Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
10 Mar, 2020 - 10:00

Óleo de Palma: uma boa opção?

Nutricionista Hugo Canelas

O óleo de palma é um alimento controverso e as opiniões dividem-se. Mas serão as vantagens mais pesadas que as desvantagens?

Frutas das quais se faz o óleo de palma

Independentemente das controvérsias, o consumo global de óleo de palma continua a aumentar.

Se por um lado os estudos lhe atribuem vários benefícios, a produção de óleo de palma pode ter um impacto ambiental e económico muito marcado.

Neste artigo exploramos em detalhe o óleo de palma e os seus efeitos na saúde e no ambiente.

O QUE É O ÓLEO DE PALMA

Taça com óleo de palma

O óleo de palma é a gordura obtida do fruto de uma palmeira. Na sua versão não refinada, é muitas vezes designado como óleo de palma vermelho devido à sua cor avermelhada.

A principal fonte deste óleo é a árvore Elaeis guineensis, nativa dos países do este e sudeste africano. Um óleo similar pode ser obtido da Elaeis oleífera, de origem sul-americana.

Atualmente, o cultivo das espécies expandiu para o sudeste asíatico e países como a Malásia e a Indonésia contabilizam cerca de 80% da produção mundial de óleo de palma (1).

O óleo de palma é um dos mais baratos e mais utilizados em todo o mundo, correspondendo a 1/3 da produção global de óleos vegetais (1).

USOS DO ÓLEO DE PALMA

Este óleo pode ser usado para confecionar ou adicionado a alimentos processados. É frequentemente utilizado para saltear ou fritar, uma vez que apresenta um “ponto de fumo” (temperatura à qual se começam a formar alguns compostos tóxicos e cancerígenos) relativamente elevado (232°C) e se mantém estável a elevadas temperaturas (2).

É ainda adicionado à manteiga de amendoim (e outras manteigas de frutos gordos) com estabilizador de forma a prevenir a separação de fases. Para além das manteigas, o óleo de palma pode ser ainda encontrado em cereais, chocolates, biscoitos e doces de pastelaria, barras (de proteína e de dieta) e margarinas.

O óleo de palma também é utilizado em produtos não alimentares como cosméticos, champô, detergentes, sabões, pasta dos dentes e biodiesel (em Portugal a GALP é a maior consumidora de óleo de palma).

COMPOSIÇÃO NUTRICIONAL DO ÓLEO DE PALMA

Por cada colher de sopa (14 g) o óleo de palma apresenta (3):

  • Calorias: 114
  • Gorduras: 14 g
    • Gorduras saturadas: 7 g (50%)
    • Gorduras monoinsaturadas: 5 g (40%)
    • Gorduras polinsaturadas: 1.5 g (10%)
  • Vitamina E: 11% das RDI

O principal tipo de gordura saturada é o ácido palmítico, que contribui com 44% das calorias. Apresenta ainda quantidades elevadas de ácido oleico e, em menores quantidades, os ácidos linoleico e esteárico.

A cor avermelhada das versões não processadas deve-se à presença de antioxidantes como o beta-caroteno, que é convertido pelo nosso organismo em vitamina A.

POSSÍVEIS BENEFÍCIOS DO ÓLEO DE PALMA

Garrafas de óleo de palma

O óleo de palma tem vindo a ser associado a alguns benefícios para a saúde, nomeadamente:

Saúde cognitiva

O óleo de palma é uma importante fonte de tocotrienois, uma forma de vitamina E com função antioxidante e que podem ser importantes para a saúde do cérebro.

Estudos em animais e humanos sugerem que estes compostos podem proteger a estrutura do cérebro, atrasando a progressão da demência, reduzindo o risco de AVC e prevenindo o desenvolvimento de lesões cerebrais (4567).

Um estudo em pessoas com lesão cerebral revelou que o grupo suplementado com tocotrienois derivados do óleo de palma permaneceu estabilizado enquanto que no grupo placebo se verificou desenvolvimento de lesões cerebrais (7).

Saúde cardiovascular

Embora alguns dos estudos apresentem resultados mistos, o óleo de palma aparenta ter um efeito benéfico na saúde do coração, ajudando a diminuir o colesterol LDL (mau) e a aumentar o HDL (bom) (89101112).

Um estudo recente mostrou que as pessoas que consumiam cerca de 2 colheres de sopa de um hibrido de óleos de palma (Elaeis guineensis e Elaeis oleífera) apresentaram uma descida em 15% no colesterol LDL, semelhante aos que consumiam a mesma quantidade de azeite por dia (9).

No entanto, é importante reforçar que uma descida ou subida nos níveis de colesterol LDL é insuficiente para prever o risco cardiovascular.

Concentração de vitamina A

Os estudos mostram que o consumo de óleo de palma aumenta as concentrações plasmáticas de vitamina A de mulheres grávidas e das crianças alimentadas com leite materno (131415).

Um estudo mostrou que, em doentes com fibrose quística (que apresentam maior dificuldade em absorver vitaminas lipossolúveis como a vitamina A), a suplementação com 3 colheres de sopa/dia de óleo de palma vermelho durante 8 semanas resultou no aumento das concentrações plasmáticas desta vitamina (16).

POSSÍVEIS RISCOS DO ÓLEO DE PALMA

Embora muitos estudos refiram que o óleo de palma têm um efeito cardioprotetor, outros reportam resultados distintos (1718192021).

Num estudo realizado em mulheres com colesterol elevado, verificou-se que a quantidade de moléculas de colesterol pequenas e densas (sdLDL) — o tipo de colesterol ligado às doenças cardíacas — aumentava com o óleo de palma mas não com outros óleos (17).

Outros estudos reportaram elevação dos níveis de colesterol LDL em resposta ao consumo de óleo de palma (192021). É importante salientar que estes são potenciais riscos e não evidência de que o óleo de palma aumente o risco de doença cardiovascular.

Óleo de palma e cancro

A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar determinou que alguns contaminantes encontrados nos óleos de palma podem aumentar o risco de determinados tipos de cancro.

A incorporação e processamento térmico do óleo de palma leva à formação de ésteres de glicidil que, após digestão, originam glicidol, uma substância cancerígena com possível impacto na saúde humana.  

Embora não existam estudos em humanos, os testes realizados em modelos animais indicam que a administração de glicidol diretamente no estômago de ratos causou um aumento dos tumores, tanto malignos como benignos (22).

CONTROVÉRSIAS QUE ENVOLVEM O ÓLEO DE PALMA

Com o aumento da demanda, a produção de óleo de palma em países como a Malásia, a Indonésia e a Tailândia aumentou consideravelmente. No entanto, de forma a acomodar as plantações, vários hectares de florestas tropicais foram perdidos.

De acordo com os relatórios recentes, estima-se que 45% da terra que agora é utilizada na produção de óleo de palma tenha sido floresta nos anos 90. Neste sentido, uma das maiores controvérsias que envolve o óleo de palma é a desflorestação massiva, com impacto não só no aquecimento global mas também nos ecossistemas locais (1).

Para além disso, há relatos de violação de direitos humanos por parte das industrias produtoras de óleo de palma, como limpeza de campos e florestas sem permissão, salários pouco justos e condições de trabalho precárias (23).

Felizmente, foi criada uma organização cujo objetivo é tornar a produção de óleo de palma o mais sustentável possível. A RSPO (Roundtable on Sustainable Palm Oil) atribui a sua certificação aos produtores que adiram aos padrões de produção sustentável que envolvem, entre outros (24):

  • O não desflorestamento de áreas com espécies em perigo, ecossistemas mais frágeis ou que apresentem importância tradicional para as comunidades
  • A redução significativa do uso de pesticidas e recurso a fogos
  • O tratamento justo de trabalhadores, de acordo com os direitos laborais locais e internacionais
  • A consulta com as comunidades locais antes de estabelecer novas plantações de óleo de palma

CONCLUSÃO

O óleo de palma é um dos óleos vegetais mais utilizados a nível mundial, e a sua importância para a economia mundial é muito grande. No entanto, os efeitos da sua produção no ambiente, na biodiversidade e nas vidas dos povos indígenas são bastante preocupantes.

Embora os benefícios para a saúde estejam ainda por determinar, a verdade é que podem ser obtidos utilizando outras gorduras vegetais – como o azeite – cujos efeitos na saúde estão já bem estabelecidos.

Caso contrário, se pretende incluir esta gordura na sua dieta, opte pelas versões não refinadas e certificadas pela RSPO.

Fontes

  1. Vijay, V., et.al. (2016). The Impacts of Oil Palm on Recent Deforestation and Biodiversity Loss. Disponível em:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27462984
  2. Tarmizi, A. H. A., & Lin, S. W. (2008). Quality Assessment of Palm Products upon Prolonged Heat Treatment. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19001776
  3. Nutrition Data. (n.d.). Oil, vegetable, palm. Disponível em: https://nutritiondata.self.com/facts/fats-and-oils/510/2
  4. Khanna, S., et.al. (2005). Neuroprotective Properties of the Natural Vitamin E  -Tocotrienol. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1829173/
  5. Ibrahim, N. F., et.al. (2016). Tocotrienol-Rich Fraction Modulates Amyloid Pathology and Improves Cognitive Function in AβPP/PS1 Mice. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27716672
  6. Rink, C., et.al. (2011). Tocotrienol Vitamin E Protects against Preclinical Canine Ischemic Stroke by Inducing Arteriogenesis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21673716
  7. Gopalan, Y., et.al. (2014). Clinical Investigation of the Protective Effects of Palm Vitamin E Tocotrienols on Brain White Matter. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24699052
  8. Fattore, E., et.al. (2014). Palm oil and blood lipid–related markers of cardiovascular disease: a systematic review and meta-analysis of dietary intervention trials. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24717342
  9. Lucci, P., et.al. (2016). Palm oil and cardiovascular disease: a randomized trial of the effects of hybrid palm oil supplementation on human plasma lipid patterns. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26488229
  10. Qureshi, A. A., et.al. (1991). Lowering of serum cholesterol in hypercholesterolemic humans by tocotrienols (palmvitee). Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2012010
  11. Zhang, J., et.al. (1997). Nonhypercholesterolemic Effects of a Palm Oil Diet in Chinese Adults. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9082037
  12. Tomeo, A. C., et.al. (1995). Antioxidant effects of tocotrienols in patients with hyperlipidemia and carotid stenosis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/8614310
  13. Radhika, M. S., et.al. (2003). Red Palm Oil Supplementation: A Feasible Diet-Based Approach to Improve the Vitamin A Status of Pregnant Women and Their Infants. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12891825
  14. Lietz, G., et.al. (2001). Comparison of the effects of supplemental red palm oil and sunflower oil on maternal vitamin A status. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11566649
  15. Canfield, L. M., et.al. (2001). Red palm oil in the maternal diet increases provitamin A carotenoids in breastmilk and serum of the mother-infant dyad. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11315503
  16. Sommerburg, O., et.al. (2015). Supplementation with Red Palm Oil Increasesβ-Carotene and Vitamin A Blood Levels in Patients with Cystic Fibrosis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25688177
  17. Utarwuthipong, T., et.al. (2009). Small Dense Low-Density Lipoprotein Concentration and Oxidative Susceptibility Changes after Consumption of Soybean Oil, Rice Bran Oil, Palm Oil and Mixed Rice Bran/Palm Oil in Hypercholesterolaemic Women. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19215678
  18. Karupaiah, T., et.al. (2016). Comparing effects of soybean oil- and palm olein-based mayonnaise consumption on the plasma lipid and lipoprotein profiles in human subjects: a double-blind randomized controlled trial with cross-over design. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27535127
  19. Bautista, L., et.al. (2001). Effects of palm oil and dietary cholesterol on plasma lipoproteins: results from a dietary crossover trial in free-living subjects. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11528488
  20. Vega-López, S., et.al. (2006). Palm and partially hydrogenated soybean oils adversely alter lipoprotein profiles compared with soybean and canola oils in moderately hyperlipidemic subjects. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16825681
  21. Tholstrup, T., et.al. (2011). Palm olein increases plasma cholesterol moderately compared with olive oil in healthy individuals. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22071711
  22. (n.d.). (2016). 14th report on carcinogens – glycidol. Disponível em: https://ntp.niehs.nih.gov/ntp/roc/content/profiles/glycidol.pdf
  23. (n.d.). (2015). Palm Oil Industry and Human Rights: A Case Study on Oil Palm Corporations in Central Kalimantan. Disponível em: https://www.jus.uio.no/smr/english/about/programmes/indonesia/docs/report-english-version-jan-2015.pdf
  24. RSPO. Roundtable on Sustainable Palm Oil – About. Disponível em: https://www.rspo.org/about
Veja também