Psicóloga Ana Graça
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21 Mai, 2020 - 10:05

Situação financeira instável e saúde mental: como reagir a esta situação?

Psicóloga Ana Graça

A pandemia pode afetar a saúde de várias formas, até através das dificuldades financeiras. Situação financeira instável e saúde mental: que relação?

Situação financeira instável e saúde mental: casal a rever orçamento familiar

Em vários países, incluindo Portugal, teve já início o processo de desconfinamento, visto como uma importante medida para salvar a economia. Para além de atravessarmos uma crise de saúde pública, estamos também a viver uma crise financeira, ou seja, para além da ansiedade relacionada com o surto, o desemprego e a perda de rendimentos são também preocupações bem reais. Situação financeira instável e saúde mental: que relação?

Situação financeira instável e saúde mental: que relação?

Mulher a fazer contas aos ganhos e gastos mensais

Quando confrontados com um inimigo tão imediato e presente, como é o caso da pandemia por COVID-19, é comum que outros fatores que impactam a nossa saúde física e mental não estejam tão presentes nas nossas preocupações.

Todavia, situações como desemprego, pobreza, dificuldade em manter a habitação ou em garantir as necessidades alimentares da família são extremamente prejudiciais para a saúde, ainda que tenham menor visibilidade na comunicação social.

Estes fatores sociais e financeiros não são tão visíveis como a pandemia que vivemos, no entanto, não devem ser ignorados já que contribuem para o ampliar das complicações de saúde a nível físico e mental, ainda que tal aconteça a longo prazo.

A instabilidade financeira, o desemprego e a perda significativa de rendimentos são fatores de risco para o emergir de sintomas depressivos, para o aumento do risco de suicídio e para um consumo de aumentado de álcool e outras substâncias.

A perda de emprego/rendimentos pode levar a menor procura por cuidados de saúde pagos, maiores dificuldades em comprar a medicação habitual e ao adiamento de tratamentos ao nível da saúde mental (1).   

A situação de desemprego, em particular, tem o potencial de afetar negativamente a saúde mental e emocional. O trabalho oferece sensação de segurança, realização e autoeficácia, é uma oportunidade de conexão com os colegas, confere propósito e significado à vida.

Quando o emprego se extingue, leva com ele muitas destas vantagens. Não se resume apenas à perda do salário, mas também há perda de uma rotina estruturante que contribui para a saúde mental (2).

Como sobreviver com saúde à instabilidade financeira?

Casal na sua rotina diária de teletrabalho

Como vimos, a relação entre situação financeira instável e saúde mental é bastante estreita e perigosa para o bem-estar geral. Logo, importa adotar algumas medidas que contribuam para o bem-estar e para a saúde mental em tempos de pandemia e instabilidade financeira, tais como:

1.

Deixar a culpa de lado

A culpa da instabilidade financeira associada ao surto por COVID-19 não nos pertence. Não nos podemos culpar pela redução dos rendimentos ou pela situação de desemprego. Atribuir culpas apenas será ainda mais prejudicial para a saúde mental.

2.

Recorrer à rede social de apoio

Acima de tudo, devemos proteger a nossa saúde, nomeadamente a nossa saúde mental. Uma boa forma de o fazer passa por manter interações sociais frequentes e saudáveis. Estar desempregado ou estar a cumprir isolamento social não deve ser motivo para estar só e totalmente isolado.

3.

Fugir das interações sociais tóxicas

Durante um período tão conturbado e desgastante, tudo o que não precisamos é de relações sociais negativas. Devemos rodear-nos de quem nos quer bem, nos apoia e nos quer ver prosperar.  

4.

Criar e manter uma rotina diária

A diminuição de horas de trabalho ou desemprego podem conduzir ao aborrecimento, ao tédio, a sentimentos de desesperança, ao isolamento e à depressão. Para combater estas situações é fundamental a existência de uma rotina diária que mantenha a atividade e a motivação. Idealmente, essa rotina deve incluir:

  • Ciclo regular de sono/vigília
  • Prática de atividade física
  • Tempo para desenvolver uma nova habilidade ou um novo projeto
  • Alimentação cuidada
  • Tempo no exterior da habituação, sempre que possível e com os devidos cuidados
  • Tempo de qualidade com outras pessoas (2)
Importância do sono em tempos de pandemia: mulher deitada na cama a tentar dormir
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conclusão

Felizmente, algumas pessoas estão a conseguir ultrapassar este período de crise com exposição e risco mínimos, já que o teletrabalho, o ensino online e as entregas ao domicílio facilitam o dia-a-dia de muitas famílias.

No entanto, há profissões que não podem parar e exigem o trabalho presencial, bem como há famílias que dependem da reabertura dos seus negócios. Nestas situações, é importante que aconteça este retorno à normalidade possível, ainda que cauteloso e bem planeado, de forma a minimizar o saldo negativo que a relação entre situação financeira instável e saúde mental pode trazer.

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Fontes

  1. Barnhorst, A. (2020). The Hidden Cost of COVID Shutdowns. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/in-crisis/202005/the-hidden-cost-covid-shutdowns
  2. Fuller, K. (2020). Mental Health and Job Loss. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/happiness-is-state-mind/202005/mental-health-and-job-loss
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