Raquel Gomes
Raquel Gomes
02 Dez, 2020 - 17:22

Dieta vegetariana é mais sustentável, mas a remoção total de alimentos de origem animal não é realista

Raquel Gomes

Será verdadeira a ideia de que a dieta vegetariana é a mais sustentável para o ambiente? E o que está em causa nesta noção de sustentabilidade?

Dieta vegetariana é mais sustentável

É indiscutível que nos últimos anos a dieta vegetariana tem vindo a conquistar cada vez mais apoiantes e seguidores.

Existem várias razões que podem explicar este fenómeno: a ideia de que uma dieta à base de produtos vegetais é mais saudável, preocupações com o bem-estar animal e a consciencialização do impacto ambiental da produção de alimentos de origem animal.

Mais do que uma análise daquilo que é uma dieta vegetariana, analisaremos se a dieta vegetariana é mais sustentável para o ambiente e o que diz a evidência sobre este assunto.

Como pode ser classificada a dieta vegetariana?

Variedade de frutas e legumes

A dieta vegetariana é um termo usado para padrões de consumo alimentar que utilizam exclusivamente ou predominantemente produtos de origem vegetal. Estes padrões têm em comum a exclusão da carne e do pescado, mas podem incluir ovos ou laticínios.

Na verdade, as diferentes classificações das vertentes da dieta vegetariana são precisamente feitas através do consumo, ou não, de ovos e lacticínios, assim:

  • Ovolactovegetariana exclui carne e pescado, permite ovos e laticínios
  • Lactovegetariana exclui carne, pescado e ovos, permite laticínios
  • Ovovegetariana exclui carne, pescado e laticínios, permite ovos
  • Vegetariana estrita e vegana exclui todos os alimentos de origem animal

Há ainda quem se identifique como “semivegetariano” ou “flexitariano”. Não existe nenhuma definição para estes, mas considera-se que é uma categoria para todos os que excluem apenas a carne e/ou o pescado ou então para aqueles que apenas consomem estes produtos esporadicamente. Vale, no entanto, lembrar que este padrão de consumo não está incluído na dieta vegetariana (1).

Motivações que levam as pessoas a começar uma dieta vegetariana

Mulher a almoçar

Saúde, preocupação com o bem-estar animal e questões ambientais são talvez as razões mais comuns pelas quais muitas pessoas têm aderido a um regime alimentar vegetariano.

Relativamente aos benefícios da dieta vegetariana, um estudo de 2017 mostrou que uma dieta vegetariana parece reduzir em 25% o risco de cardiopatia isquémica (que é causada por uma falta de irrigação do miocárdio geralmente devido a uma obstrução das artérias coronárias).

Também o risco de incidência total de cancro foi menor para os vegetarianos. No entanto, para outros parâmetros não se verificaram diferenças entre uma dieta omnívora ou vegetariana, de entre os quais a mortalidade, que será o parâmetro mais importante (2).

A dieta vegetariana é mais sustentável para o ambiente?

Agricultora a carregar caixa de legumes

No que toca às questões ambientais, existe a ideia de que as dietas vegetarianas são mais sustentáveis e amigas do ambiente quando comparadas com as dietas que incluem produtos de origem animal.

O conceito de “Dieta Sustentável” propõe o desenvolvimento de padrões alimentares saudáveis tanto para os consumidores como para o meio ambiente; isto quer dizer que uma dieta que se considere sustentável deve proteger a biodiversidade dos ecossistemas, ser segura do ponto de vista microbiológico, ser acessível e, ainda, nutricionalmente adequada.

Desta forma, devem ser consumidos alimentos cuja produção e transporte implique o menor uso possível de recursos naturais (como água e solo) e que tenha baixas emissões de gases com efeito de estufa (tanto na sua produção como transporte).

Deve-se ainda dar preferência a produtos alimentares locais, tradicionais e da época, apoiando um comercio justo (3).

Mas será que as dietas vegetarianas são efetivamente mais sustentáveis? Para obter uma resposta, a sustentabilidade destas dietas será analisada através de alguns parâmetros como a emissão de gases efeitos de estufa e a utilização de terra.

Emissões de gases com efeito de estufa dos diferentes alimentos

No ano passado, cerca de 26% das emissões globais de gases com efeito de estufa foram provenientes da indústria de produção de alimentos, sendo uma boa parte destes provenientes do gado (seja para venda de carne ou lacticínios, por exemplo), ou seja, alimentos de origem animal.

Mas será que a emissão de gases com efeito de estufa é igual para todos os alimentos produzidos? E será que todas as dietas têm emissões semelhantes?

Efetivamente, já está demonstrado que relativamente aos alimentos de origem animal, os alimentos de origem vegetal apresentam menores emissões de gases com efeito de estufa. No entanto, quando comparamos a carne de aves ou porco com carne de ruminantes (vacas) as emissões dos primeiros são muito menores.

Existem, ainda, outras salvaguardas: os ovos, laticínios, peixe capturado por técnicas de pesca sem arrasto, aquacultura tradicional, aves e suínos têm emissões muito mais baixas por grama de proteína do que as carnes de ruminantes. Portanto, os produtos de origem animal têm claramente diferentes emissões, dependo largamente do tipo de animal e dos métodos de criação/captura.

Em resumo, ordenamos os alimentos responsáveis pela maior à menor emissão de gases com efeito de estufa:

  1. Carne de ruminantes.
  2. Carne de porco.
  3. Carne de aves.
  4. Pesca com arrasto.
  5. Aquacultura.
  6. Pesca sem arrasto.
  7. Vegetais.
  8. Ovos.
  9. Laticínios.
  10. Manteiga.
  11. Frutas tropicais.
  12. Óleos.
  13. Arroz.
  14. Fruta da época.
  15. Frutos oleaginosos.
  16. Trigo e outros cereais.
  17. Milho.
  18. Raízes.
  19. Legumes.

Optar por peixes que não foram capturados por arrasto e dar preferência à aquacultura tradicional parece reduzir significativamente as emissões de gases com efeito de estufa. Também reduzir a ingestão de carne de ruminantes pode ser uma estratégia, isto porque é de facto aquela que apresenta maiores emissões de gases com efeito de estufa.

A carne de aves e porco não parece ter um impacto tão significativo nestas emissões e, portanto, reduzir o seu consumo não terá efeitos tão marcados quanto reduzir a carne de vaca, por exemplo.

Relativamente aos ovos e produtos lácteos sabe-se que a sua contribuição para os gases com efeito de estufa não parece ser extensiva, pelo que, tal como acontece para as carnes de ave e porco, eliminá-los poderá não ter um impacto tão significativo quanto se pensaria (4).

Alimentação de melhor qualidade tem maior emissão de gases com efeito de estufa

Já foi visto que diferentes produtos alimentares têm diferentes emissões, mas como se traduz isto quando se transpõe para a dieta?

Com base no que foi dito anteriormente, conclui-se que as dietas vegetarianas (vegan, lacto vegetariano e ovo-lacto vegetariano) serão aquelas que darão origem a emissões menores de gases com efeito de estufa (4).

Muito interessante foi também um estudo que aferiu que, a partir de certo valor energético, a qualidade da dieta relacionava-se inversamente com as emissões de gases com efeito de estufa; ou seja, quanto mais rica em alimentos energeticamente densos e pobres do ponto de vista nutricional (pior qualidade) menor a emissão de gases com efeito de estufa e, por oposição, quanto mais densas em nutrientes (de maior qualidade) maior a emissão de gases com efeito de estufa.

Assim, viu-se que quando as dietas eram classificadas de acordo com sua qualidade nutricional (em geral), as de alta qualidade nutricional tendiam a ter altos nível de GEE, embora contivessem mais produtos vegetais do que as dietas de baixa qualidade nutricional.

Embora possa parecer contraditório, não o é: as dietas de pior qualidade continham mais produtos processados como snacks doces e salgados. Estes produtos têm uma densidade energética altíssima e emissões de gases com efeito de estufa relativamente baixas (o seu transporte e armazenamento é fácil e a probabilidade de serem desperdiçados é menor) (6).

Gado num celeiro

A importância da utilização da terra

Outra das dimensões que podemos discutir quando falamos de sustentabilidade é o uso da terra. Estima-se que a agricultura ocupe cerca de 38% do planeta (glaciares não incluídos nesta estimativa).

A agricultura e o pastoreio têm implicações nos solos por duas vias: pela expansão dos terrenos (quando as terras agrícolas e pastagens se estendem para novas áreas, substituindo os ecossistemas naturais) e pela intensificação (quando as terras existentes são geridas para serem mais produtivas).

De qualquer maneira, os impactos são semelhantes: colocam sob pressão diversos ecossistemas, levando à inevitável perda de biodiversidade, deterioração da qualidade dos solos e ao agravamento das mudanças climáticas (7). Assim, qual o impacto dos diferentes alimentos nesta equação?

Se analisarmos os metros quadrados de terra usada aferimos que os ruminantes são, novamente, os que maiores valores apresentam com diferenças descomunais para os restantes alimentos. No entanto existem algumas salvaguardas: a forma de produção parece originar diferentes resultados (8).

Uma das recomendações para tornar a produção de carne mais sustentável é fazê-lo em terrenos impróprios para agricultura: ou seja, não se ocuparia terreno fértil passível de ser cultivado para a produção de produtos animais. E é aqui que alguns estudos falham: contabilizam o uso de terra como se esta pudesse ser alternativamente usada para cultivo o que muitas vezes não é verdade pelos motivos mencionados acima.

Assim, diminuir o consumo de carne não equivale necessariamente a poder usar o terreno “poupado” para produção agrícola, isto porque a terra usada para cada modalidade não pode ser considerada a mesma.

As diferentes dietas na utilização de terra

Quando se analisou o impacto de cada dieta na quantidade de terra usada, tendo em conta o número de pessoas que poderiam ser alimentadas com a mesma área de terra, concluiu-se que as mais eficientes na utilização do espaço seriam a dieta lacto-vegetariana (que inclui produtos lácteos), seguida pela ovo-lacto-vegetariana (que inclui produtos lácteos e ovos), por uma dieta omnívora com baixo consumo de carne e finalmente a dieta vegan, o que talvez possa ser uma surpresa.

Colocando esta informação de forma mais clara: uma dieta lacto-vegetariana alimenta mais pessoas do que uma dieta vegan se utilizarem a mesma área para a produção de alimentos (9).

Que medidas devem ser tomadas para tornar as dietas mais sustentáveis e saudáveis?

Família a almoçar

Recentemente, a Lancet (revista científica) lançou um artigo que cruza a alimentação saudável com a alimentação sustentável.

Ao longo do mesmo são dadas várias estratégias nutricionais e também políticas que poderão ser aplicadas para tornar as dietas sustentáveis e saudáveis uma realidade.

De entre as várias estratégias está o controlo do crescimento da população mundial: os sistemas agropecuários estão amplamente pressionados pelo crescimento da população mundial. A mesma medida também já tinha sido proposta em 2017: ter menos filhos parece ser a medida com mais impacto para a redução das emissões de gases com efeito de estufa (5).

Foi visto que os recursos estão à beira do limite pelo que aumentar a intensidade da produção de alimentos não é uma hipótese que favoreça a sustentabilidade.

Assim, é importante encontrar regimes alimentares que utilizem a menor quantidade possível de recursos para alimentar, de forma saudável, a maior quantidade possível de pessoas.

Eliminar o consumo de todos os produtos de origem não é uma solução viável

De forma geral, segundo a Lancet, este regime alimentar passa por uma dieta baseada em vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas, frutos oleaginosos e óleos insaturados e que inclui ainda uma quantidade baixa a moderada de marisco e aves. Por fim, recomendam a ingestão nula ou muito baixa de carne vermelha, carne processada, açúcar adicionado, grãos refinados e vegetais ricos em amido.

As medidas propostas são, no entanto, irrealistas, impraticáveis e inatingíveis para milhões de pessoas a nível mundial (11). É fundamental adaptar as medidas à realidade de cada país ou região. Assim como é de extrema importância haver um esforço coletivo e não apenas individual.

O que se propõe é uma mudança gradual nos hábitos alimentares para uma dieta mais rica em produtos de origem vegetal, o que não implica que se tenha de aderir a uma dieta vegetariana (10).

Reduzir o consumo de carnes de ruminantes é primordial nesta luta, mas isto não quer dizer que se tenha de erradicar todo e qualquer produto de origem animal. Como vimos anteriormente, nem todos são iguais no que concerne ao seu impacto no ambiente.

As dietas vegetarianas têm alguma vantagem no que toca ao seu impacto no meio ambiente. No entanto, é irrealista pedir a toda a população mundial que altere os seus hábitos alimentares para uma dieta vegetariana.

Será, no entanto, um ótimo ponto de partida começar por reduzir ao máximo o consumo de carnes de ruminantes, evitar o desperdício alimentar e incluir mais produtos de origem vegetal na nossa alimentação.

Fontes

  1. Silva SC, Pinho JP, Borges C et al. (2015) Linhas de orientação para uma alimentação vegetariana saudável. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/80821
  2. Dinu M, Abbate R, Gensini GF et al. (2017) Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: a systematic review with meta-analysis of observational studies.  57, 3640-3649. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26853923/
  3. Burlingame B, Dernini S (2012) Sustainable Diets and Biodiversity: Directions and Solutions for Policy, Research and Action. International Scientific Symposium, Biodiversity and Sustainable Diets United Against Hunger, FAO Headquarters, Rome, Italy, 3-5 November 2010. Sustainable Diets and Biodiversity: Directions and Solutions for Policy, Research and Action International Scientific Symposium, Biodiversity and Sustainable Diets United Against Hunger, FAO Headquarters, Rome, Italy, 3-5 November 2010. Disponível em: https://www.cabdirect.org/?target=%2fcabdirect%2fabstract%2f20133004329
  4. Tilman D, Clark MJN (2014) Global diets link environmental sustainability and human health.  515, 518-522. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25383533/
  5. Wynes S, Nicholas KAJERL (2017) The climate mitigation gap: education and government recommendations miss the most effective individual actions.  12, 074024. Disponível em: https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aa7541?dom=translatable&src=syn
  6. Vieux F, Soler L-G, Touazi D et al. (2013) High nutritional quality is not associated with low greenhouse gas emissions in self-selected diets of French adults.  97, 569-583. Disponível em: https://academic.oup.com/ajcn/article/97/3/569/4571517
  7. Foley JA, Ramankutty N, Brauman KA et al. (2011) Solutions for a cultivated planet.  478, 337-342. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21993620/
  8. Flachowsky G, Meyer U, Südekum K-HJA (2017) Land use for edible protein of animal origin—A review.  7, 25. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28335483/
  9. Peters CJ, Picardy J, Wilkins JL et al. (2016) Carrying capacity of US agricultural land: Ten diet scenarios.  4, 1. Disponível em: https://online.ucpress.edu/elementa/article/doi/10.12952/journal.elementa.000116/112904
  10. Bradfield J, Trigueiro H, Ray S (2020) Is global dietary change an effective strategy to curb climate change?: BMJ Specialist Journals. Disponível em: https://nutrition.bmj.com/content/early/2020/11/05/bmjnph-2020-000101.abstract

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