinados compostos naturais.

Devido aos potenciais efeitos secundários graves, a maior parte das plantas medicinais são pouco estudadas; para além disso, são atribuídos vários efeitos terapêuticos às plantas medicinais, a maior parte das vezes observados em células in vitro ou modelos animais e não em humanos.

Drenantes: quais são apontados como eficazes?

1. Cavalinha

Chávena de chá de cavalinha

A cavalinha é uma planta amplamente consumida sob a forma de chá com o objetivo de diminuir o inchaço e a retenção de líquidos.

Com efeito, 2 estudos realizados em humanos demonstraram um aumento não só do volume de urina produzido, mas também de cloro e sódio eliminado.

No entanto, embora os resultados pareçam animadores, o ensaio clínico foi mal desenhado na medida em que não foi incluído um grupo-controlo placebo pelo que são necessários ensaios mais controlados para confirmar o efeito diurético da cavalinha (2).

Outro problema relacionado com os artigos que afirmam que plantas ou extratos de plantas, como a cavalinha, apresentam efeito diurético é o facto de poucos deles analisaram o mecanismo de ação por trás dessa propriedade. Na verdade, neste e outros casos, o mecanismo continua por desvendar, sendo necessários mais estudos que ajudem a clarificar a resposta ao consumo destes agentes (3).

2. Dente de Leão

Chá de dente-de-leão

A raiz de dente-de-leão tem muitos compostos de ocorrência natural, incluindo inulina, sesquiterpenos, além de compostos fenólicos, como flavonoides, minerais e fitosteróis.

A ação drenante do dente-de-leão pode estar associada ao seu elevado teor em potássio que, em modelos animais, foi responsável pela perda de peso na ordem dos 30% (4). No entanto, o mesmo não se pode dizer para os estudos em humanos.

Um ensaio clínico realizado em 17 voluntários saudáveis confirmou o aumento da frequência de eliminação urinária 5 horas após a ingestão de um extrato de dente-de-leão (5).

Embora estes resultados possam parecer animadores, limitações sérias como o número reduzido de participantes, a auto-monitorização do volume de líquidos consumido e eliminado e a falta de controlo em relação à água contida nos alimentos fazem com que estes resultados não possam ainda ser transponíveis para a população em geral.

3. Cafeína

Drenantes: o que são e qual o seu verdadeiro efeito no emagrecimento

A cafeína é um alcalóide que se encontra presente em muitos alimentos, bebidas, suplementos e medicamentos.

Embora o modelo teórico do efeito diurético da cafeína esteja definido – e que inclui o aumento da taxa de filtração glomerular e a inibição da reabsorção tubular de sódio – a verdade é que nada na bibliografia parece indicar que este efeito é pronunciado ao ponto de contribuir para a perda de peso (6).

Com efeito, tem sido sugerido que a ingestão aguda de cafeína em doses elevadas (pelo menos 250-300 mg ou o equivalente a 2 ou 3 cafés expresso) resulta numa estimulação a curto prazo da eliminação urinária (7).

No entanto, uma meta-análise de 2014 revelou que estas concentrações de cafeína não são responsáveis por um efeito diurético tangível (8). De acordo com o trabalho a ingestão de cafeína não aumenta a perda de líquidos por indivíduos saudáveis e o efeito diurético não se é sentido em praticantes de atividade física.

4. Hibisco

Chá de hibisco

Embora seja muito utilizado na indústria dos cosméticos, o hibisco tem-se demonstrado um ingrediente muito utilizado na medicina tradicional e alternativa, com alegados efeitos diuréticos e hipotensores.

As propriedades terapêuticas são atribuídas aos seus compostos bioativos, que incluem os ácidos fenólicos, flavenóides, antocianinas e alguns polissacarídeos. No entanto, apenas um estudo avaliou o seu potencial diurético.

Assim sendo, é impossível afirmar que o hibisco pode ser uma substância com efeito drenante tangível.

5. Outros compostos com efeitos diuréticos

Uma revisão de estudos científicos avaliou o poder diurético de várias ervas medicinais como:

  • funcho
  • freixo
  • salsa
  • cucumis
  • hibisco
  • cavalinha
  • agrião
  • quebra-pedra
  • erva pimenteira
  • sabugueiro

No entanto, concluiu-se que o número de estudos existentes é limitado e que são necessários novos estudos para avaliar os efeitos diuréticos relatados. Estes estudos são importantes para fornecer credibilidade científica ao uso de medicamentos tradicionais, tratamentos e diretrizes de tratamento (9).

E se o efeito drenante estiver na água bebida e não no composto que é adicionado?

Homem a servir água a clientes num restaurante

Uma das principais razões para o recurso a drenantes é a retenção de líquidos, muitas vezes associada ao excesso de sódio consumido ou incapacidade do organismo para o eliminar corretamente.

Embora já tenhamos vistos que alguns compostos podem efetivamente ajudar diretamente na eliminação do sódio em excesso, não parece sensato atribuir esse efeito à planta com qual é feito o chá, a infusão ou o suplemento, descartando por completo a importância da água neste processo.

Por isso, se a retenção de líquidos constitui um problema, lembre-se do seguinte: cerca de 45 a 75% do peso corporal total corresponde a água (e não cafeína ou cavalinha!), pelo que é essencial mantê-lo hidratado para manter o organismo a funcionar corretamente.

Certifique-se que ingere cerca de 3 litros (homens) e 2 litros (mulheres) de água por dia, uma vez que cerca de 20 % dos líquidos estão garantidos nos alimentos ingeridos (10). Se água simples não é do seu agrado, experimente aromatizá-la com frutos ou plantas, mesmo as referidas acima, mas com a plena consciência que o efeito diurético final não é responsabilidade do composto adicionado.

Conclusão

Grande parte dos estudos realizados com extratos são, por questões éticas, realizados em animais e, nestes casos, os resultados são até bastante promissores, No entanto, grande parte dos ensaios clínicos não são capazes de replicar os mesmos resultados em humanos, pelo que é impossível confirmar a eficácia de muitos dos drenantes mais populares do mercado.

De notar que nenhum destes suplementos contribui diretamente para a perda de massa gorda ou de peso.

Por fim, é necessário avaliar a real segurança de grande parte dos extratos de plantas para o consumo generalizado. Se tem dúvidas quanto à toma de drenantes, consulte o seu médico assistente.

Fontes

  1. Andrew, R., & Izzo, A. A. (2017). Principles of pharmacological research of nutraceuticals. Diponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28500635
  2. Wright CI, Van-Buren L, Kroner CI, Koning MM. (2007). Herbal medicines as diuretics: a review of the scientific evidence. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17804183/
  3. Livero FA, Menetrier JV, Lourenco ELB, Junior AG. (2017). Cellular and Molecular Mechanisms of Diuretic Plants: An Overview. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27758702/
  4. Guarrera PM, Savo V. (2013). Perceived health properties of wild and cultivated food plants in local and popular traditions of Italy: A review. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23395624/
  5. Clare BA, Conroy RS, Spelman K. (2009). The diuretic effect in human subjects of an extract of Taraxacum officinale folium over a single day. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19678785/
  6. Marx B, Scuvée É, Scuvée-Moreau J, Seutin V, Jouret F. (2016). Mécanismes de l’effet diurétique de la caféine [Mechanisms of caffeine-induced diuresis]. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27225921/
  7. Maughan RJ, Griffin J. (2003). Caffeine ingestion and fluid balance: a review. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19774754/
  8. Zhang Y, Coca A, Casa DJ, Antonio J, Green JM, Bishop PA. (2015). Caffeine and diuresis during rest and exercise: A meta-analysis. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25154702/
  9. Livero FA, Menetrier JV, Lourenco ELB, Junior AG. (2017). Cellular and Molecular Mechanisms of Diuretic Plants: An Overview. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27758702/
  10. Bruno, L. O., Simoes, R. S., de Jesus Simoes, M., Girão, M. J. B. C., & Grundmann, O. (2018). Pregnancy and herbal medicines: An unnecessary risk for women’s health-A narrative review. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29417644
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