Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
13 Dez, 2019 - 15:57

Fact-check: o óleo de coco é saudável?

Nutricionista Hugo Canelas

O óleo de coco é a gordura do momento, estando supostamente associado a vários benefícios para a saúde.

Fact-check: o óleo de coco é saudável?
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óleo de coco tem sido apontado como um superalimento um pouco por todo o mundo, estando associado a vários benefícios que incluem a promoção da perda de peso, da saúde cardiovascular, aumento da imunidade, cicatrização e higiene oral entre outros (1).

De utilização centenária em várias regiões tropicais e subtropicais, a histeria associada ao óleo de coco pode ser rastreada até um único estudo de 2003 (2). Nele, os investigadores sugerem que a suplementação da alimentação diária com este óleo ajudava na perda de peso. Não é de estranhar que a população geral tenha parado de ler logo ali.

No entanto, a ideia não é assim tão linear, como explicado por uma das autoras, visto que o papel no peso se devia não ao óleo de coco, mas ao seu conteúdo em ácidos gordos de cadeia média (MCT). O que faltou reiterar foi que o estudo foi realizado com um óleo de coco “design”, no qual o conteúdo em MCT era de 100%, em contraste com os 13 – 15% presentes nas formulações comerciais. Embora a autora tenha referido que os resultados nunca poderiam ser transponíveis para os produtos do mercado, o mal já estava feito e a febre do óleo de coco já estava disseminada.

Óleo de coco: propriedades

Fact-check: o óleo de coco é saudável?

Na verdade, cada 100 g de óleo de coco contem 82.4 g de ácidos gordos saturados, ou seja, mais de 80% de gordura saturada, mais do que a manteiga e a banha (3). Uma vez que os MCT apresentam vários benefícios para a saúde, maioritariamente devido ao facto de não necessitarem da ação da lípase pancreática para ser digeridos, os investigadores descrevem frequentemente o óleo de coco como uma excelente fonte deste tipo de gorduras. Na verdade, este óleo é composto pelos MCT ácido láurico (≈ 51%), ácido caprílico (≈ 8%) e ácido cáprico (≈ 6%) (4).

No entanto, o ácido láurico comporta-se mais como um triglicerídeo de cadeia longa em termos de solubilidade e baixa absorção intestinal. Ou seja, o óleo de coco não pode ser considerado um composto rico em MCT como é globalmente referido. Para além disso, e sendo extremamente rico em gordura saturada com referido acima, várias entidades de saúde têm uma posição cética relativamente à sua utilização e benefícios para a saúde (5).

Uma vez que está descrito que o consumo de gordura saturada pode ter impacto nos fatores de risco cardiovascular, nomeadamente na subida dos valores séricos de colesterol LDL, a American Heart Association (AHA) desencoraja a utilização de óleo de coco para além das recomendações diárias de consumo de gorduras saturadas, ou seja, menos de 10% do total calórico diário (6).

O corpo de estudos utilizados para estabelecer os benefícios do óleo de coco é maioritariamente baseado em estudos observacionais com metodologia duvidosa e, embora o seu papel na saúde cardiovascular seja intrigante, tem ainda que ser bem definido.

Óleo de coco: efeito no metabolismo do colesterol e doença cardiovascular

O efeito dos macronutrientes nos níveis sanguíneos de mau colesterol é já reconhecido, sendo uma componente importante da patogénese da doença cardiovascular e da aterosclerose. No entanto, diferentes ácidos gordos têm diferentes efeitos nos níveis de colesterol.

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Quando comparado com misturas de hidratos de carbono, os ácidos láurico, mirístico e palmítico aumentam os níveis de colesterol total, bom (HDL) e mau (LDL) colesterol e reduzem os níveis de triglicerídeos (7). Uma vez que as gorduras alimentares consistem numa mistura de vários ácidos gordos, o efeito nas gorduras do sangue não é assim tão linear.

A verdade é que, embora frequentemente apontado como forma de melhorar os níveis de colesterol HDL devido á suposta riqueza em MCT, os resultados dos estudos não são suficientes para apontar recomendações específicas de ingestão de óleo de coco quando comparado com outras gorduras vegetais como o azeite.

Para além disso, o consumo indiscriminado de óleo de coco pode elevar os níveis de colesterol LDL e triglicerídeos de forma semelhante a alimentos ricos em ácidos gordos de cadeia curta (8).

Óleo de coco: efeito na perda de peso

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Os MCT comerciais têm sido apontados como potenciadores da perda de peso uma vez que, diferentemente dos ácidos gordos de cadeia longa, a sua absorção hepática é direta, contribuindo numa lipemia pós-prandial muito menos marcada, o que resulta numa menor deposição de gordura nas reservas (9). Para além disso, o rápido metabolismo e cetose consequente pode resultar em saciedade precoce (10).

Independentemente das teorias propostas, o mecanismo exato está ainda por definir, havendo estudos que associam o óleo de peso à perda de peso e outros que não, sendo necessárias intervenções a curto e a longo prazo para definir o impacto deste produto na composição corporal.

Efeito na saúde oral

oil pulling é uma técnica de desintoxicação oral que consiste na utilização de 10 a 15 mL de óleo vegetal durante 10 minutos, uma prática que parece ter efeito na prevenção de caries, gengivite e formação de placa.

Embora a eficácia desta prática esteja ainda por definir, acredita-se que o bicarbonato da saliva reage com os ácidos gordos do óleo de coco, potenciando o seu efeito antibacteriano, para além de a viscosidade impedir a adesão de bactérias e os antioxidantes aumentarem os processos de desintoxicação (11). Com efeito, estudos mostram que a eficácia do oil pulling é semelhante à utilização de clorexidina (12).

No entanto, devido ao risco de aspiração de óleo para a árvore respiratória superior, a prática é desaconselhada pela American Dental Association.

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Efeitos nas doenças de pele

Fact-check: o óleo de coco é saudável?

A aplicação tópica de óleo de coco virgem pode ter vários benefícios com reparação da barreira cutânea, ação antibacteriana, efeito anti-inflamatório, antioxidante e cicatrizante (1). Na dermatite atópica, a aplicação deste produto resultou na diminuição da severidade da doença e na colonização por Staphylococcus aureus (1314).

O óleo de coco é mais saudável? Não

Ver o óleo de coco como um alimento funcional é extremamente exagerando e está associado a técnicas de marketing. Os benefícios das formulações comerciais são extrapolados a partir dos estudos com MCT, num clássico processo de generalização precipitada.

Com efeito, e de acordo com os estudos, o impacto do consumo de óleo de coco no aumento dos níveis de colesterol LDL é semelhante ao de outras gorduras saturadas, caindo por terra o seu efeito na saúde cardiovascular.

Quanto ao efeito no peso, e independentemente do burburinho na comunicação social, o consumo de óleo de coco não é considerado uma estratégia viável para o aumento da saciedade ou para aumentar o gasto energético em repouso.

Veja também

Fontes

1. Sankararaman, S., & Sferra, T. J. (2018). Are We Going Nuts on Coconut Oil? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29974400
2. St-Onge, M-P, et.al. (2003). Medium-chain triglycerides increase energy expenditure and decrease adiposity in overweight men. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1038/oby.2003.53
3. United States Department of Agriculture. Disponível em: https://ndb.nal.usda.gov/ndb/search/list.
4. Lockyer S, Stanner S. (2016). Coconut oil – a nutty idea? Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/nbu.12188
5. Sacks FM, et al. (2017). Dietary fats and cardiovascular disease: a presidential advisory from the American Heart Association. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28620111
6. United States Department of Agriculture. (2015). DIETARY GUIDELINES FOR AMERICANS 2015-2020 EIGHTH EDITION. Disponível em: https://health.gov/dietaryguidelines/2015/resources/2015-2020_dietary_guidelines.pdf
7. Mensink RP. (2016). Effects of saturated fatty acids on serum lipids and lipoproteins: a systematic review and regression analysis. Disponível em: https://www.who.int/nutrition/publications/nutrientrequirements/sfa_systematic_review/en/
8. Santos, H. O., Howell, S., Earnest, C. P., & Teixeira, F. J. (2019). Coconut oil intake and its effects on the cardiometabolic profile – A structured literature review. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31707063
9. Poppitt SD, et.al. (2010). Fatty acid chain length, postprandial satiety and food intake in lean men. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20451538
10. Kinsella R, et.al. (2017). Coconut oil has less satiating properties than medium chain triglyceride oil. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.physbeh.2017.07.007.
11. Naseem M, et.al. (2017). Oil pulling and importance of traditional medicine in oral health maintenance. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5654187/
12. Kaushik M, et.al. (2016). The effect of coconut oil pulling on Streptococcus mutans count in saliva in comparison with chlorhexidine mouthwash. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27084861
13. Evangelista M, et.al. (2014). The effect of topical virgin coconut oil on SCORAD, transepidermal water loss and skin capacitance in mild to moderate pediatric atopic dermatitis: a randomized, double-blind clinical trial. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24320105
14. Verallo-Rowell VM, et.al. (2008). Novel antibacterial and emollient effects of coconut and virgin olive oils in adult atopic dermatitis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19134433