Catarina Milheiro
Catarina Milheiro
03 Mai, 2022 - 15:39

“Objetivo da Ritalina é melhorar qualidade de vida das crianças”

Catarina Milheiro
Entrevista sobre ritalina

É, muitas vezes, chamada de “a droga da matemática” ou “a droga da inteligência”. Já ouviu falar na Ritalina? Quisemos saber mais sobre a conhecida “droga legal”, constantemente polemizada em contexto social e cuja utilização envolve, ainda, muitos mitos. Por isso, conversamos com quem entende do assunto e procuramos saber mais sobre o tema.

Será a Ritalina segura para os mais novos? Quais efeitos secundários podemos esperar? Em que situações é recomendada e como é feito o diagnóstico que precede a sua utilização?

Quem responde é a Dra. Ana Luísa Mendes, pediatra, em entrevista ao Vida Ativa.

Mas, antes, vamos entender um pouco mais sobre o panorama que envolve o uso de medicamentos como a Ritalina e similares.

Hiperatividade e Défice de Atenção sem rótulos

Preguiça, falta de motivação e tagarelice – estes são alguns dos adjetivos que se atribuem a crianças que, muitas vezes, são diagnosticadas com Hiperatividade e Défice de Atenção.

Tal como a perturbação do espetro do autismo, a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é uma das mais estudadas e frequentes na atualidade.

Contudo, e apesar dos avanços no conhecimento, este distúrbio no neurodesenvolvimento é, tantas vezes, amplamente discriminado – tal como o seu tratamento farmacêutico mais comum, geralmente feito através de uma combinação entre a administração de metilfenidato e outras terapias.

Ora, este tipo de abordagens não tem em consideração, na maioria das vezes, o facto de que algumas opiniões menos fundamentadas possam provocar alarido – quer nos pacientes, quer nas suas famílias.

Destacamos aqui que esta perturbação foi já considerada pelas agências competentes de saúde, a nível mundial, como uma patologia de alto risco para a saúde pública.

E o que é A Ritalina?

Ritalina é, na verdade, é o nome comercial mais associado ao metilfenidato, um estimulante do sistema nervoso central que integra a família das anfetaminas e cuja prescrição não é invulgar em diagnóstico clínico de crianças com PHDA.

Para desmistificar pontos-chave deste tema conversamos com uma médica especialista em Pediatria, que nos responde a algumas questões-chave.

Ritalina em conversa com especialista

Uma entrevista com a pediatra Ana Luísa Mendes

Ana Luísa mendes
Ana Luísa Mendes, médica pediatra

Vida Ativa: Quais são as indicações médicas para o tratamento com Ritalina?

Ana Luísa Mendes: Trata-se de um medicamento da classe dos psicoestimulantes e é usado para o tratamento da Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) e da Narcolepsia.

VA: Qualquer criança desatenta, irrequieta e que se distrai facilmente terá necessidade de tratamento medicamentoso com Ritalina?

ALM: Não, a decisão de tratar com qualquer medicamento depende de uma avaliação médica na qual o especialista chega a um diagnóstico concreto, baseado nos critérios da DSM V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, ou Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).

Após esse diagnóstico médico, o tratamento pode ou não passar pelo uso de medicamentos tais como o metilfenidato, dependendo de vários fatores, nomeadamente o tipo de PHDA, idade, história clínica, antecedentes pessoais e familiares, entre outros.

VA: Como é feito o diagnóstico do PHDA?

ALM: O diagnóstico de PHDA é feito, habitualmente, numa consulta de Pediatria do Desenvolvimento e requere uma avaliação multidisciplinar, que passa pela recolha de uma história clínica detalhada, que inclui informação sobre antecedentes familiares, pessoais, assim como um exame físico completo e habitualmente aplicação de escalas de diagnóstico específicas.

Na maioria dos casos serão solicitados relatórios com informação dos pais e da escola e avaliação por profissionais de saúde diferentes.

VA: O diagnóstico é fundamental para o tratamento com Ritalina?

ALM: É essencial, pois o tratamento da PHDA não passa apenas pela medicação e quando esta é prescrita deve ser complementada com outro tipo de terapêutica, monitorizada e ajustada frequentemente em consulta médica específica.

VA: Quais especialidades médicas podem prescrever Ritalina em crianças?

ALM: Habitualmente, o diagnóstico é feito em consulta de Pediatria do Desenvolvimento ou Pedopsiquiatria.

VA: Quais as causas associadas a este transtorno?

ALM: Não são conhecidas as causas da PHDA, mas sabemos que há uma maior incidência de PHDA em crianças com determinadas patologias, e que há componentes genéticos importantes (por isso há habitualmente algum familiar direto com PHDA) e a influência de fatores ambientais, sendo que estes últimos têm um papel menos definido.

VA: Todas as crianças com PHDA têm indicação para fazer tratamento com Ritalina?

ALM: Não, depende de múltiplos fatores, mas o metilfenidato, para as crianças que necessitam de medicação, é habitualmente a primeira escolha pelo seu perfil de segurança e tolerância.

VA: Metilfenidato ajuda a aumentar a capacidade de concentração nos estudos?

ALM: Sim, quando estas crianças e jovens tem critérios de PHDA que justifiquem o uso desta medicação, e habitualmente em conjunto com terapia cognitivo-comportamental e seguimento multidisciplinar.

efeitos da ritalina nas crianças
Veja também Ritalina: como atua o medicamento e para o que é indicado

VA: Que benefícios esperar da terapêutica?

ALM: O objetivo da medicação é melhorar a qualidade de vida das crianças, não só ao nível do desempenho escolar mas também pessoal, nas tarefas do dia a dia e nas relações interpares e familiares.

VA: Quanto tempo leva este medicamento a fazer efeito?

ALM: O metilfenidato tem formulações de curta acção, cujos efeitos são sentidos em minutos, outros de média e de longa duração (com efeito em horas), e a opção entre estes depende da criança ou adolescente a quem são prescritos e do que se
pretende tratar.

A dose e tipo de formulação de metilfenidato usada pode variar ao longo do tratamento, de acordo com a resposta à medicação, calendário escolar, presença de efeitos secundários entre outros fatores, e por isso o médico irá programar as consultas de acordo com o caso específico de cada criança ou adolescente.

VA: Quais os efeitos laterais, a curto e longo prazo?

ALM: O metilfenidato é uma medicação segura e cujos efeitos secundários são habitualmente ligeiros e transitórios, desaparecendo com o uso continuado da medicação.

Os mais frequentes são a perda de apetite, dor abdominal, alteração dos padrões de sono e dor de cabeça.

VA: Há contraindicações?

ALM: Existem algumas contra-indicações importantes para o uso deste tipo de fármacos, nomeadamente a existência de doença cardíaca, tiques, outro tipo de doenças psiquiátricas, o uso de alguns medicamentos, entre outras. Por isso não podem ser usados em todas as crianças e adultos. Apenas com prescrição médica e monitorização frequente em consulta de especialidade.

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