Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
10 Dez, 2020 - 17:19

O impacto dos contracetivos orais na performance desportiva

Nutricionista Hugo Canelas

Estudos recentes confirmam que os contracetivos orais podem ter um efeito na performance desportiva das atletas, mas será significativo?

Contracetivos orais e performance

Para algumas mulheres, o ciclo menstrual é mais uma razão de preocupação durante o período competitivo. Para outras, os sintomas que afetam negativamente a performance como dores menstruais, náuseas e dores de cabeça, são razão de preocupação.

Neste sentido, muitas atletas fazem uso de contracetivos orais, tornando-se pertinente perceber qual é o verdadeiro efeito destes fármacos na performance desportiva.

Contracetivos orais: por que são uma opção?

Mulher a tomar pílula

Os contracetivos orais são usados por milhões de mulheres, incluindo atletas de elite. Só existem no mercado português contracetivos orais (pílulas) de baixa dosagem (menor ou igual a 35 mcg de etinilestradiol), com formulações combinadas – compostas por estroprogestativos (monofásicas, bifásicas ou trifásicas) – ou a chamada minipílula – compostas apenas por progestativo (1).

Estes fármacos são destinados a prevenir a gravidez, mas podem ser também utilizados para manipular o ciclo menstrual, controlando o seu timing ou eliminando por completo a possibilidade de menstruar (2).

Os contracetivos orais são ainda usados para aliviar sintomas como dores e hemorragias, reduzir a tensão pré-menstrual e o risco de quistos nos ovários e seios, assim como o risco de cancro dos ovários e do endométrio e de doença inflamatória pélvica (3).

Como é que funcionam?

O tipo mais popular de contracetivo oral é a pílula combinada, com um ciclo de 28 dias, sendo tomada numa rotina de 21:7, ou seja, 21 dias de toma continua da pílula e interrupção durante os 7 dias finais.

Neste caso, a pílula tem duas consequências fisiológicas. Em primeiro lugar, ajuda a reduzir os níveis naturais de estrogénio e progesterona durante o ciclo de 28 dias e, em segundo lugar, fornece quantidades mínimas, mas constantes de etinilestradiol e progestina, necessárias para a inibição da produção de hormona luteinizante (LH) e hormona estimuladora do folículo (FSH), compostos necessários para a maturação dos folículos do ovário.

Contraceptivos orais e performance desportiva: quais os efeitos?

Personal Trainer a fazer treino funcional com atleta

Um estudo recente concluiu que os métodos contracetivos podem ter um impacto negativo na performance desportiva (6). Este artigo de revisão mostrou que as mulheres que não tomam a pílula têm uma performance desportiva ligeiramente superior às que tomam.

Como resultado da toma da pílula, as concentrações endógenas de estradiol e progesterona encontram-se significativamente reduzidas, e esta pode ser a razão para tais diferenças na performance.

Na verdade, o perfil hormonal endógeno crónico das atletas que tomam a pílula é comparável ao perfil das mulheres que não tomam a pílula, durante a fase folicular, ou seja, de menor concentração hormonal (7, 8, 9).

Um outro estudo acerca do impacto do ciclo menstrual na performance durante o período menstrual concluiu que a performance desportiva pode ser inferior durante a fase folicular, relativamente às outras fases (onde os níveis endógenos de estrogénio e/ou progesterona são naturalmente superiores) (10).

Em conjunto, estes dados indicam que a performance desportiva das mulheres pode ser influenciada pelas concentrações de hormonas ováricas, ou seja, em determinadas fases do ciclo podemos esperar piores ou melhores performances de acordo com a quantidade de hormonas sexuais na corrente sanguínea.

Então os contracetivos orais influenciam a performance desportiva da atleta?

Resistência física: mulher a correr

Na verdade, embora se tenha verificado o impacto dos contracetivos orais na performance desportiva, a verdade é que este efeito é bastante muito baixo, não havendo necessidade de criar linhas orientadoras para mulheres atletas que tomem a pílula.

Na verdade, e uma vez que o espectro de sintomas é muitos variável e afeta as mulheres de diferentes formas, se o controlo da menstruação tiver um impacto mais direto na performance, os contracetivos orais podem indiretamente ajudar a melhorar o desempenho desportivo.

O importante é individualizar o acompanhamento à atleta que toma a pílula, focando na resposta de cada uma à contracepção oral.

Por outro lado, sabemos que um dos principais problemas que afeta esta população é a tríade da mulher atleta, um síndrome composto por distúrbios alimentares, osteoporose e amenorreia.

A amenorreia, definida como atraso na menarca, é de origem hipotalâmica, consistindo na estimulação insuficiente do hipotálamo para libertação de LH e FSH.

Este fenómeno é desencadeado não só pelo excesso de exercício físico, como pela baixa ingestão energética que, em conjunto, provocam sobre estimulação do eixo hipotálamo-hipofise-adrenal e interrompem a função reprodutora (11). Neste caso, os contracetivos orais podem ser uma vantagem, ajudando a reequilibrar os níveis de estrogénio e progesterona, contrariando a amenorreia.

Défice calórico: o segredo da perda de peso
Veja também Défice calórico: o segredo da perda de peso

Conclusão

Em suma, as mulheres que usam contracetivos orais podem ter uma diminuição muito ligeira na performance desportiva, quando comparadas com as mulheres que não usam contracetivos orais.

No entanto, a performance parece ser mais influenciada pelos sintomas do ciclo menstrual pelo que, se a pílula ajudar a controlar a intensidade destes, em alguns casos, pode inclusive contribuir indiretamente para melhorar a performance de mulheres cujos ciclos sejam mais “violentos”.

Mais do que criar recomendações específicas acerca do tema, é importante abordar cada atleta individualmente e avaliar o impacto dos sintomas da menstruação na performance desportiva.

Fontes

  1. SPG. (2003). Consenso sobre contracepção. Disponível em: http://www.spginecologia.pt/uploads/contracepcao.pdf
  2. Martin D, Sale C, Cooper SB, Elliott-Sale KJ. (2018). Period prevalence and perceived side effects of hormonal contraceptive use and the menstrual cycle in elite athletes. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29283683/
  3. NICE. (n.d). Contraceptives, hormonal. Disponível em: https://www.nice.org.uk/bnf-uk-only
  4. ACOG. (2015). Premesntrual Syndrome (PMS). Disponível em: https://www.acog.org/Patients/FAQs/Premenstrual-Syndrome-PMS
  5. Weingarten, H. P., & Elston, D. (1991). Food cravings in a college population. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/019566639190019O?via%3Dihub
  6. Elliott-Sale, K.J., McNulty, K.L., Ansdell, P. et al. (2020). The Effects of Oral Contraceptives on Exercise Performance in Women: A Systematic Review and Meta-analysis. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s40279-020-01317-5
  7. Elliott KJ, Cable NT, Reilly T. (2005). Does oral contraceptive use affect maximum force production in women? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1725011/
  8. Carol W, Klinger G, Jäger R, Kasch R, Brandstädt A. (1992). Pharmacokinetics of ethinylestradiol and levonorgestrel after administration of two oral contraceptive preparations. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1628691/
  9. Spona J, Elstein M, Feichtinger W, Sullivan H, Lüdicke F, Müller U, et al. (1996). Shorter pill-free interval in combined oral contraceptives decreases follicular development. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/0010782496001370
  10. McNulty, K.L., Elliott-Sale, K.J., Dolan, E. et al. (2020). The Effects of Menstrual Cycle Phase on Exercise Performance in Eumenorrheic Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s40279-020-01319-3
  11. Otis, C.L., Drinkwater, B.M Johnson, M., Loucks, A., Wilmore, J. (1999). A tríade da atleta – posicionamento oficial. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-86921999000400007
Veja também