Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
12 Ago, 2020 - 09:35

Dieta Atlântica: será mais saudável que as restantes?

Nutricionista Hugo Canelas

A dieta Atlântica é considerada como o padrão alimentar tradicional de Portugal e da Galiza.

Dieta Atlântica

O conceito da dieta Atlântica surgiu há uns anos, fruto de uma parceria entre o Instituto Politécnico de Viana do Castelo, a Universidade de Santiago de Compostela, a Fundação Espanhola de Nutrição e a Associação Galega para o estudo da dieta Atlântica.

O objetivo da parceria era o de tornar esta dieta numa referência mundial no que diz respeito a prática alimentar saudável.

Como resultado desta associação entre os pesquisadores das diferentes associações foi fundado em 2003, em Portugal, o Centro Europeu para a dieta Atlântica. Subsequentemente foi criada a “Fundação da dieta Atlântica” em 2007, na Galiza.

Caraterísticas da dieta Atlântica

Mesa posto para almoço ao ar livre

As tentativas para estabelecer as características desta dieta datam do ano 2000 e no seu primeiro estudo, os autores escolheram países que fossem representativos de 3 regiões da Europa, com diferentes climas, ambientes geográficos e estilos de vida (1):

  • Região do Atlântico: Portugal, Espanha, França, Irlanda, Reino Unido, Bélgica, Países Baixos, Dinamarca, Noruega e Islândia
  • Países do Mediterrâneo: Itália e Grécia
  • Europa Central: Alemanha, República Checa, Polónia, Áustria e Suíça

Esta dieta é considerada pelos pesquisadores como o padrão alimentar tradicional de Portugal e da Galiza. Após pesquisa e compilação de informação histórica e antropológica acerca das caraterísticas nutricionais dos padrões alimentares seguidos no Noroeste e regiões do Mediterrâneo espanhol, os pesquisadores dos 2 países puderam estabelecer comparações que permitem defender a dieta Atlântica como uma alternativa saudável ao padrão ocidental.

De acordo com um livro publicado pela Universidade de Santiago de Compostela, as principais características nutricionais associadas à dieta tradicional Atlântica praticada na Galiza são:

  1. Elevada ingestão de alimentos sazonais, locais, frescos e minimamente processados.
  2. Elevada ingestão de vegetais, frutas, batata, cereais e pão, castanha, frutas oleaginosas, leguminosas e mel.
  3. Utilização de azeite para temperar e banha de porco para cozinhar.
  4. Elevado consume de peixe, moluscos e crustáceos.
  5. Consumo moderado de queijo e leite.
  6. Consumo moderado de carne (vaca e porco).
  7. Consumo moderado de ovos.
  8. Consumo moderado de vinho às refeições.
  9. Consumo de molhos com um perfil de gorduras saudável.
  10. Consumo moderado de açúcares simples e sobremesas à base de cereais, fruta desidratada e ovos.
  11. Elevada ingestão de água mineral.
  12. Consumo preferencial de cozidos, estufados, grelhados e assados com pouca gordura.

Os autores defendem que estes alimentos irão não só assegurar um bom aporte de fibra alimentar e hidratos de carbono complexos mas também ácidos gordos essenciais polinsaturados como o ómega-3.

Para além disso, o consumo de vitaminas e minerais deverá ser o suficiente para atingir as doses diárias recomendadas de ingestão. Por fim, o consumo de compostos alimentares bioativos (antioxidantes, polifenóis, carotenoides entre outros), presentes maioritariamente nas frutas e vegetais, deverá ser o adequado para promover as ações biológicas propostas associadas a cada um deles.

Embora bastante semelhante à dieta Mediterrânica, principalmente devido ao incentivo ao consumo de hortofrutícolas, azeite e frutas oleaginosas, a dieta Altântica diverge ligeiramente ao promover o consumo de mais pescado, tubérculos e caldos com carne, e o consumo moderado de carnes magras (1).

Estas particularidades são, no entanto, condenadas pelas entidades que representam a dieta Mediterrânica, que descrevem a dieta Altântica como “um conceito completamente artificial” e uma tentativa de “cunhar uma nova marca” devido à popularização da dieta supracitada (2).

Dieta Atlântica e saúde

Posta de salmão temperada em cima de mesa da cozinha

O termo “dieta” refere-se ao padrão de ingestão de alimentos, sólidos ou líquidos, de uma pessoa. Este padrão pode ser influenciado por vários fatores, incluindo capacidade financeira, cultura, localização geográfica e estilo de vida.

Uma dieta equilibrada contém alimentos de todos os grupos alimentares e deve ser capaz de fornecer ao organismo todos os nutrientes necessários para o correto funcionamento e, no caso das crianças, crescimento e desenvolvimento.

Com isto em mente, são cada vez mais os dados epidemiológicos e experimentais que mostram a relação entre a ingestão excessiva ou deficitária de determinado nutriente e o outcome dessa prática para a saúde geral.

Um exemplo disso é a relação entre a alimentação e a doença cardiovascular. A redução do risco cardiovascular através da modulação alimentar é, neste momento, uma das áreas de maior interesse e estudo no seio da comunidade científica. Dados epidemiológicos e experimentais revelam sistematicamente que o consumo de ómega-3 pode ter um papel significativo na prevenção de doença das coronárias.

Apoiados nestes dados e sabendo de antemão que a dieta Atlântica é rica não só em ómega-3, mas também vitaminas do complexo B e minerais, os investigadores que desenvolveram o conceito da dieta Atlântica propuseram que esta dieta pode ter um valor preventivo não só nas doenças cardiovasculares mas também em certas doenças metabólicas – como a diabetes – e alguns tipos de cancro.

O que dizem os estudos?

Variedade de alimentos caraterísticos da dieta Atlântica

Embora pareçam animadores, os dados apresentados pelos investigadores que desenvolveram o conceito de dieta Atlântica não são mais do que relatos de ingestão de nutrientes ou compostos bioativos sob a forma de suplementos ou no contexto de um padrão alimentar equilibrado, como é o caso da dieta Mediterrânica.

No caso da última, o seu possível efeito benéfico no controlo de doenças como diabetes, obesidade, doença cardiovascular, doença de Alzheimer, doenças autoimunes e cancros do trato gastrointestinal está já documentado e compilado (39).

Enquanto isso, os benefícios da dieta Atlântica parecem “ir à boleia” dos estudos realizados com o padrão mediterrânico, havendo apenas um punhado de trabalhos que a analisa (10, 11, 12).

Num estudo de caso controlo – no qual são analisadas as diferenças entre pessoas doentes e saudáveis que seguem ou não determinado padrão alimentar – verificou-se que adesão à dieta Atlântica estava associada a menor probabilidade de enfarte agudo do miocárdio não fatal (10).

Um outro estudo realizado em Espanha entre 2008 e 2010 analisou o consumo de certos componentes da dieta Atlântica – peixe fresco, bacalhau, carne vermelha e de porco, produtos lácteos, leguminosas, vegetais, sopa, batatas, pão integral e vinho – e concluiu que esta está associada a uma menor concentração de marcadores inflamatórios, triglicerídeos e insulina (11).

À luz da evidência atual, o conceito de dieta Atlântica parece estar tão fundamentado como o da dieta Mediterrânica, mas como uma diferença importante: os anos e os dados gerados da pesquisa da última são bastante superiores aos da primeira. Queremos dizer com isto que, embora o conceito seja interessante em papel, é necessário definir ainda se a dieta Atlântica é tão saudável como a Mediterrânica, quando consumida como parte de um estilo de vida saudável.

Fontes

  1. Vaz Velho, M., et.al. (2016). The Atlantic Diet – Origin and features. Disponível em: mediterraneandiet.com/wp-content/uploads/atlantic-diet.pdf
  2. Roycor, A. (2017). What is the Atlantic Diet?. Disponível em: http://www.mediterraneandiet.com/what-is-the-atlantic-diet/
  3. Martín-Peláez S, Fito M, Castaner O. (2020). Mediterranean Diet Effects on Type 2 Diabetes Prevention, Disease Progression, and Related Mechanisms. A Review. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32726990/
  4. Torres-Peña JD, Rangel-Zuñiga OA, Alcala-Diaz JF, Lopez-Miranda J, Delgado-Lista J. (2020). Mediterranean Diet and Endothelial Function: A Review of its Effects at Different Vascular Bed Levels. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32722321/
  5. Tuncay C, Ergoren MC. (2020). A systematic review of precision nutrition and Mediterranean Diet: A personalized nutrition approaches for prevention and management of obesity related disorders. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32690178/
  6. Bartochowski Z, Conway J, Wallach Y, Chakkamparambil B, Alakkassery S, Grossberg GT. (2020). Dietary Interventions to Prevent or Delay Alzheimer’s Disease: What the Evidence Shows. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32681411/
  7. Tsigalou C, Konstantinidis T, Paraschaki A, Stavropoulou E, Voidarou C, Bezirtzoglou E. (2020). Mediterranean Diet as a Tool to Combat Inflammation and Chronic Diseases. An Overview. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32650619/
  8. Moazzen S, van der Sloot KJW, Bock GH, Alizadeh BZ. (2020). Systematic review and meta-analysis of diet quality and colorectal cancer risk: is the evidence of sufficient quality to develop recommendations? Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32613845/
  9. Moazzen S, van der Sloot KWJ, Vonk RJ, de Bock GH, Alizadeh BZ. (2020). Diet Quality and Upper Gastrointestinal Cancers Risk: A Meta-Analysis and Critical Assessment of Evidence Quality. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32585822/
  10. Oliveira A, Rodríguez-Artalejo F, Lopes C. (2010). Alcohol intake and systemic markers of inflammation–shape of the association according to sex and body mass index. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20083478/
  11. Guallar-Castillón P, Oliveira A, Lopes C, López-García E, Rodríguez-Artalejo F. (2013). The Southern European Atlantic Diet is associated with lower concentrations of markers of coronary risk. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23261168/
  12. Calvo-Malvar Mdel M, Leis R, Benítez-Estévez AJ, Sánchez-Castro J, Gude F. (2016). A randomised, family-focused dietary intervention to evaluate the Atlantic diet: the GALIAT study protocol. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27539113/
  13. Agostinis-Sobrinho, C., et.al. (2019). Adherence to Southern European Atlantic Diet and physical fitness on the atherogenic index of plasma in adolescentes. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/csp/v35n12/1678-4464-csp-35-12-e00200418.pdf
Veja também