Psicóloga Ana Graça
Psicóloga Ana Graça
22 Nov, 2022 - 11:39

Qual é o perigo das fake news para a saúde mental?

Psicóloga Ana Graça

A desinformação parece ter vindo para ficar, pelo que importa estar alerta para o perigo das fake news ao nível da saúde mental.

Perigo das fake news

Cada vez mais, importa reforçar a preocupação com as informações falsas que proliferam nas redes sociais e que parecem espalhar-se tão rápido quanto um vírus. Esta realidade não é nova. Mas qual o perigo das fake news, nomeadamente ao nível da saúde mental?  

O que são fake news?

Pessoas a ver as últimas notícias através do telemóvel

As notícias falsas são difíceis de identificar para algumas pessoas e, por isso, tendem a criar confusão acerca do que é, ou não, verdade. Criam dúvidas acerca da precisão, confiança e veracidade de determinadas informações e, por norma, são continuamente partilhadas.

São rapidamente disseminadas através da internet, daí que todas as pessoas sejam frequentemente bombardeadas com fake news. Devido a esta disseminação massiva e contínua e devido à sua natureza sensacionalista, tendem a ter grande impacto em quem as consome, perdurando na sua memória.

Qual é, afinal, o grande perigo das fake news?

As fake news e a desinformação em geral parecem ter um impacto profundo, com consequências políticas, económicas, sociais e ambientais. Estudos recentes mostram que as mentiras se espalham mais rápido do que a verdade, pelo que importa prestar-lhes especial atenção.

A proliferação da desinformação está longe de ser uma realidade nova, mas tem vindo a acentuar-se. A preocupação com esta realidade e o seu impacto é ainda maior neste momento de pandemia, face impacto negativo que a desinformação pode ter ao nível da Saúde Pública.

No caso específico da pandemia por COVID-19, as fake news afetaram negativamente o cumprimento das medidas que visavam prevenir/evitar a propagação do vírus. Muitas pessoas descuraram das medidas recomendadas pelos organismos oficiais – desacreditaram nas vacinas, por exemplo – e passaram à frente informações alarmantes e receitas de curas milagrosas, tudo sem qualquer evidência científica.

Na política, o embate tem sido duro entre o jornalismo real e o “jornalismo das fake news“, que corre à velocidade da luz em aplicações como WhatsApp e outros do mesmo género – especialmente em países onde impera o controlo dos media, como a Rússia e a China, ou noutros, onde a polarização partidária é um grave problema que corre no tecido sócio-político, como Estados Unidos e Brasil.

O perigo das fake news também se estende à saúde mental. Acreditar nas informações falsas massivamente difundidas tende a causar confusão e grandes dificuldades em distinguir aquilo que é verdadeiro, daquilo que é falso.

Mais ainda, em situações de crise como a que vivemos, já de si propícia a sentimentos de insegurança e incerteza, as fake news podem contribuir para níveis de ansiedade mais elevados, stress ou até sintomatologia depressiva.

Porque é que algumas pessoas são mais suscetíveis às fake news?

Mulher a ver as notícias do dia no telemóvel

Todas as pessoas podem, mais cedo ou mais tarde, acreditar em fake news e replicá-las, na medida em que ninguém está imune. Todavia, o perigo das fake news não parece ser o mesmo para todas as pessoas.

Somos seres sociais, tendemos a aceitar a informação que recebemos daqueles com quem convivemos. Assim sendo, a informação que nos é transmitida é prioritariamente codificada como verdadeira, ou seja, numa primeira instância acreditarmos na mesma.

Mais ainda, de forma geral, como seres humanos, temos o instinto de estar mais abertos aos raciocínios ou evidências que confirmam as nossas crenças atuais e menos abertos a novas informações, que desafiam as nossas visões acerca do mundo.

Sentimos necessidade de receber informações que confirmem e harmonizem com as visões e crenças que já possuímos. Esta necessidade pode levar a que informações tendenciosas, não baseadas em evidências, pareçam mais apelativas ao nosso cérebro, que tende a rejeitar ou distorcer as informações que se apresentem como ameaças ou ameaças as crenças que já possuímos.  

Esta tendência, comum a todas as pessoas, parece ser mais evidente e frequente em pessoas que sofrem de ansiedade, mais defensivas e que vêm o mundo como um lugar extremamente perigoso. A crise que atravessamos provoca nestas pessoas níveis ainda mais elevados de incerteza e insegurança, tornando-as mais permeáveis a informações que confirmem o que estão dispostas e pretendem aceitar.

Mais ainda, muitos preconceitos e crenças que as pessoas possuem enquanto adultos, são formados durante a infância, quando a aprendizagem entre o que é fantasia e realidade se processa.

A inocência infantil é saudável e comum mas, com o decorrer do desenvolvimento, é desejável que o pensamento crítico seja estimulado. Todavia, quando as habilidades de pensamento crítico colidem com a realidade e a ideologia que vivenciam em casa, as crianças podem racionalizar crenças falsas e deixar a lógica de lado, para evitar rejeições e atritos familiares.

À medida que este comportamento se torna rotineiro e inconsciente, o sentido crítico passa definitivamente a ser deixado de lado e a vulnerabilidade a crenças irracionais e narrativas logicamente inconsistentes é cada vez maior.

Conclusão

As fake news e as teorias da conspiração emergem sobretudo durante tempos de crise e incerteza, apresentando-se através de explicações simplistas sobre as situações. Como evitar o perigo das fake news? Combatendo-as!

A principal forma de o fazer passa pela educação. Quanto maior for o conhecimento acerca do que são notícias falsas e quanto maior a capacidade para verificar a sua veracidade, menor será a sua disseminação e o seu impacto. Assim sendo, devemos tentar manter uma mente aberta e estar expostos a diferentes pontos de vista.

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