Psicóloga Ana Graça
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09 Mar, 2020 - 07:00

“Não é não”: a importância de definir regras com as crianças

Psicóloga Ana Graça

A vida social rege-se pela obediência a regras, logo, definir regras com as crianças de forma consistente é importante e deve começar desde logo.

Regras com as crianças: mãe a estabelecer regras com o filho

A infância é um período repleto de importantes descobertas e aprendizagens que contribuem para o desenvolvimento global das crianças. Definir regras com as crianças é crucial para que estas aprendam a aprender (conhecendo o mundo envolvente), aprendam a fazer (colocando em prática o conhecimento), aprendam a viver em comunidade e aprendam a ser.

Definir regras com as crianças é importante? SIM!

Regras com as crianças: pai a estabelecer regras com a filha

Apesar da espontaneidade inerente à infância e à saudável descoberta do mundo, é importante que as crianças tomem consciência de que a vida em sociedade se rege por padrões comportamentais regulares e desejáveis.

A disciplina, ou seja, a definição de regras com as crianças, permite que as crianças aprendam a conhecer e a conviver com regras e limites.

Quando ouvimos falar em disciplina, muitos de nós associa este conceito à sua conceção mais tradicional e arcaica, que se resumia à obediência a regras e à submissão da criança às exigências dos adultos. No entanto, o conceito de disciplina é muito mais abrangente. Disciplinar implica ensinar as crianças a:

  • Diferenciar o correto do errado
  • Conviver com as frustrações
  • Saber o quão importante é corrigir o que fazem de errado

Em suma, definir regras com as crianças ajuda a que estas se responsabilizem pelos seus atos e aprendam a corrigir os seus erros e tem um grande impacto na pessoa em que cada criança se vai transformar na vida da adulta e na perceção que vai desenvolver acerca da ordem e da autoridade. Mais ainda, definir regras com ascrianças parece ainda ter outras vantagens, nomeadamente:

  1. Maior tolerância à frustração.
  2. Maior capacidade de autocontrolo e autodisciplina.
  3. Maior capacidade de reconhecimento dos seus próprios sentimentos e dos sentimentos dos outros.
  4. Maior sentido de justiça.
  5. Adoção de comportamentos altruístas.
  6. Desenvolvimento de comportamentos aceitáveis.
  7. Leva a que as crianças se tornem adultos emocionalmente mais maduros.
  8. Potencia o respeito pelo próximo e facilita a socialização (1)

Como definir regras com as crianças? Estas 10 dicas podem ajudar

Regras com crianças: pai a estabelecer regras com o filho

Disciplinar de forma positiva passa por ensinar as crianças ao invés de as forçar a obedecer.

Para tal, é importante que a definição de regras seja consistente, percebida como justa e adequada ao nível de desenvolvimento e temperamento da criança. Mas como colocar este conceito de disciplina em prática da melhor forma? Estas 10 dicas vão ajudar:

  1. Reforçar o comportamento desejável. A aprovação e o elogio são os motivadores mais poderosos para o bom comportamento (1).
  2. Estabelecer limites definidos de comportamento;
  3. Explicar de forma clara (e repetindo as vezes que forem necessárias) as instruções, de forma a garantir que a criança tomou conhecimento dos comportamentos esperados;
  4. As regras devem ser simples, implementadas de forma progressiva e de uma forma moderadamente flexível.
  5. Assegurar que a criança não só conhece as regras como também entende o seu porquê.
  6. Evitar fazer ameaças sem consequências, porque podem reforçar o comportamento indesejado.
  7. Quando uma regra não é respeitada, o adulto deve assinalar imediatamente o comportamento da criança. Quando se aplica as consequências, estas devem ser breves e aplicadas o mais cedo possível, não entrando em argumentações ou disputas verbais com a criança.
  8. Não esquecer que as crianças tendem a aprender por imitação , logo, deve ser-lhes oferecida a oportunidade de observar e imitar comportamentos adequados. Se os adultos que rodeiam a criança corrigirem um comportamento e não agirem em conformidade, a criança não seguirá as regras, porque aquilo que vê é muito mais importante do que aquilo que ouve.
  9. Não confundir consistência com inflexibilidade. As regras devem ser consistentes, mas sempre adequadas ao grau de desenvolvimento da criança e às necessidades manifestadas pela criança a cada momento.
  10. A criança não deve nunca ser culpada, mas antes responsabilizada pelos seus atos, ou seja, a criança deve entender que a correção é dirigida ao comportamento e não a si enquanto pessoa, logo, a definição de regras e limites deve sempre ser feita com amor e confiança (2).

Conclusão

Importa relembrar que definir regras com as crianças de modo consistente traz inúmeras vantagens, por exemplo, leva a que as crianças aprendam a viver de forma cooperativa com os outros, ensina-as a distinguir o certo do errado e protege-as do perigo.

Esta definição de regras não deve ser adiada na medida em que os estudos têm vindo a mostrar que as crianças compreendem as regras sociais desde cedo e conseguem aplicá-las nos contextos adequados.

Pelo contrário, quando tal não acontece e as crianças são criadas sem o estabelecimento dos limites apropriados é mais provável que venham a ter dificuldades ao nível da adaptação social e menor tolerância face às frustrações e contrariedades.

Mais ainda, quando as regras não são bem definidas, as crianças não sabem o que é certo e o que é errado, o que leva a que se sintam ansiosas e perdidas diante das várias possibilidades de ação (1).

Em suma, dizer “não” a uma criança é um fator decisivo para o seu processo de construção do mundo e para a sua integração na sociedade em que vivemos.

Fontes

  1. Psychosocial Paediatrics Committee/Canadian Paediatric Society (2004). Effective
    discipline for children. Paediatrics & Child Health 9(1), 37-41. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2719514/
  2. Vale, V. (2009). Do tecer ao remendar: Os fios da competência socio-emocional. Exedra (2), 129-146. Disponível em: https://dokumen.tips/documents/do-tecer-ao-remendar-os-fios-da-competencia-socio-131-vera-vale-do-tecer.html
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