Danielle Paiva
Danielle Paiva
01 Out, 2019 - 17:10

Hemorroidas: tipos, causas, sintomas e tratamentos

Danielle Paiva

As hemorroidas são frequentes na população adulta, principalmente entre 45 e 65 anos. Conheça as causas, os sintomas e os tratamentos possíveis.

Mulher com dores por causa das hemorroidas

As hemorroidas são veias dilatadas na região anal, e cujos sintomas podem ser dolorosos. É um problema frequente na população adulta em geral, sendo classificadas em dois tipos: hemorroidas internas e externas.

Hemorroidas: mais frequentes na população adulta

Mulher a sofrer com hemorroidas

Sociedade Portuguesa de Coloproctologia refere que as hemorroidas sintomáticas são frequentes na população adulta. Estima-se que afetam aproximadamente 50% da população nalguma altura da vida.

As medidas dietéticas, nomeadamente a dieta rica em fibra, para controlo da obstipação, são parte importante no tratamento e prevenção da doença hemorroidária. O tratamento farmacológico não tem como objetivo final a cura da doença hemorroidária, mas pode ser útil no controlo da hemorragia na fase aguda, até que o tratamento adequado possa ser programado (instrumental ou cirúrgico).

O tratamento instrumental é o mais indicado, sempre que o doente tenha capacidade para o tolerar. A laqueação elástica é simples, barata, rápida, realizada em ambulatório num consultório médico, e muito eficaz no prolapso hemorroidário redutível. Costuma substituir a hemorroidectomia cirúrgica em 80% dos doentes (1).

Funções das hemorroidas

O tecido hemorroidário tem três funções principais:

  • Mantém a continência anal, pois o preenchimento vascular constitui 15 a 20% da pressão anal em repouso;
  • Protege o mecanismo esfincteriano durante a evacuação ao formar uma almofada esponjosa;
  • Forma um revestimento compressível, permitindo o encerramento completo do ânus;

A doença hemorroidária requer a presença de alterações patológicas responsáveis pela hemorragia, prolapso ou trombose (1).

Causas das hemorroidas

Muitos fatores foram implicados no desenvolvimento da doença hemorroidária, incluindo o esforço defecatório excessivo, pressão intra-abdominal aumentada, a ausência de valvas nos vasos hemorroidários, a posição vertical da espécie humana, a obstipação crónica e os fatores genéticos (1).

Obstipação

Para reduzir a obstipação, um dos mais importantes fatores para o surgimento da doença hemorroidária, destaca-se a importância da dieta rica em fibra, da ingestão de líquidos e do exercício físico moderado.

O aumento da motilidade cólica no período pós-prandial, serve de estímulo para defecar de manhã e após as refeições. A dieta rica em fibra e os laxantes de volume como o psyllium,a metilcelulose ou policarbofil, com ingestão adequada de líquidos, são a terapêutica mais fisiológica da obstipação.

Os laxantes estimulantes devem ser reservados para os casos que não respondem a estas medidas iniciais. A fibra é a porção dos alimentos que escapa ao processo de digestão. É composta por componentes solúveis e insolúveis. Em geral, as fibras cereais retêm água na sua estrutura celular, resistente à digestão, enquanto as fibras dos frutos e legumes estimulam o crescimento da flora cólica (1).

Diarreia

A diarreia pode exacerbar a sintomatologia hemorroidária e deve ser controlada com fibras, agentes anti-motilidade, e a causa subjacente identificada e tratada. Por outro lado, a obstipação é um fator preponderante no desencadear das queixas. O uso de laxantes é universalmente recomendado no tratamento e prevenção da doença hemorroidária, em parte pela sua segurança e baixo custo (1).

Sintomas das hemorroidas

Os sintomas mais comuns ocorrem durante a defecação (1):

  • Dor;
  • Sangramento, pode ter intensidade variável, mas geralmente é vermelho vivo;
  • Prolapso das hemorroidas, algumas vezes redutível (voltam sozinhas para dentro após a evacuação), outras vezes é necessário empurrá-las para dentro;
  • Inchaço após defecar, desconfortável e doloroso, nas hemorroidas externas, na trombose aguda;
  • Coceira (prurido) ao redor do ânus é também é um sintoma comum. A limpeza frequente, na tentativa de aliviar esse prurido, pode agravar o problema.

As hemorroidas aumentam na gravidez?

mulher grávida com sintomas de hemorroidas

Durante a gravidez é mais frequente a obstipação, e o volume de sangue aumenta 25 a 40%, o que aumenta a dilatação, ingurgitamento e estase venosa. Estes fatores associados ao útero aumentado, à lassidão do pavimento pélvico e ao ambiente hormonal, favorecem a ocorrência de doença hemorroidária em 8 a 24% das grávidas .

O esforço e traumatismo associado com o trabalho de parto contribuem para a manifestação de hemorroidas sintomáticas em 12 a 34% das parturientes (1).

Tratamento das hemorroidas

Um princípio básico é tratar apenas as hemorroidas sintomáticas.

Para tratar a obstipação, aumenta-se a oferta de fibra na dieta. Recorde-se que os doentes com uma dieta pobre em fibra devem ingerir 2 a 6 colheres de sopa de farelo a cada refeição e líquidos em quantidade adequada.

O efeito laxante pode demorar 3 a 5 dias e o alívio da obstipação algumas semanas. Os vegetais e frutos contêm fibra solúvel mas nem sempre são substitutos adequados do farelo. O farelo pode causar distensão abdominal e flatulência, e deve ser ingerido com muitos líquidos. Estes sintomas podem ser aliviados iniciando com pequena quantidade e aumentando gradualmente, conforme tolerado para o efeito desejado.

Hemorroidas externas

As hemorroidas externas não requerem tratamento, a não ser na trombose aguda. Se o doente é observado numa fase subaguda, habitualmente após 48 horas, com a dor em fase de alívio, a trombose em resolução, sendo o edema sobrejacente preponderante, o tratamento conservador é recomendado e suficiente. Este consiste em amolecer as fezes, analgesia, frio local e banhos de assento com água morna. Tendo em conta o seu modo de ação, os tratamentos locais contendo corticoides ou incluindo um excipiente lubrificante ou protetor mecânico, podem ser propostos por curtos períodos (1).

Se a dor é intensa e o coágulo está sob tensão, a excisão sob anestesia local é segura e efetiva. A ferida dolorosa na margem do ânus que resulta da excisão, responsável por dor e hemorragia ligeira a moderada, cicatriza entre uma a duas semanas. Os analgésicos como o paracetamol e os cuidados locais (desinfecção e aplicação tópica de cicatrizante) são suficientes (1).

Hemorroidas internas

São geralmente tratadas de maneira conservadora com medidas anti-obstipantes, como a dieta rica em fibra, suplementos de fibra e líquidos.

Os sintomas menores, como o prurido e desconforto anal podem ser controlados com tópicos como os protectores da pele (creme gordo) após a defecação, anestésicos contendo benzocaina, dibucaina ou pamoxina. Pomadas com hidrocortisona são seguras e podem aliviar o prurido (1).

Os anti-inflamatórios esteróides sistémicos podem ser utilizados nas hemorróidas dolorosas na grávida, por curtos períodos, associados ou não a analgésicos (paracetamol) e venotrópicos (hidroxietilrutosido e diosmina). A aspirina é desaconselhada na doença hemorroidária (1).

As hemorroidas internas prolapsadas e trombosadas são uma urgência pela dor intensa que provocam. A hemorroidectomia urgente é frequentemente o tratamento de escolha. Contudo, o tratamento médico conservador com anti-inflamatórios esteroides e não-esteroides, uso de gelo e tópicos locais, é uma alternativa (1).

As hemorróidas internas com sintomas refractários devem ser tratadas com procedimentos instrumentais simples realizados em regime ambulatório, como a laqueação elástica, a injecção de esclerosante, a fotocoagulação, a electrocoagulação com corrente monopolar, bipolar ou o árgon (1).

A laqueação elástica é eficaz no tratamento das hemorroidas internas de primeiro e segundo grau. Os dispositivos usados para aspiração e laqueação elástica (“pistolas”) permitem aspirar o tecido hemorroidário “esponjoso” numa área insensível, não sendo necessária anestesia.

O doente não necessita de uma preparação intestinal especial, devendo apenas evacuar antes da sessão de tratamento. As sessões devem ser espaçadas de 4 semanas. As complicações mais comuns a todas as técnicas instrumentais, são a dor e as retrorragias. A dor é frequente e, na maioria das vezes, referida como um simples desconforto, mas pode ser intensa e persistir alguns dias (1).

Tratamento pós-hemorroidectomia

Várias têm sido as abordagens para diminuir a dor, as complicações e o tempo de recuperação, após a hemorroidectomia cirúrgica. O uso de fibras após a cirurgia é recomendado na tentativa de diminuir a dor, as perdas de sangue e a recorrência (1).

Os nitratos tópicos (nitroglicerina ou trinitrato de glicerol a 0,2%) aliviam a dor pós-hemorroidectomia cirúrgica (1).

Quando deve consultar um médico?

Ao identificar um dos sintomas das hemorroidas, pode e deve consultar um médico. Todos os pacientes com idade acima de 40 anos, com sangramento retal, devem ser submetidos a uma sigmoidoscopia flexível ou colonoscopia, para afastar a possibilidade da presença de tumores colorretais benignos ou malignos, de doença inflamatória intestinal e de doença diverticular (2).

Veja também:

Fontes

1. FERNANDES, V. (2009). “Doença hemorroidária. Revista Portuguesa de Coloproctologia”. Disponível em:
 https://www.spcoloprocto.org/uploads/rpcol_maio_agosto_2009__pags_36_a_43.pdf
2. Sociedade Brasileira de Coloproctologia. “Hemorroida: diagnóstico”. (2005)  . Disponível em:
 https://diretrizes.amb.org.br/_BibliotecaAntiga/hemorroida-diagnostico.pdf