Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
06 Abr, 2020 - 12:05

Fact-check: alho, álcool, água ou café podem prevenir a contaminação pela COVID-19?

Nutricionista Hugo Canelas

Haverá mesmo práticas ou alimentos que podem prevenir a contaminação pela COVID-19?

Alimentos podem prevenir a contaminação pela COVID-19: alho
fact-check falso

Questão em análise

Circulam nos meios sociais várias formas de prevenir a contaminação pela COVID-19 através de determinados alimentos, incluindo água, alho, bebidas alcoólicas e café. Mas haverá fundamento para tais recomendações?

Nada como uma crise epidemiológica para dar corda à imaginação e disseminar informação incorreta e potencialmente perigosa. Absorver esta informação pode ser um pretexto para descurar a verdadeira forma de prevenir a contaminação: o isolamento social e a correta higienização de mãos, superfícies, objetos e alimentos.

Como tem vindo a ser reiterado ao longo das últimas semanas, nada, mas mesmo nada na alimentação, sejam alimentos, suplementos ou “poções mágicas”, pode prevenir a infeção pelo novo coronavírus.

Alimentos podem prevenir a contaminação pela COVID-19? Entenda o que está em causa

Alimentos podem prevenir a contaminação pela COVID-19: limão, sal, água, vinagre

Simplificando o processo para quem ainda não o entendeu, a doença provocada pelo novo coronavírus transmite-se através de gotículas projetadas por tosse ou espirros de pessoas infetadas. A contaminação acontecer de pessoa para pessoa ou após contacto com superfícies contaminadas (1).

Estima-se que o período médio entre a contaminação e o aparecimento dos primeiros sintomas seja de um a 14 dias mas, na maioria dos casos, estes manifestam-se nos primeiros 5 dias e de forma leve e gradual(1).

Não quer isto dizer que o vírus permaneça na garganta “por 4 dias” e é precisamente neste ponto que a maioria das “curas” que circulam nas redes sociais falha redondamente.

Mistura de whisky e mel

Alimentação do bebé: mel

Tudo começou com o caso de um professor britânico de 25 anos com COVID-19 e que ficou internado num hospital de Wuhan. Relata este caso recuperado que, após recusar tratamento com antibióticos, decidiu experimentar um “remédio” à base de whisky e mel.

O primeiro ponto a salientar passa pelo facto de os antibióticos não combaterem vírus. Apenas combatem bactérias e, portanto, não seria um tratamento viável para a COVID-19.

Em segundo lugar, as bebidas alcoólicas promovem a desidratação, o que é contraproducente no combate ao vírus. Aliás, a ingestão de bastantes líquidos e uma correta hidratação após a infeção é uma das recomendações da Organização Mundial da Saúde.

Vinho

alimentos que podem prender o intestino tipos de vinho

A odisseia das bebidas alcoólicas continuou depois de um comunicado emitido pelo presidente da Federação Espanhola de Enologia (2).

Nele, Santiago Jordi Martín afirma que “a sobrevivência do coronavírus no vinho parece impossível porque a combinação concomitante da presença de álcool, um ambiente hipotónico e a presença de polifenóis impedem a vida e a multiplicação do próprio vírus”.

O presidente da organização continua com o discurso, completando que “o consumo moderado de vinho, desde que de forma responsável, pode contribuir para uma melhor higiene da cavidade bucal e da faringe, locais onde é mais comum o vírus hospedar-se caso ocorra uma infeção”.

Um estudo de 2017 coloca a hipótese de flavonóides como o resveratrol poderem ajudar no combate a vírus mas, de acordo com os autores, os resultados de estudos in vivo (animais, pessoas) não são assim tão promissores (3).

Assim, além do poder profilático do vinho não estar comprovado, não existe evidência de que a ingestão represente uma forma de cura ou prevenção da COVID-19.

É importante referir que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode agravar casos de depressão e ansiedade o que no panorama atual de distanciamento domiciliário, pode constituir um problema grave.

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Chá de erva-doce

Alimentos com propriedades anti-inflamatórias: chá verde

Para além dos anteriores, circula outro rumor de que o chá de erva-doce (ou funcho) pode impedir a propagação do vírus no organismo.

Isto acontece porque, aparentemente, este chá apresenta a mesma substância ativa – oseltamivir – que o medicamento Tamiflu, utilizado no tratamento dos vírus da gripe (4). No entanto, nenhuma substância do género se encontra na erva-doce (4).

Nem mesmo o seu teor em vitamina C pode contribuir para o combate ao vírus, não existindo evidência que suporte o reforço do sistema imunitário através da suplementação desta (ou de outras) vitamina (5).

A inutilidade da vitamina C serve para o chá de erva-doce, água (a qualquer temperatura) com limão e todo e qualquer alimento rico em vitamina C que se possam lembrar de referir como a próxima cura para o vírus.

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Água com sal ou vinagre

Alimentos podem prevenir a contaminação pela COVID-19: copo de água com sal

Voltando à história do vírus permanecer na garganta durante 4 dias, circulam algumas “dicas” que “podem salvar a vida a alguém”, e que envolvem o gargarejo com água morna e sal ou vinagre.

Como dito anteriormente, embora o período de incubação médio seja de 5 dias, não quer dizer que o vírus permaneça este tempo na garganta, não existindo sequer qualquer evidência de que a ingestão de água seja ela com vinagre, sal ou limão, ajude a eliminar o vírus do organismo.

No entanto, se retirar o sal ou o vinagre e simplesmente beber água, pode contribuir o bom estado de hidratação e para manter o correto funcionamento do organismo, incluindo a temperatura corporal e a eliminação de produtos do metabolismo dos nutrientes (6, 7).

Também inusitada é a recomendação de beber água potável a cada 15 minutos de forma a “empurrar” o vírus para o estômago – onde será inativado pelo ambiente ácido – ou a expelir o vírus através da urina e suor.

Escusado será dizer que os vírus não são combatidos, muito menos “eliminados” desta forma e que beber demasiada água pode levar a desequilíbrios que resultam em baixas de sódio no sangue (7).

Alho

Tratamento da candidíase: medicação para os vários tipos e remédios caseiros

As propriedades terapêuticas do alho têm vindo a ser exploradas em vários campos da ciência, incluindo no combate a agentes microbiológicos (8).

Efetivamente, um estudo realizado em embriões relata que o extrato de alho tem um efeito inibitório na propagação do vírus da bronquite infeciosa, também ele um coronavírus.

No entanto, infelizmente, não podemos afirmar que o alho possa ser utilizado como agente terapêutico no novo coronavírus por 2 razões: primeira, o estudo foi realizado em embriões de galinha e segunda, o tratamento foi com extrato de alho concentrado e pura, não com dentes de alho comprados no supermercado (9).

Café e chá

refluxo-o-que-nao-deve-comer-evitar-complicacoes

Foi propagado outro mito de que Li Wenliang, o primeiro médico a lançar o aviso sobre o novo coronavírus, estaria a estudar o efeito de substâncias como metilxantinas (presentes no café e chá), teobromina (presente no cacau) e teofilina para a cura da COVID-19; e que os hospitais chineses começaram a dar chá ou café três vezes por dia aos pacientes e que os números começaram a baixar.

Sabe-se que o café é rico em flavenóides com atividade antioxidante, cujo papel na prevenção de doenças tem vindo a ser comprovado (10).

No entanto não existe evidência de que nem chá nem o café possam atuar como tratamento ou cura da COVID-19, nem que a China esteja a dar chás ou cafés aos pacientes infetados com o novo coronavírus.

Avaliação Vida Ativa: Falso

Atualmente ainda não existe vacina para a COVID-19 e também não existem suplementos ou alimentos que podem prevenir a contaminação pela COVID-19. A única forma de prevenção passa pela correta higienização das mãos, superfícies, objetos e alimentos.

Fontes

  1. WHO. (2020). Q&A on coronaviruses (COVID-19). Disponível em: https://www.who.int/news-room/q-a-detail/q-a-coronaviruses
  2. FEAE. (2020). Coronavirus y Vino: la opinión de los enólogos españoles. Disponível em: https://federacionenologia.com/coronavirus-vino-opinion-enologos-espanoles/
  3. Gupta, Y., et.al. (2015). The Tamiflu fiasco and lessons learnt. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4375804/
  4. (n.d.). (2020). FACTCHECK: Doctors do not recommend fennel tea to fight coronavirus – News. Disponível em: https://www.time24.news/b/2020/01/factcheck-doctors-do-not-recommend-fennel-tea-to-fight-coronavirus-news.html
  5. Hemila, H. & Louhiala, P. (2013). Vitamin C for preventing and treating pneumonia. Disponível em: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD005532.pub3/full
  6. Mahan, L.K., Raymond, J.L. (2017). Krause’s Food and Nutrition Care Process. 14th Edition. St Louis, Missouri.
  7. Hoorn, E. J., & Zietse, R. (2017). Diagnosis and Treatment of Hyponatremia: Compilation of the Guidelines. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5407738/
  8. Arreola, R., et.al. (2015). Immunomodulation and Anti-Inflammatory Effects of Garlic Compounds. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4417560/
  9. Shojai, T.M., et.al. (2016). The effect of Allium sativum (Garlic) extract on infectious bronchitis virus in specific pathogen free embryonic egg. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4967842/
  10. Ding, M., et.al. (2015). Association of Coffee Consumption With Total and Cause-Specific Mortality in 3 Large Prospective CohortsClinical Perspective. Disponível em: https://www.ahajournals.org/doi/full/10.1161/CIRCULATIONAHA.115.017341
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