Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
24 Jun, 2020 - 09:05

Amamentação saudável: o que comer nesta fase

Nutricionista Hugo Canelas

Quando o assunto é amamentação saudável, descubra o que privilegiar nesta fase tão importante da vida da mulher e do bebé.

Amamentação saudável: mãe a dar de mamar a filho bebé

A amamentação saudável tem um impacto direto na saúde geral da mãe e do bebé. Na verdade, o aleitamento materno é considerado o tipo de alimentação ideal para os recém-nascidos de termo saudáveis e para os recém-nascidos pré-termo ou com patologia.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o leite humano é um alimento vivo, completo e natural e devido ao reconhecimento das suas múltiplas vantagens, defende-se a amamentação exclusiva até aos 6 meses de vida.

Esta deverá ser complementada com outros alimentos até aos dois anos ou mais, precisamente por se acreditar que constitui a melhor forma de alimentar as crianças.

Tanta riqueza nutricional está diretamente ligada ao estado nutricional da mãe e, como tal, saber o que comer durante este processo é extremamente importante para manter a qualidade do leite e garantir o normal crescimento e desenvolvimento do bebé nos primeiros 6 meses de vida.

Neste artigo explicamos o que comer para garantir um processo de amamentação saudável, tanto para o bebé como para a mãe.

Amamentação saudável: Riqueza nutricional do leite

Mãe a amamentar filho bebé

Com a exceção da vitamina D, o leite materno contem todos os nutrientes necessários ao correto desenvolvimento do bebé nos primeiros 6 meses de vida (1).

A composição nutricional do leite materno é altamente regulada pelo que a composição da dieta apenas tem impacto limitado na concentração de alguns nutrientes como minerais e oligoelementos (234).

No entanto, se a dieta maternal não for equilibrada o suficiente, a qualidade do leite pode ser prejudicada (3, 5).

Geralmente, por cada 100 ml de leite materno encontramos 68 a 82 calorias, com 3,6 a 4,8% de proteínas, 28,8 a 32,4% de gorduras e 26,8–31,2% de hidratos de carbono, maioritariamente lactose (3).

Diferente do leite de formula, a composição nutricional do leite materno é dinâmica, mudando durante a mamada e período de lactação como forma de se adequar às necessidades nutricionais do bebé (67).

No início de cada mamada, o leite é essencialmente água, como forma de saciar a sede do bebé e ao longo da mamada torna-se mais concentrado, apresentando duas a três vezes mais gordura (78).

Por esta razão é importante que o bebé esvazie uma mama antes de mudar para a outra.

Amamentação saudável exige aumento das necessidades energéticas da mãe

Estima-se que o processo de amamentação implique um aumento das necessidades energéticas da mãe em cerca de 500 calorias por dia no primeiro semestre (91011).

Como tal, é importante garantir a qualidade da alimentação materna nesta fase. Devido a alterações hormonais, algumas mulheres podem experienciar aumento no apetite nos primeiros 3 meses de amamentação, de forma a garantir as reservas de gordura no corpo (121314).

Amamentação saudável: o que comer nesta fase

Variedade de alimentos ricos em proteína

Visto que a qualidade nutricional da dieta maternal pode ter um impacto significativo na qualidade e quantidade de leite produzido, comer alimentos nutricionalmente densos é extremamente importante nesta fase (5).

Alguns grupos de alimentos importantes nesta fase são o pescado, carnes, frutas e vegetais, frutas oleaginosas e cereais integrais.

Paralelamente, deve evitar o consumo de alimentos processados ao máximo, devido ao elevado teor calórico, mas interesse nutricional duvidoso.

Quais os nutrientes mais importantes para a mãe e para o bebé?

Os nutrientes presentes no leite materno podem ser categorizados em 2 grupos, de acordo com a quantidade na qual aparecem na secreção (5).

Os constituintes do primeiro grupo dependem da ingestão alimentar materna, enquanto que os do segundo grupo são secretados no leite materno, independentemente do estado nutricional ou ingestão alimentar da mãe (1516).

Assim sendo, ingerir alimentos ricos nos constituintes do primeiro grupo é importante para a mãe e para o bebé, enquanto que os do segundo grupo apenas têm impacto na saúde da mãe.

Nutrientes do grupo 1

Alimentos ricos em proteína
  • Vitamina B1 (tiamina): pescado, carne de porco, frutos secos, pão
  • Vitamina B2 (riboflavina): queijo, amêndoas, nozes, carne vermelha, peixe gordo, ovos
  • Vitamina B6: sementes, frutos secos, peixe, carne de aves e porco, bananas, fruta desidratada
  • Vitamina B12: carnes vermelhas, vísceras de animais, peixe gordo
  • Colina: ovos, fígado de vaca e aves, pescado, amendoins
  • Vitamina D: óleo de figado de bacalhau, ovos, peixes gordos, alguns tipos de cogumelos e alimentos fortificados (cereais, sumo de laranja)
  • Selénio: castanha do Brasil, pescado, cereais integrais, sementes
  • Iodo: algas desidratadas, bacalhau, leite, sal iodado

Nutrientes do grupo 2

Leguminosas em frascos
  • Folatos: leguminosas, vegetais folhosos, espargos, abacate
  • Cálcio: leite, iogurtes, queijo, vegetais folhosos, leguminosas
  • Ferro: carnes vermelhas, pescado, carne de aves, leguminosas, vegetais de folha verde escura, fruta desidratada
  • Cobre: cereais integrais, frutos secos, leguminosas, vísceras de animais, batata
  • Zinco: carnes vermelhas, aves, leguminosas, frutos secos, produtos lácteos

Se a ingestão alimentar for insuficiente, o organismo irá mobilizar estes nutrientes dos ossos e outros tecidos de forma a que eles sejam secretados no leite.

Amamentação saudável: Suplementos nutricionais

Mulher a tomar suplementos

Embora deva manter sempre um grau de ceticismo em relação aos suplementos alimentares durante a amamentação, a verdade é que alguns deles podem ser benéficos para as mães.

1.

Multivitamínicos

Devido a sintomas típicos da gravidez como náuseas, vómitos e aversões alimentares, algumas mulheres podem desenvolver algumas carências nutricionais. Se for este o caso, um suplemento vitamínico pode ser benéfico (517).

2.

Ómega-3 (DHA)

O ácido docosahexanóico (DHA) é um ácido gordo essencial, encontrado maioritariamente no pescado. Sendo um componente vital do sistema nervoso central, é importante para o normal desenvolvimento e funcionamento do cérebro (18).

No entanto, se a ingestão de ómega-3 da mãe for precária, também os níveis no leite materno serão baixos (1920).

Assim sendo, recomenda-se que as grávidas e lactantes ingiram, pelo menos, 2,6 g de ómega-3 por dia, o que corresponde sensivelmente a 100 a 300 mg de DHA (18).

3.

Vitamina D

A vitamina D encontra-se fundamentalmente em peixes gordos, óleos de fígado de peixe e alimentos fortificados. Sendo de importância vital para a saúde óssea e sistema imunitário, a ingestão durante a amamentação deve ser privilegiada (2122).

Na verdade, a vitamina D apenas está presente no leite materno em pequenas quantidades e quando a exposição solar controlada é possível (2324). Isto significa que são necessários suplementos de vitamina D para crianças logo nas primeiras 2 semanas de vida (2526).

Estudos referem que as mulheres que ingerem quantidades elevadas de vitamina D – acima das 6000 UI/dia e muito acima da dose diária recomendada – têm maior probabilidade de fornecer quantidades adequadas deste composto aos seus bebés (2728).

Amamentação saudável: Ingestão de água

mulher a beber água de garrafa

É normal que durante a amamentação haja um aumento da sensação de sede, em parte explicado pela subida normal dos níveis da hormona oxitocina. Esta é a hormona responsável pela produção de leite nos mamíferos (29).

Embora não haja valores certos de quantidades a ingerir por dia, é importante que para produzir quantidades suficientes de leite beba líquidos até “matar” a sede.

Alguns sinais de desidratação nas lactantes incluem sensação de desmaio, fadiga diminuição da quantidade de leite produzido e alteração do aspeto e cheiro da urina (29).

Amamentação saudável: o que evitar

Mulher a encher chávena de café da cafeteira

Regra geral, pode ingerir tudo em moderação, mesmo quando estiver a amamentar. No entanto, alguns alimentos, especiarias e bebidas podem “aparecer” no leite materno, causando desconforto e inquietação no bebé (3031).

Alimentos ou compostos como cafeína e álcool podem afetar o sono ou provocar distúrbios gastrointestinais no bebé e como tal devem ser evitados (3233).

Visto que cerca de 2 a 6% das crianças podem desenvolver alergia às proteínas do leite de vaca presente na dieta materna, é normal o surgimento de sintomas como eczema, diarreia, vómitos e cólicas (3435).

Nestes casos, e sendo o leite um alimento bastante importante na alimentação geral, deve consultar o seu nutricionista como forma de contornar este problema, estabelecendo alternativas viáveis que colmatem as possíveis carências impostas pela não ingestão de produtos lácteos.

Fontes

  1. Lönnerdal B. (1997). Effects of milk and milk components on calcium, magnesium, and trace element absorption during infancy. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9234961/
  2. Björklund KL, et.al. (2012). Metals and trace element concentrations in breast milk of first time healthy mothers: a biological monitoring study. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23241426/
  3. Emmett PM, Rogers IS. (1997). Properties of human milk and their relationship with maternal nutrition. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9363415/
  4. Lönnerdal B. (2000). Regulation of mineral and trace elements in human milk: exogenous and endogenous factors. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10946559/
  5. Allen LH. (2012). B vitamins in breast milk: relative importance of maternal status and intake, and effects on infant status and function. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22585913/
  6. Ballard O, Morrow AL. (2013). Human milk composition: nutrients and bioactive factors. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23178060/
  7. Nommsen LA, et.al. (1991). Determinants of energy, protein, lipid, and lactose concentrations in human milk during the first 12 mo of lactation: the DARLING Study. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1989413/
  8. Saarela T, Kokkonen J, Koivisto M. (2005). Macronutrient and energy contents of human milk fractions during the first six months of lactation. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16203669/
  9. Butte NF, et.al. (1999). Adjustments in energy expenditure and substrate utilization during late pregnancy and lactation. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9989696/
  10. Butte NF, Wong WW, Hopkinson JM. (2001). Energy requirements of lactating women derived from doubly labeled water and milk energy output. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11208938/
  11. Butte NF, King JC. (2005). Energy requirements during pregnancy and lactation. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16277817/
  12. Dall SR, Boyd IL. (2004). Evolution of mammals: lactation helps mothers to cope with unreliable food supplies. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15451695/
  13. Ostrom KM. (1990). A review of the hormone prolactin during lactation. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2092340/
  14. Kopelman PG. (2000). Physiopathology of prolactin secretion in obesity. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10997622/
  15. Chierici R, Saccomandi D, Vigi V. (1999). Dietary supplements for the lactating mother: influence on the trace element content of milk. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10569217/
  16. Hannan MA, et.al. (2009). Maternal milk concentration of zinc, iron, selenium, and iodine and its relationship to dietary intakes. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18802672/
  17. Greer FR. (2001). Do breastfed infants need supplemental vitamins? Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11339161/
  18. Singh M. (2005). Essential fatty acids, DHA and human brain. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15812120/
  19. Valentine CJ, et.al. (2010). Docosahexaenoic Acid and Amino Acid Contents in Pasteurized Donor Milk are Low for Preterm Infants. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20850762/
  20. Valentine CJ, et.al. (2013). Randomized controlled trial of docosahexaenoic acid supplementation in midwestern U.S. human milk donors. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22568471/
  21. DeLuca HF. (1980). The control of calcium and phosphorus metabolism by the vitamin D endocrine system. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/7015957/
  22. Alshishtawy MM. (2012). Vitamin D Deficiency: This clandestine endemic disease is veiled no more. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22548132/
  23. Hollis BW, et.al. (1981). Vitamin D and its metabolites in human and bovine milk. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/6788913/
  24. Mulligan ML, et.al. (2010). Implications of vitamin D deficiency in pregnancy and lactation. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19846050/
  25. Dawodu A, et.al. (2014). Heightened attention to supplementation is needed to improve the vitamin D status of breastfeeding mothers and infants when sunshine exposure is restricted. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22708508/
  26. Mutlu GY, et.al. (2011). Prevention of Vitamin D deficiency in infancy: daily 400 IU vitamin D is sufficient. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21860631/
  27. Hollis BW, et.al. (2015). Maternal Versus Infant Vitamin D Supplementation During Lactation: A Randomized Controlled Trial. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26416936/
  28. Thiele DK, Senti JL, Anderson CM. (2013). Maternal vitamin D supplementation to meet the needs of the breastfed infant: a systematic review. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23458952/
  29. Kavouras SA. (2002). Assessing hydration status. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12172475/
  30. WHO. (2009). Infant and Young Child Feeding: Model Chapter for Textbooks for Medical Students and Allied Health Professionals. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK148970/
  31. Mennella JA. (2006). Development of food preferences: Lessons learned from longitudinal and experimental studies.  Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19641631/
  32. Mennella JA, Beauchamp GK. (1991). Maternal diet alters the sensory qualities of human milk and the nursling’s behavior. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1896276/
  33. Nehlig A, Debry G. (1994). Consequences on the newborn of chronic maternal consumption of coffee during gestation and lactation: a review. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/8157856/
  34. Brill H. (2008). Approach to milk protein allergy in infants. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18791102/
  35. Høst A. (2002). Frequency of cow’s milk allergy in childhood. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12487202/
Veja também

A não esquecer

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