Psicóloga Ana Graça
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15 Jul, 2020 - 09:45

Instinto maternal: mito ou realidade?

Psicóloga Ana Graça

Será que todas as mulheres possuem o desejo da maternidade? Será que todas possuem o tão falado instinto maternal?

Instinto maternal: mulher grávida a segurar nas mãos sapatinhos de bebé

Entre as diversas experiências humanas, poucas são alvo de tanta atenção e discussão como a maternidade. Não faltam modelos, regras e padrões a serem aconselhados às futuras e recéns mães, sendo que alguns defendem o instinto maternal como algo inato a todas as mulheres e outros nem tanto. Vamos então tentar apurar se o instinto maternal não passa de mito ou se existe realmente.

Ser mãe ou não ser mãe: eis a questão!

Mulher a pensar

O instinto maternal tem vindo a ser definido como uma tendência primordial que cria em todas as mulheres um desejo de maternidade e que, uma vez satisfeito este desejo, incita as mulheres a zelarem pela proteção física e moral dos filhos (1). Mas será que é mesmo assim ou será que a realidade nos mostra algo diferente? Como em quase tudo na vida, as opiniões dividem-se.

Para muitas mulheres, a gravidez e o nascimento de um filho talvez sejam dos momentos mais importantes, esperados e desejados da sua vida. Mas, e quanto às mulheres que não o desejam nem nunca o desejaram? Ou aquelas que esperaram ansiosamente por esse momento, mas ele nunca chegou?

As mulheres enfrentam a difícil tarefa de lidar com enormes expectativas acerca da maternidade, já definidas por muitas gerações anteriores. Apesar de muito ter mudado nos últimos anos, ainda se espera que uma mulher deseje ser mãe e desempenhe bem esse papel, de forma natural, ou seja, que possua o chamado instinto maternal (2).

Instinto maternal: mito ou realidade?

Mãe com bebé ao colo

Apesar da existência de opiniões divergentes, o instinto maternal, tal como o conhecemos, ou seja, como apelo feminino para a maternidade, parece tratar-se mais de uma construção sociocultural, que tem vindo a ser reforçado ao longo dos anos, ao invés de uma característica inata presente em todas as mulheres.

A maternidade parece ser uma entidade social, construída ao longo da história, que varia de acordo com a cultura em que está inserida. Com frequência, o cuidado dos filhos ainda é encarado como um papel exclusivamente feminino, sendo que são esperadas da mulher características de total sublimação e altruísmo perante a maternidade – e qualidades únicas como a capacidade de acalmar o bebé e a capacidade de amor materno imediato após o nascimento (2).

No entanto, a aclamação de uma vocação natural e instintiva para o amor e cuidado maternos causa em muitas mulheres grandes sentimentos de culpa e fracasso. Ora porque não sentem o tão famoso instinto maternal, ora porque não se sentem capazes de desempenhar as competências maternas que supostamente seriam inatas, de como é exemplo a amamentação.

Assim, de acordo com alguns autores, o apelo feminino para a maternidade e o amor espontâneo de uma mãe pelo filho parece tratar-se de um hábito historicamente construído, não devendo ser reduzido a uma questão biológica, inata e igual para todas as mulheres (3).

Assim sendo, em último recurso, o instinto maternal parece tratar-se apenas das respostas reflexas e de fundo biológico que uma mulher manifesta diante dum bebé, na forma como protege, cuida e interpreta, sendo que estas podem variar de mulher para mulher (4).

Instinto maternal e o mito da mãe perfeita

Mãe a brincar com a filha no jardim

O mito do instinto maternal tem o potencial de perpetuar o mito da mãe perfeita, com propensão natural ao sacrifício e sofrimento, amor incondicional e instinto protetivo, além da crença na completa realização da mulher no desempenho das tarefas maternas.

No entanto, o amor materno não deve ser reduzido a um simples instinto. Pelo contrário, como qualquer outro sentimento está sujeito a imperfeições e modificações. Em suma, não é de instinto maternal que se constrói o amor materno (3, 4).

Importa, então, clarificar que não há maternidades perfeitas e que muito possivelmente nenhuma mulher está realmente preparada para ser mãe, por mais sobrinhos e afilhados que tenha. Um bebé traz desafios, exigências e um cansaço enorme, que vão além daquilo que se podia imaginar.

Importa proteger as mães, sossegá-las e mostrar-lhe que nem tudo na maternidade é um exercício instintivo, que por vezes vai ser muito difícil e que esses momentos difíceis não precisam ser vividos em silêncio e solidão (5).

Fontes

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