Catarina Milheiro
Catarina Milheiro
18 Out, 2022 - 12:18

Administrar melatonina em bebés e crianças: sim ou não?

Catarina Milheiro

A melatonina em bebés e crianças é segura? Saiba quando é indicada, como funciona e quais são os riscos associados.

A Academia Americana de Medicina do Sono (AASM) alerta para o facto de a melatonina não dever ser administrada em bebés e crianças, sem qualquer prescrição médica.

Mas já ouviu falar sobre este tipo de suplementos? A verdade é que são vendidos como se se tratasse de pílulas/gotas do sono para os pais de crianças que têm dificuldades em dormir.

Vendidos em formato de ursinhos, gomas ou comprimidos, ou ainda em gotas, os suplementos de melatonina parecem ser uma solução rápida e simples para muitas famílias – principalmente por não ser necessária uma prescrição médica. Mas será que não têm quaisquer efeitos prejudiciais para a saúde?

Num comunicado recente, a AASM emitiu novas recomendações sobre o tema para os pais dos bebés e crianças, pedindo que evitem a todo o custo a administração de melatonina sem qualquer orientação médica.

Os prós e contras da administração de melatonina em bebés e crianças

A utilização de melatonina em bebés, crianças e adolescentes tem vindo a aumentar de tal forma, que os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças relatam um aumento nas chamadas para os centros de envenenamento e nas visitas às urgências nos Estados Unidos. Tal facto está diretamente associado às ingestões não intencionais de melatonina, principalmente por bebés e crianças.

Mas o que é a melatonina e como funciona?

De um modo geral, a melatonina é uma hormona natural que nos ajuda a regular o nosso ciclo de sono-vigília. E embora esteja amplamente disponível no mercado e comercializada como um auxílio para dormir, existem poucas evidências de que tomá-la como suplemento seja eficaz no tratamento da insónia em bebés e crianças saudáveis.

Além disto, a melatonina tem menos supervisão do que os medicamentos em geral. Isto acontece porque é regulamentada como um suplemento dietético e o conteúdo de melatonina pode variar de produto para produto.

De facto, um estudo descobriu que a variabilidade mais significativa no conteúdo de melatonina estava precisamente em “gomas” ou comprimidos mastigáveis – a forma que as crianças mais têm probabilidade de usar.

Assim, a melatonina é mais usada para tratar o ciclo de sono vigília (ou seja, a quantidade de tempo que demoramos a adormecer). No entanto, o suplemento é bastante recorrente para combater também a dificuldade de adaptação aos fusos horários (como o jet lag).

Porém, quando se trata do uso de melatonina em bebés e crianças, há estudos que indicam que os efeitos da melatonina variam de criança para criança devido aos diferentes distúrbios do sono e à variabilidade nos ritmos circadianos.

Os efeitos a longo prazo são ainda desconhecidos. Por isso é necessário refletirmos bastante sobre este assunto. Queremos mesmo que os nossos filhos dependam de um suplemento, sobre o qual pouco ou nada se sabe?

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As indicações e contraindicações do uso de melatonina

Conforme referimos, há situações nas quais a melatonina pode realmente ser eficaz. Ou para ajudar com o jet lag, ou para trabalhadores noturnos que lidem com diferenças de horário profundas e privação de sono até.

E quando falamos de bebés ou crianças, também nestas poderá haver algum tipo de benefício, especialmente naquelas que são diagnosticadas com autismo. Mas é importante que esta recomendação parta sempre do pediatra.

Para as crianças que não apresentam este tipo de diagnóstico não parece haver benefícios associados à toma de melatonina.

A prova disso foi o estudo realizado por uma especialista, que revela que em 6 ensaios clínicos sobre o tratamento com melatonina nas crianças, a substância diminuiu o tempo para adormecerem, variando entre 11 e 51 minutos.

Por isso, será assim tão benéfico o seu uso em crianças? Afinal, reduzir em 11 minutos o tempo que demoram a adormecer, optando por tomar um suplemento que desconhecem, poderá não ser uma grande ajuda.

Na verdade, parece existir uma grande incerteza quanto à sua administração, principalmente nas crianças e bebés. Não se sabe qual a dose certa, quando administrá-la e quais os seus efeitos por longos períodos de tempo. Por tudo isto, o uso de melatonina não é de todo recomendado nos mais novos.

Os riscos da toma de melatonina nos mais pequenos

No que diz respeito aos efeitos laterais documentados até hoje em bebés e crianças, estes incluem dores de cabeça, sonolência, agitação e aumento da urina. Muitas vezes, as crianças acabam por urinar na cama enquanto dormem sem que se apercebam.

Além disto, há o risco de a melatonina interagir de forma prejudicial quando administrada com medicamentos por vezes prescritos para reações alérgicas nas crianças.

O suplemento pode ainda afetar o desenvolvimento hormonal: falamos da puberdade ou dos ciclos menstruais, por exemplo.

O melhor a fazer é conversar com o pediatra

Se os seus filhos têm dificuldade em adormecer é crucial que converse com o pediatra a fim de perceber o que pode estar na origem do problema. Muitas vezes, basta alterar um pouco as rotinas dos mais pequenos para que eles cheguem à cama mais cansados e com sono.

Alterar horários, hábitos ou comportamentos pode ser a solução. Por exemplo: determinar uma hora para parar de mexer em tablets, computadores, ver televisão ou estar em frente a qualquer tipo de ecrã que os estimule ainda mais.

Os efeitos laterais, a falta de conhecimento sobre a dosagem adequada e a pureza dos suplementos de melatonina, são os principais motivos pelos quais os pais não devem dar melatonina aos filhos, sem a orientação e consentimento de um pediatra.

Caso contrário, não saberá se está a ajudar ou não os mais pequenos. Por isso o melhor a fazer é consultar o médico.

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