Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
11 Dez, 2020 - 09:45

4 dicas para evitar o desperdício alimentar no Natal

Nutricionista Hugo Canelas

O Natal é uma altura de fartura e o desperdício alimentar é uma realidade. No entanto, é um problema grave que pode e deve contornar. Dizemos-lhe como.

Evitar o desperdício alimentar no Natal

Nenhuma altura do ano é tão propícia ao desperdício alimentar como o Natal. Basta olhar para a mesa na ceia de Natal e tentar antecipar para onde irão grande parte desses alimentos nos dias que se seguem.

Alertando para o profundo impacto que esta prática tem, não só a nível ambiental, mas também socioeconómico, deixamos algumas dicas para evitar o desperdício alimentar no Natal.

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Como evitar o desperdício alimentar no Natal: 4 dicas

Estima-se que cerca de 1/3 de toda a comida produzida no mundo seja desperdiçada, todos os anos, pelas mais variadas razões (1). No caso particular de Portugal, estima-se que o valor de desperdício ronde 1 milhão de toneladas, sendo 324 mil toneladas desperdiçadas pelo consumidor (2).

Essa comida é enviada para aterros sanitários, onde “apodrece” e dá origem a metano, o segundo gás com efeito estufa mais comum. Por outro lado, este desperdício implica que cerca de 170 triliões de litros de água potável sejam gastos todos os anos.

Para combater o desperdício alimentar, o contributo individual é fundamental. Com o Natal à porta, saiba como o pode fazer.

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Compre e confecione a quantidade correta de alimentos para a família

Mulher a comprar fruta e legumes no supermercado

Todo o anfitrião se preocupa quanto à quantidade de comida na mesa e essa preocupação começa logo nas superfícies comerciais, onde há uma tendência para comprar mais do que realmente é necessário.

Embora comprar em quantidade possa parecer mais conveniente, estudos mostram que esta prática gera mais desperdício alimentar e, por isso, maior impacto ambiental (4). Para evitar o desperdício, faça listas de compras e guie-se por elas.

Já na cozinha, de forma a garantir que cozinha as quantidades adequadas de comida, tenha em atenção a lista de convidados. Regra geral, as crianças comem muito menos que os adultos, logo tenha em consideração o número de crianças que terá à mesa.

Já os adultos, muitas vezes preferem guardar algum espaço no estômago para as sobremesas e os adeptos de bebidas alcoólicas à refeição terão quase de certeza menos apetite quando tiverem a comida à frente.

Para os que quiserem ir mais longe e que dominem a língua inglesa, existe ainda uma ferramenta britânica desenvolvida pelo conselho de defesa de recursos naturais (NRDC) que ajuda a criar um menu baseado na quantidade de convidados (4).

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Aproveite as sobras

Sopa cremosa de abóbora e grão

Embora muita gente guarde as sobras das refeições para consumir posteriormente, a verdade é que muitas vezes ficam esquecidas no frigorifico, acabando mais tarde por ir parar ao lixo. Armazenar os restos em recipientes translúcidos, em vez de opacos, pode ser uma forma de não se esquecer que eles ainda existem.

Com estes restos pode elaborar outros pratos que lhe vão permitir poupar não só dinheiro como tempo. O farrapo velho é um exemplo clássico da reutilização das sobras de bacalhau mas existem outras opções (6):

  1. Carnes e pescado podem servir de base para timbal, saladas, sandes, massadas, hambúrgueres e almôndegas;
  2. Hortícolas podem ser utilizados para sopas, esparregado, arroz de legumes e purés;
  3. Frutas podem ser convertidas em purés, batidos e compotas.

Outra estratégia para reduzir o desperdício alimentar no Natal é ter recipientes – ou pedir aos convidados para trazer os seus próprios – na noite de Natal para fornecer aos convidados com as sobras do jantar ou sobremesas.

Por fim, mas não menos importante, seja ainda mais solidário nesta quadra natalícia. A comida em excesso pode ser doada aos mais necessitados.

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Faça uso de todas as partes dos alimentos

Batatas inteiras e fatiadas

O desperdício alimentar não diz apenas respeito à comida pronta que coloca no lixo. Na verdade, grande parte do desperdício alimentar diz respeito a partes dos alimentos que habitualmente rejeitamos durante a confeção dos pratos.

Este comportamento está obviamente relacionado com a nossa cultura gastronómica, onde habitualmente não consumimos as cascas das batatas ou a pele do frango, mas a verdade é que estas partes que normalmente ignoramos são ricas em vários nutrientes importantes para a saúde humana.

A batata, por exemplo, pode ser consumida inteira em saladas, sopas, cozida ou assada no forno com ervas aromáticas e especiarias, uma vez que manter a casca minimiza as perdas nutricionais, especialmente após cocção (2).

Por outro lado, os caules dos vegetais podem ser usados para criar purés ou incluídos em sopas, contribuindo para reduzir o desperdício alimentar no Natal.

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Aprenda a armazenar os alimentos corretamente

Armazenamento de alimentos no frigorífico: legumes numa gaveta

O armazenamento impróprio é responsável por grande parte do desperdício alimentar, especialmente quando se prepara muita comida de uma única vez. Se tivermos em consideração que a quantidade média de alimentos que entra em nossa casa todos os dias ronda os 2 kg por pessoa e que cerca de 90% de todo o lixo gerado diz respeito a matéria orgânica, podemos concluir que grande parte corresponde a comida estragada (5).

Para armazenar os alimentos corretamente, deve ter em consideração algumas regras (6):

  1. Os alimentos devem ser deixados à temperatura ambiente antes de os colocar no frigorífico ou no congelador, sem que este período ultrapasse as 2 horas.
  2. Os alimentos devem ser colocados na zona mais fria do frigorífico (prateleira superior) para controlar o crescimento bacteriano.
  3. Quando bem confecionados, os alimentos podem ser armazenados até 3 dias no frigorífico. Quando prevê que não vai consumir algum alimento imediatamente (até 3 dias após confeção), pode congelá-lo.
  4. A forma mais adequada de descongelar os alimentos é no frigorífico, mas também poderá fazer este procedimento no micro-ondas.
  5. Ao regenerar os alimentos deve assegurar-se que os molhos e sopas levantam fervura.
  6. Não reaqueça nem congele alimentos mais do que 1 vez.

Conclusão

Lembre-se que todos estes gestos são fundamentais para combater o desperdício alimentar em casa, sobretudo em plena época natalícia que, por norma, é uma época de excessos. O contributo individual, por mais insignificante que lhe possa parecer no panorama geral, pode fazer uma enorme diferença não só na luta contra a fome, mas também em prol da preservação do ambiente. Aliás, esta é uma causa comunitária que nos cabe a todos abraçar.

Ao deitar alimentos ao lixo não está só a desperdiçar o dinheiro que pagou por eles, mas também a desperdiçar todos os recursos naturais, humanos, energéticos, financeiros que esses mesmos alimentos já absorveram até chegar à sua mesa de consoada. Já parou para pensar nisso?

Fontes

  1. FAO. (n.d.). Food loss and food waste. Disponível em: http://www.fao.org/food-loss-and-food-waste/flw-data
  2. APN. (2019). 5 questões sobre a batata portuguesa. Disponível em: https://www.apn.org.pt/documentos/5_Questoes_sobre_a_Batata_Portuguesa_-_Final.pdf
  3. Vanderbuilt University. (2017). Greening the season – Holiday waste reduction tips. Disponível em: https://www.vanderbilt.edu/sustainability/2017/11/greening-the-season-holiday-waste-reduction-tips/
  4. (n.d.).(n.d.). The Guest-imator. Disponível em: https://savethefood.com/guestimator/guests#guest-container
  5. ADENE. (n.d.). O lixo doméstico. Disponível em: https://www.equacaodaenergia.pt/index.php/saber-mais/24-o-lixo-domestico
  6. DGS. (2017). Natal saudável com zero desperdício – receitas chef Fábio Bernardino. Disponível em: https://nutrimento.pt/activeapp/wp-content/uploads/2017/12/Natal-saudavel-com-zero-desperdicio.pdf
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