Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
18 Out, 2022 - 11:48

Proteína em excesso faz mal aos rins?

Nutricionista Hugo Canelas

Um tema muito debatido é o consumo de proteína em excesso, pelo possível impacto na saúde renal. Qual será a quantidade diária ideal?

suplementos para recuperação muscular a conhecer

Proteína em excesso faz mal aos rins? Depende. Embora esteja já estabelecido que a ingestão de proteína em excesso (controlado) não tem efeitos negativos, alguns profissionais de saúde continuam a reiterar que a alimentação é um dos principais preditores do dano renal.

Efetivamente é, se tivermos em consideração que a hipertensão e a diabetes são os principais fatores de risco da falência renal e, estas sim podem ter o seu curso ditado pelo desequilíbrio alimentar.

Com efeito, esquecem-se de referir a importância da ingestão proteica no controlo da pressão arterial e na redução da glicemia. No entanto, há ingestão elevada e ingestão exagerada e, neste caso, não é seguro estabelecer limites máximos para o consumo de proteínas, uma vez que está muito dependente do tipo de atleta e do contexto da restante dieta. No fim de contas, proteína em excesso não faz mal, mas apenas se o rim for saudável.

Proteína em excesso faz mal aos rins?

A principal função dos rins é manter o equilíbrio hídrico, mineral e de solutos orgânicos. O rim normal realiza essa função numa ampla variedade de flutuações de sódio, água e solutos. Essa tarefa é realizada pela filtração contínua de sangue com alterações na secreção e reabsorção do líquido filtrado.

O rim recebe 20% do débito cardíaco, filtrando aproximadamente 1.600 L/dia de sangue e produzindo 180 litros de fluido chamado ultrafiltrado. Por meio de processos ativos de reabsorção de certos componentes e secreção de outros, a composição desse ultrafiltrado é alterada em 1,5 L de urina excretada em 1 dia em média.

Importância das proteínas

reduzir o apetite os melhores alimentos

As proteínas são os blocos de construção fundamentais para todos os processos celulares, sejam eles estruturais ou funcionais.

Os papéis primários das proteínas no organismo incluem proteínas estruturais, enzimas, hormonas, transporte e imunoproteínas, sugerindo a ampla importância destes nutrientes, que vai desde a digestão até ao sistema imune.

Existem 9 aminoácidos essenciais, os quais devem ser obtidos através da alimentação, e 12 aminoácidos não essenciais, que podem ser produzidos internamente a partir de outras moléculas orgânicas.

A qualidade da fonte de proteína garante o perfil de aminoácidos existentes no alimento, e as proteínas de alto valor biológico, tipicamente aquelas encontradas em produtos de origem animal, não aquelas que contêm todos os aminoácidos essenciais.

Proteína em excesso e dano renal

Os rins são órgãos excecionais, capazes de filtrar os compostos resultantes do metabolismo de alimentos e medicamentos, retirando-os da corrente sanguínea e produzindo urina no decurso do processo. No entanto, alguns investigadores afirmam que os rins têm que trabalhar um pouco mais para retirar os produtos do metabolismo das proteínas do corpo, sobrecarregando estes órgãos.

A verdade é que, mesmo que proteína em excesso aumente o stress renal, esse aumento é nada comparativamente à carga total a que os rins são submetidos diariamente. O nível recomendado de proteína na dieta para doentes renais crónicos mudou com o decorrer do tempo.

Efetivamente, a ingestão de proteína em excesso pode danificar o rim e comprometer a sua função mas só e apenas em doentes com diagnóstico de patologia renal, não se aplicando a pessoas saudáveis. Este facto está bem documentado e acontece devido ao excesso de nitrogénio (ou azoto) presente nos aminoácidos, cuja eliminação é mais difícil para um rim danificado.

Na verdade, os dois principais fatores de risco para a doença renal são a hipertensão e a diabetes que, no caso, podem ser beneficiados por um incremento de proteína na dieta, como sugerem muitos estudos.

Em conclusão, não existe evidência científica que a ingestão elevada de proteína danifique a função renal em pessoas saudáveis.

No entanto, quanto é “proteína em excesso”?

Qual a quantidade de proteína diária que devo ingerir?

O organismo está num constante processo de destruição e construção de tecidos. Sob determinadas circunstâncias, como em casos de doença ou na prática de atividade física, as nossas necessidades de proteína podem aumentar. Neste sentido, é necessário consumir quantidades apropriadas de proteína para promover este processo.

Como referido anteriormente, as recomendações básicas de ingestão para adultos rondam os 0,8 gramas por kg de peso corporal, por dia o que, traduzindo, corresponde a cerca de 56 gramas de proteína por dia para um adulto de 70 kg.

No entanto, e embora esta quantidade pode ser suficiente para prevenir a carência proteica, parece ser insuficiente para otimizar a saúde e a composição corporal.

As proteínas são importantes para a manipulação da composição corporal, não só porque são essenciais ao aumento de massa muscular mas também porque têm um papel preponderante na perda de gordura corporal.

Esta importância prende-se, em parte, com o seu efeito saciante – superior ao das gorduras e dos hidratos de carbono – mas também ao facto de estimularem a termogénese (aumento do metabolismo) de forma mais eficaz que qualquer outro macronutriente.

De forma geral está definido que para aumentar volume muscular são necessários entre 1,4 e 2 g/dia ou 1,7 a 2,2 g/dia de proteína, dependendo do peso do atleta em questão. No caso de se tratar de um período de restrição energética podem ser necessárias quantidades superiores (2,3 a 3,1 g/kg de massa magra/dia) de forma a manter a massa muscular.

Mesmo que a proteína em excesso na dieta seja considerada relativamente segura, quando o excesso é exagerado, pode trazer efeitos negativos para a saúde. Convém relembrar que as proteínas são nutrientes energéticos e, quando em excesso, fornecem calorias desnecessárias que podem traduzir-se em aumento de peso e acumulação de gordura.

Não obstante, a quantidade de proteína que pode trazer efeitos deletérios para a saúde não está definida, variando de pessoa para pessoa e de caso clínico para caso clínico. Um estudo realizado em indivíduos treinados cuja ingestão proteica rondava os 3 gramas por kg de peso, não mostrou efeitos negativos para a saúde.

Da mesma forma, não foram detetadas quaisquer alterações negativas em atletas com consumos de 4 gramas por kg de peso. No entanto, convém lembrar que os estudos foram realizados em atletas de força e bodybuilders, cujas necessidades proteicas são bem acima da média devido ao extenso grau de destruição muscular e que as intervenções foram limitadas no tempo (1 ano e 2 meses respetivamente), não se conseguindo prever qual é o efeito da ingestão de proteína em excesso em indivíduos com menores graus de atividade física.

Ingestão proteica na doença renal

Com referido anteriormente, o impacto negativo da ingestão proteica é apenas visível em rins com um certo grau de dano. Neste sentido, foram desenvolvidas recomendações, de acordo com o grau de destruição renal, para o tratamento da doença renal progressiva ou em estádio pré-terminal. O grau de destruição renal é obtida através do cálculo da taxa de filtração glomerular (TFG), ou seja, a soma da filtração dos glomérulos de ambos os rins.

Historicamente, os doente renais recebiam dietas com alto teor de proteína (até 1,5 g/kg/dia) na tentativa de prevenir a desnutrição proteica. No entanto, e uma vez que foi comprovado que redução na ingestão de proteína diminui a carga no rim doente sem acentuar a desnutrição, foram desenvolvidas recomendações específicas para o seu consumo.

De acordo com o National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDKD), em caso de insuficiência renal progressiva, a ingestão proteica deve rondas os 0,8 g/kg/dia, sendo 60% desse total proteico de alto valor biológico (AVB), para doentes cuja TFG é maior do que 55 mL/min; naqueles com menor TFG – entre 25 e 55 mL/min -, a ingestão proteica deve ser menor, rondando os 0,55 a 0,6 g/kg/dia com 60% de AVB.

EstadioTFG (mL/min/1,73 m2)Descrição
I90-130 mL/minDano renal, mas normal à função renal aumentada
II60-89 mL/minRedução leve da função renal
III30-59 mL/minRedução moderada da função renal
IV15-29 mL/minRedução grave da função renal
V>15 mL/minInsuficiência renal com tratamento necessário, definida como doença renal em estadio

terminal

A comissão do Kidney Dialysis Outcome Quality Initiative — KDOQI (Programa de Qualidade de Resultados de Diálise Renal) sugere que os doentes cuja TFG seja menor que 25 mL/min e que ainda não tenham iniciado a diálise devem manter o consumo de proteína em 0,6 g/kg/dia. Caso não seja possível manter a ingestão calórica adequada com esse índice de proteína, deve-se aumentar a ingestão proteica para 0,75g/kg/dia. Em ambos os casos, aproximadamente 50% da proteína deve ser de AVB.

Artigo originalmente publicado em Fevereiro de 2020. Atualizado em Outubro de 2022.

Veja também