Psicóloga Ana Graça
Psicóloga Ana Graça
25 Fev, 2021 - 09:39

Vamos falar sobre o perigo das fake news para a saúde mental?

Psicóloga Ana Graça

A pandemia e a desinformação vieram para ficar, pelo que importa estar alerta para o perigo das “fake news” ao nível da saúde mental.

Perigo das fake news

A pandemia por COVID-19 veio reforçar a preocupação com as informações falsas que proliferam nas redes sociais e que parecem espalhar-se tão rápido quanto o vírus. Esta realidade não é nova. A situação de crise que vivemos e as notícias falsas que surgiram associadas a esta, apenas vieram demonstrar que há outra epidemia a combater, a epidemia das “fake news”. Mas qual o perigo das “fake news”, nomeadamente ao nível da saúde mental?  

O que são “fake news”?

Pessoas a ver as últimas notícias através do telemóvel

As notícias falsas são difíceis de identificar para algumas pessoas e, por isso, tendem a criar confusão acerca do que é, ou não, verdade. Criam dúvidas acerca da precisão, confiança e veracidade de determinadas informações e, por norma, são continuamente partilhadas.

São rapidamente disseminadas através da internet, daí que todas as pessoas sejam frequentemente bombardeadas com “fake news”. Devido a esta disseminação massiva e contínua e devido à sua natureza sensacionalista, tendem a ter grande impacto em quem as consome, perdurando na sua memória (1).

Qual é, afinal, o grande perigo das “fake news”?

As “fake news” e a desinformação em geral parecem ter um impacto profundo, com consequências políticas, económicas, sociais e ambientais. Estudos recentes mostram que as mentiras se espalham mais rápido do que a verdade, pelo que importa prestar-lhes especial atenção.

A proliferação da desinformação está longe de ser uma realidade nova, mas tem vindo a acentuar-se. A preocupação com esta realidade e o seu impacto é ainda maior neste momento de pandemia, face impacto negativo que a desinformação pode ter ao nível da Saúde Pública.

No caso específico da pandemia por COVID-19, as “fake news” têm o potencial de afetar negativamente o cumprimento das medidas que podem prevenir/evitar a propagação do vírus. Têm levado a que muitas pessoas descurem das medidas recomendadas pelos organismos oficiais, acreditem em curas milagrosas sem evidência científica e que difundam estas crenças infundadas, levando a que outras pessoas contraiam o vírus e adoeçam.

O perigo das “fake news” também se estende à saúde mental. Acreditar nas informações falsas massivamente difundidas tende a causar confusão e grandes dificuldades em distinguir aquilo que é verdadeiro, daquilo que é falso.

Mais ainda, em situações de crise como a que vivemos, já de si propícia a sentimentos de insegurança e incerteza, as “fake news” podem contribuir para níveis de ansiedade mais elevados, stress ou até sintomatologia depressiva (1, 3).

Porque é que algumas pessoas são mais suscetíveis às “fake news”?

Mulher a ver as notícias do dia no telemóvel

Todas as pessoas podem, mais cedo ou mais tarde, acreditar em “fake news” e replicá-las, na medida em que ninguém está imune. Todavia, o perigo das “fake news” não parece ser o mesmo para todas as pessoas.

Somos seres sociais, tendemos a aceitar a informação que recebemos daqueles com quem convivemos. Assim sendo, a informação que nos é transmitida é prioritariamente codificada como verdadeira, ou seja, numa primeira instância acreditarmos na mesma.

Mais ainda, de forma geral, como seres humanos, temos o instinto de estar mais abertos aos raciocínios ou evidências que confirmam as nossas crenças atuais e menos abertos a novas informações, que desafiam as nossas visões acerca do mundo.

Sentimos necessidade de receber informações que confirmem e harmonizem com as visões e crenças que já possuímos. Esta necessidade pode levar a que informações tendenciosas, não baseadas em evidências, pareçam mais apelativas ao nosso cérebro, que tende a rejeitar ou distorcer as informações que se apresentem como ameaças ou ameaças as crenças que já possuímos.  

Esta tendência, comum a todas as pessoas, parece ser mais evidente e frequente em pessoas que sofrem de ansiedade, mais defensivas e que vêm o mundo como um lugar extremamente perigoso. A crise que atravessamos provoca nestas pessoas níveis ainda mais elevados de incerteza e insegurança, tornando-as mais permeáveis a informações que confirmem o que estão dispostas e pretendem aceitar.

Mais ainda, muitos preconceitos e crenças que as pessoas possuem enquanto adultos, são formados durante a infância, quando a aprendizagem entre o que é fantasia e realidade se processa.

A inocência infantil é saudável e comum mas, com o decorrer do desenvolvimento, é desejável que o pensamento crítico seja estimulado. Todavia, quando as habilidades de pensamento crítico colidem com a realidade e a ideologia que vivenciam em casa, as crianças podem racionalizar crenças falsas e deixar a lógica de lado, para evitar rejeições e atritos familiares.

À medida que este comportamento se torna rotineiro e inconsciente, o sentido crítico passa definitivamente a ser deixado de lado e a vulnerabilidade a crenças irracionais e narrativas logicamente inconsistentes é cada vez maior (2, 3).

Conclusão

As “fake news” e as teorias da conspiração emergem sobretudo durante tempos de crise e incerteza, apresentando-se através de explicações simplistas sobre as situações. Como evitar o perigo das “fake news”? Combatendo-as!

A principal forma de o fazer passa pela educação. Quanto maior for o conhecimento acerca do que são notícias falsas e quanto maior a capacidade para verificar a sua veracidade, menor será a sua disseminação e o seu impacto. Assim sendo, devemos tentar manter uma mente aberta e estar expostos a diferentes pontos de vista (1, 2).

Fontes

  1. Wright, C. (2020). COVID-19 Fake News and Its Impact on Consumers. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/everyday-media/202004/covid-19-fake-news-and-its-impact-consumers
  2. Azarina, B. (2020). What Makes People Especially Vulnerable to Fake News? Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/mind-in-the-machine/202012/what-makes-people-especially-vulnerable-fake-news
  3. Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2020).DESINFORMAÇÃO, FAKE NEWS E PANDEMIA COVID-19 OS PROCESSOS COGNITIVOS SUBJACENTES E O PAPEL DOS PSICÓLOGOS. Disponível em: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/recomendacoes_fakenews_materiais_para_psicaologos.pdf
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