Psicóloga Ana Graça
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25 Mar, 2020 - 09:59

Corrida ao papel higiénico em tempos de pandemia: qual a explicação?

Psicóloga Ana Graça

O coronavírus espalha-se pelo mundo, a ansiedade aumenta. Neste clima de preocupação, algumas pessoas iniciaram uma corrida ao papel higiénico. Porque será?

Corrida ao papel higiénico: mulher com saco de compras

À medida que esta pandemia foi crescendo à escala global foram surgindo notícias de todo o mundo acerca de uma verdadeira corrida ao papel higiénico. Mas porque é que em tempos de crise o papel higiénico se torna um bem de primeiríssima necessidade? Já há especialistas de diferentes áreas, como economia e psicologia, a tentar encontrar uma explicação!

Corrida ao papel higiénico em tempos de pandemia: qual a explicação?

Corrida ao papel higiénico: mulher a armazenar rolos de papel higiénico em casa

À medida que o novo coronavírus se foi tornando numa pandemia à escala mundial surgiram na comunicação social e nas redes sociais imagens de pessoas que levavam o carrinho de compras repleto de papel higiénico.

Não foi apenas em Portugal que as prateleiras do supermercado destinadas a este bem rapidamente ficaram vazias. Relatos de vários países falam desta autêntica corrida ao papel higiénico.

Mas, qual é afinal a explicação para esta corrida ao papel higiénico? Muitos de nós se questiona acerca desta compra desenfreada e alguns especialistas começaram já a levantar e a estudar algumas hipóteses, nomeadamente:

  1. Influência do que vemos as outras pessoas comprar: somos animais sociais e temos tendência a seguir os outros (2).
  2. Sentimento de que a falta de papel higiénico ameaça o nosso sentido de humanidade: algumas teorias avançam que a eminência da falta de papel higiénico ameaça a fronteira que separa o homem do animal e a cultura da natureza (2).
  3. Forma de planeamento e preparação para uma eventual escassez: preocupadas com o facto de poderem ser apanhadas desprevenidas, as pessoas empenham-se numa autêntica corrida aos supermercados, de forma a comprar a maior quantidade de artigos possível (3).
  4. Forma de expressar a necessidade de segurança e conforto perante uma situação de crise e stress (3).
  5. Desejo de controlar as funções corporais perante o medo da doença (3).
  6. Forma de especulação, tendo em vista a possibilidade de, posteriormente, vender o papel higiénico a um preço muito mais elevado: não faltam exemplos de bolhas especulativas ao longo da história, no entanto, tendem a estar relacionadas com bens mais especiais ou raros. Apesar de ser possível encontrar à venda na internet papel higiénico a preço muito elevado, os especialistas acreditam que apenas uma minoria das pessoas encetou na corrida ao papel higiénico com esta motivação especulativa (3).
  7. Mediatização da corrida ao papel higiénico: ao verem as excessivas compras de papel higiénico nos meios de comunicação, várias pessoas podem ter ficado com receio de que este bem esgotasse, levando-as a correr ao supermercado (4).
saco de compras de supermercado
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O dia-a-dia em tempos de pandemia: o que mudou?

Corrida ao papel higiénico: família em casa durante quarentena

Diariamente somos inundados com informações acerca da melhor forma de enfrentar esta pandemia. Para além das importantes informações difundidas pelas diferentes entidades da área da saúde, há outras informações que importa reter, nomeadamente, como enfrentar as mudanças de rotina que forçosamente fazem hoje parte do nosso dia-a-dia.

Importa aceitar que existe a probabilidade de nós ou alguém próximo de nós ser infetado ou infetar alguém. Esta tomada de consciência motiva-nos a dar o nosso melhor no sentido de minimizar os comportamentos de risco.

Não aceitar as adversidades reais e fingir que a normalidade se mantém apenas nos vai manter a todos afastados daqueles de quem mais gostamos por um período de tempo ainda maior.

A realidade que vivemos exige que nos reinventemos. Que priorizemos o teletrabalho e que as videochamadas com a família sejam constantes. Podemos, e devemos, continuar a cuidar do nosso bem-estar geral, da nossa alimentação e condição física, ao mesmo tempo que podemos continuar a manter o contacto com aqueles que mais amamos, ainda que à distância.

Mais do que a corrida ao papel higiénico, à água ou aos bens alimentares, importa continuar a despertar e alimentar a entreajuda e o carinho entre os nossos entes queridos e entre toda a comunidade a que pertencemos (1).

Ementa semanal: mulher a preparar refeição em casa
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Em suma

A maioria de nós é propensa à procrastinação e à gestão dos problemas a curto prazo, pelo que parece difícil de acreditar que se planeie com antecedência a compra dos bens mais comuns, de como é exemplo o papel higiénico.

Mas a realidade que estamos a viver é de tal forma adversa e incerta que leva a que muitos de nós, temendo o colapso da ordem cívica em que habitualmente vivemos, deixe o medo e a preocupação assumir o controlo e se envolva em comportamentos menos respeitosos como a corrida ao papel higiénico.

Nestes tempos adversos importa, acima de tudo, respeitar os nossos semelhantes e evitar alarmismos, até porque, para que serve afinal ter tanto papel higiénico acumulado?

Fontes

  1. Serdarevic, M. (2020). Accepting Our Way Through the Crisis. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/intl/blog/sound-bell/202003/accepting-our-way-through-the-crisis
  2. Otis, L. (2020). What Toilet Paper Means. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/intl/blog/rethinking-thought/202003/what-toilet-paper-means
  3. Baddeley, M. (2020). Toilet Paper Mania. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/copycats-and-contrarians/202003/toilet-paper-mania
  4. Veit, W. (2020). Why Toilet Paper? Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/za/blog/science-and-philosophy/202003/why-toilet-paper
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