Rúben Ausina
Rúben Ausina
09 Jun, 2020 - 11:02

COVID-19: testes moleculares vs testes serológicos

Rúben Ausina

Testes moleculares vs testes serológicos: fique a par das diferenças e especificidades de cada um destes testes laboratoriais.

Testes moleculares vs testes serológicos: mulher a fazer teste à COVID-19

A pandemia por COVID-19 está em constante evolução, a par da investigação por métodos de diagnóstico cada vez mais fiáveis e direcionados.

De uma forma resumida os testes laboratoriais mais utilizados neste contexto sanitário podem ser categorizados por moleculares e serológicos, com objetivos diferentes e específicos.

Tanto nos testes moleculares como nos testes serológicos, para que o resultado seja o mais fiável, é necessário um teste com o máximo de especificidade (deteção de casos verdadeiro negativo) e sensibilidade (deteção de casos verdadeiro positivo) possível, a fim de reduzir a possibilidade de resultados “falso negativo” e “falso positivo”, o que compromete o diagnóstico.

A nível nacional a Direção-Geral da Saúde (DGS) identificou os laboratórios onde o diagnóstico laboratorial pode ser realizado, entre laboratórios hospitalares, privados, Universidades e Centros de Investigação, sendo que o Laboratório de Referência Nacional é atribuído ao Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (1).

Testes serológicos vs testes moleculares: diferenças e especificidades

1.

Testes moleculares

Profissional de saúde a fazer teste com zaragatoa em ambiente hospitalar

Atualmente, a metodologia de referência para a deteção laboratorial de SARS CoV-2, e consequente diagnóstico de COVID-19, é realizada por técnicas de biologia molecular, como RT-PCR.

Estes testes de diagnóstico detetam diretamente o material genético viral, neste caso RNA, sendo por isso os mais específicos e fiáveis do mercado da saúde. Apesar de serem mais morosos, é possível o resultado em menos de 24 horas (1, 2).

O material genético pode ser detetado em casos moderados da infeção entre 1 a 2 dias antes de aparecem os primeiros sintomas e até 8 a 12 dias. No que toca aos casos mais graves a dinâmica da carga viral pode ser alterada e assim prolongar o tempo de deteção (1, 2).

As amostras mais utilizadas para a deteção deste vírus são colhidas com zaragatoa e provêm do trato respiratório, tais como exsudados da nasofaringe (colheita pelo nariz) e orofaringe (colheita pela boca), colhidas com zaragatoa e meio de transporte específico.

Após colheita, que deve ser feita por profissionais habilitados e com o necessário equipamento de proteção individual, esta deve ser enviada para o laboratório “o mais rapidamente possível”, de preferência em ambiente refrigerado. (1).

É importante referir que apesar deste tipo de metodologia apresentar um elevado grau de especificidade e sensibilidade, se as amostras não forem colhidas e manuseadas de forma correta e cuidadosa, pode levar ao aumento de casos de “falso negativo” e “falso positivo”. (3)

2.

Testes serológicos

Homem a fazer análises ao sangue


Os testes serológicos ainda não utilizados em grande escala são utilizados para quantificar anticorpos, produzidos pelo sistema imunitário como defesa face à infeção e/ou antigénios (constituintes virais).

Atualmente, desempenham um papel importante para aferir o grau de imunidade da população (seroprevalência), através da quantificação, por métodos automatizados, do título de anticorpos presente na amostra e, como tal, não servem como testes de diagnóstico (2).

Na atual situação sanitária mundial, sem presença de vacina, o indivíduo só apresentará anticorpos (seroconversão) se tiver contacto prévio com o vírus. Alguns estudos apontam que a resposta imunológica na infeção por SARS CoV-2 só é detetada a partir da segunda semana de infeção, ou seja, cerca de 8 a 10 dias após o início dos sintomas (2).

Enquanto os testes moleculares são, por norma, realizados em amostras provenientes do trato respiratório, os testes serológicos utilizam amostras de sangue (plasma e/ou soro) (2).

Outra diferença em relação aos testes moleculares prende-se com o facto dos testes serológicos serem bem menos dispendiosos e mais rápidos na obtenção de resultados (4).

É importante salientar o alerta pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o uso dos designados “passaportes de imunidade”, que pode aumentar o risco de transmissão. Isto porque, até ao momento, ainda não é possível determinar quanto tempo um individuo que tenha adquirido anticorpos fica imune ao vírus, sendo que também existem outras variáveis inerentes a cada pessoa que podem afetar a imunidade individual (5).

Ainda dentro desta tipologia existem os testes rápidos qualitativos, também designados por “point-of-care“, de apoio ao diagnóstico para infeção de SARS CoV-2, mas a informação sobre o seu desempenho clínico ainda é muito limitada. A metodologia, manuseamento e interpretação do resultado são processos bem mais simples. É normalmente utilizada uma pequena quantidade de sangue, por punção digital, pouco tempo de espera para obter resultado e não requer ambiente controlado em laboratório (2, 3).

No entanto, a DGS e a OMS advertem para o uso de testes rápidos, sendo muito menos fiáveis do que os descritos anteriormente, pois não devem ser utilizados nunca de um modo isolado para o diagnóstico da infeção (1, 6).

Fontes

  1. DGS. COVID-19: Diagnóstico Laboratorial. Disponível em: https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/orientacoes-e-circulares-informativas/orientacao-n-0152020-de-23032020-pdf.aspx
  2. DGS. Testes Laboratoriais para SARS-CoV-2; Testes Rápidos. disponível em: https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/orientacoes-e-circulares-informativas/circular-informativa-conjunta-dgsinfarmedinsa-n-003cd10020200-de-27052020-pdf.aspx
  3. Nature. Will antibody tests for the coronavirus really change everything?. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-020-01115-z
  4. American Journal of Clinical Pathology. SARS-CoV-2 Testing: Trials and Tribulations. Disponível em: https://academic.oup.com/ajcp/article/153/6/706/5813763
  5. WHO. “Immunity passports” in the context of COVID-19. Disponível em: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/immunity-passports-in-the-context-of-covid-19
  6. WHO. Advice on the use of point-of-care immunodiagnostic tests for COVID-19. Disponível em: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/advice-on-the-use-of-point-of-care-immunodiagnostic-tests-for-covid-19
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