Nutricionista Mafalda Serra
Nutricionista Mafalda Serra
07 Out, 2020 - 11:43

Fact-check: mascar pastilha elástica pode ajudar a perder peso?

Nutricionista Mafalda Serra

Mascar pastilha elástica pode ajudar a perder peso? Em que termos e quais os possíveis efeitos no organismo? Saiba o que diz a evidência científica sobre este assunto.

Mulher a mascar pastilha elástica
fact-check falso

Questão em análise

Quando pretendemos perder peso, muitas dietas e comportamentos vão surgindo como a solução rápida ou eficaz que nos permite atingir o nosso objetivo. Especialmente no mundo virtual, podemos encontrar com facilidade a sugestão de que mascar pastilha elástica poderá emagrecer. Mas o que nos diz a evidência científica?

Mascar pastilha elástica pode ajudar a perder peso? Para perceber quais os efeitos que um produto alimentar pode ter, é importante, em primeiro lugar, perceber qual a sua composição nutricional.

Composição nutricional da pastilha elástica

Pastilhas elásticas contribuem para a barriga inchada

Se consultarmos o rótulo alimentar de qualquer embalagem de pastilha elástica, podemos encontrar na sua lista de ingredientes edulcorantes, aromatizantes, emulsionantes ou corantes e ainda goma base (obtida a partir de derivados do petróleo, mas cuja composição se desconhece, pois os fabricantes adquiriram o direito de não a mencionar de forma detalhada no rótulo).

Relativamente ao açúcar, este poderá ou não estar presente, o que acaba por determinar a sua valorização calórica. As pastilhas elásticas com açúcar poderão ter entre 7kcal e 21kcal. Por outro lado, as pastilhas sem açúcar podem fornecer entre 2kcal a 5kcal (1). Este valor deve-se essencialmente aos aditivos com valor energético como por exemplo os adoçantes sorbitol, manitol, maltitol, lactitol, xilitol ou isomalte (2).

Assim, mesmo que não sejam ingeridas (e mesmo sem açúcar), as pastilhas elásticas possuem um valor calórico que é dependente não só da sua composição, mas também do tamanho da unidade.

Relativamente à sua composição, acaba também por ser um produto alimentar com muito pouco interesse nutricional.

Possíveis efeitos da pastilha elástica no organismo

Mulher com dores de barriga

Para além do possível valor calórico, o consumo de pastilhas elásticas pode ainda apresentar alguns efeitos gastrointestinais.

Ao consultar o rótulo alimentar de uma pastilha elástica sem açúcar, encontramos a referência de que “O seu consumo excessivo pode ter efeitos laxantes”, obrigatória sempre que um produto alimentar possui polióis [como sorbitol (E420), manitol (E421), maltitol (E965) ou lactitol (E966)] (3).

Para além dos efeitos laxantes, quando consumidos em grandes quantidades, estes edulcorantes podem causar flatulência, cólicas, náuseas ou vómitos (3, 4). Estudos recentes referem ainda que o seu consumo excessivo pode ter um efeito negativo a longo prazo na microbiota intestinal (5, 6).

O impacto das pastilhas elásticas na nossa saúde é estudado desde 1972 (7). Já nessa altura, foi concluído que a ação da mastigação de uma pastilha não se cinge à cavidade oral, mas acaba por interferir no processo digestivo (8).

Ao mascar uma pastilha, ocorre uma estimulação na produção de saliva e um aumento na deglutição, que parece originar um aumento do volume e secreção gástrica (que se mantém até depois de deitar a pastilha fora) (7, 9, 10). Ainda assim, estas alterações não provocam alteração no pH do estômago, possivelmente devido à ingestão da saliva durante a mastigação.

Será que mascar pastilha elástica pode ajudar a perder peso?

mulher a pesar-se na balança
1

Mascar pastilha elástica e aumento do gasto calórico

Uma das hipóteses que suporta a utilização de pastilha elástica na perda de peso sugere que há um aumento do gasto calórico associado à mastigação.

Um estudo concluiu que ao mascar pastilha elástica após a refeição, ocorria um aumento na termogénese induzida pelos alimentos (ou seja, um aumento na energia gasta no processo de digestão).

No entanto, esta melhoria não se verificou ser mais eficaz do que os benefícios obtidos ao comer mais devagar (11).

Outro estudo calculou o gasto energético de 7 indivíduos não obesos com peso estável enquanto “mascavam” pastilha elástica sem açúcar e comparou esse valor com o gasto energético dos mesmos em repouso. Observou-se que, aquando da utilização de pastilha, o gasto calórico aumentava em média 11 kcal por hora (que voltava à baseline assim que a pastilha era deitada fora).

Baseando-se nestes resultados, foi estimada uma perda de peso de 5 kg por ano associada ao mascar de pastilha elástica. Porém, esta perda de peso só seria possível se esse indivíduo mastigasse uma pastilha durante o dia inteiro e não modificasse qualquer outro componente associado ao gasto energético durante 1 ano (como o exercício físico ou mesmo a composição corporal) (12).

Assim, parece pouco provável que o aumento do gasto calórico associado ao processo de mastigação de pastilha elástica resulte em efetiva perda de peso (13).

2

Mascar pastilha elástica para suprimir o apetite

Adicionalmente, tem sido proposto que mascar pastilha elástica poderá ajudar na perda de peso ao suprimir o apetite (especialmente por alimentos doces) e, consequentemente, reduzir a ingestão calórica (14). Esta hipótese baseia-se na premissa de que o processo de mastigação propriamente dito poderá reduzir o apetite e a ingestão alimentar através da alteração de respostas hormonais relacionadas com a saciedade (15).

No entanto, a evidência científica que relaciona o consumo de pastilha elástica e o apetite é contraditória. Alguns estudos referem que poderá haver supressão do apetite após mascar pastilha com a redução inclusive do consumo de snacks (14, 16). Outros concluíram que não há diferenças no apetite, padrão alimentar ou ingestão alimentar (17).

Estes resultados discrepantes poderão estar relacionados com as diferentes condições e metodologias da investigação. É importante referir que a maioria dos estudos que estabeleceram uma associação entre a pastilha elástica e redução do apetite foram realizados sob condições de investigação controladas (13, 16). Quando os estudos eram realizados fora do laboratório, enquadrados no quotidiano dos indivíduos, não se observaram diferenças entre o consumo ou não de pastilha elástica no apetite (13, 17).

Outro aspeto a referir para além do enquadramento do estudo, é a metodologia do mesmo. Quando se observou uma redução da ingestão energética, as pastilhas elásticas foram mascadas em pelo menos 3 ocasiões do dia. No entanto, se o consumo for de apenas 1 vez por dia, não há efeito na ingestão calórica (15).

3

Mascar pastilha elástica para reduzir o stress

Por último, outra hipótese colocada defende que o consumo de pastilha elástica tem sido associado a uma redução dos níveis de stress, podendo consequentemente reduzir os episódios de ingestão alimentar associados a períodos de maior agitação ou exaustão psicológica (18). No entanto, a evidência científica apresenta-nos resultados contraditórios, tanto associando o consumo de pastilha elástica a redução de ansiedade e stress (19) como referindo que não há associação (20).

Avaliação Vida Ativa: Falso

Pastilhas elásticas de mentol numa mesa

Mascar pastilha elástica não é uma estratégia eficaz na perda de peso. Apesar de encontrarmos na literatura científica estudos que concluem que a pastilha elástica poderá facilitar o processo de emagrecimento, a verdade é que os resultados são contraditórios, estudados num curto espaço de tempo e normalmente não extrapoláveis para o quotidiano dos indivíduos.

Para além disso, os estudos baseiam as suas conclusões em variáveis intermédias ao peso (como a ingestão de alimentos ou o gasto energético) e não no valor do peso per se.

Um fator importante para averiguar a veracidade e adequação de uma afirmação sobre alimentação, é saber interpretar a literatura científica. Apesar de os estudos mostrarem que é possível obter resultados no peso ao mascar pastilha elástica, é essencial perceber se estas conclusões são realistas ou extrapoláveis para a nossa rotina alimentar.

Fontes

  1. U.S. Department of Agriculture, Agricultural Research Service. FoodData Central, 2020. Disponível em: https://fdc.nal.usda.gov/
  2. Pham H, Phillips LK, Jones KL. Acute Effects of Nutritive and Non-Nutritive Sweeteners on Postprandial Blood Pressure. Nutrients. 2019 Jul 25;11(8):1717.
  3. Portaria n.º 332/96 de 3 de Agosto. Diário da República n.º 179/1996, Série I-B Ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas, da Saúde e do Ambiente, Lisboa.
  4. Plaza-Diaz J, Pastor-Villaescusa B, Rueda-Robles A, Abadia-Molina F, Ruiz-Ojeda FJ. Plausible Biological Interactions of Low- and Non-Calorie Sweeteners with the Intestinal Microbiota: An Update of Recent Studies. Nutrients. 2020 Apr 21;12(4):1153.
  5. Ruiz-Ojeda FJ, Plaza-Díaz J, Sáez-Lara MJ, Gil A. Effects of Sweeteners on the Gut Microbiota: A Review of Experimental Studies and Clinical Trials. Adv Nutr. 2019 Jan 1;10(suppl_1):S31-S48.
  6. Suez, J.; Korem, T.; Zilberman-Schapira, G.; Segal, E.; Elinav, E. Non-caloric artificial sweeteners and the microbiome: Findings and challenges. Gut Microbes 2015, 6, 149–155.
  7. Hansen EA, Rune SJ. Effect of chewing gum on gastric acid secretion. Scand J Gastroenterol. 1972;7(8):733-6. 
  8. Stern RM, Crawford HE, Stewart WR, Vasey MW, Koch KL. Sham feeding. Cephalic-vagal influences on gastric myoelectric activity. Dig Dis Sci 1989;34:521-7.
  9. Ouanes JP, Bicket MC, Togioka B, Tomas VG, Wu CL, Murphy JD. The role of perioperative chewing gum on gastric fluid volume and gastric pH: a meta-analysis. J Clin Anesth. 2015 Mar;27(2):146-52.
  10. Goudra BG, Singh PM, Carlin A, Manjunath AK, Reihmer J, Gouda GB, Ginsberg GG. Effect of Gum Chewing on the Volume and pH of Gastric Contents: A Prospective Randomized Study. Dig Dis Sci. 2015 Apr;60(4):979-83.
  11. Hamada Y, Miyaji A, Hayashi N. Effect of postprandial gum chewing on diet-induced thermogenesis. Obesity (Silver Spring). 2016 Apr;24(4):878-85. 
  12. Levine J, Baukol P, Pavlidis I. The energy expended in chewing gum. N Engl J Med. 1999 Dec 30;341(27):2100.
  13. Shikany JM, Thomas AS, McCubrey RO, Beasley TM, Allison DB. Randomized controlled trial of chewing gum for weight loss. Obesity (Silver Spring). 2012 Mar;20(3):547-52.
  14. Hetherington MM, Boyland E. Short-term effects of chewing gum on snack intake and appetite. Appetite. 2007 May;48(3):397-401.
  15. Miquel-Kergoat S, Azais-Braesco V, Burton-Freeman B, Hetherington MM. Effects of chewing on appetite, food intake and gut hormones: A systematic review and meta-analysis. Physiol Behav. 2015 Nov 1;151:88-96. 
  16. Swoboda C, Temple JL. Acute and chronic effects of gum chewing on food reinforcement and energy intake. Eat Behav. 2013 Apr;14(2):149-56.
  17. Julis RA, Mattes RD. Influence of sweetened chewing gum on appetite, meal patterning and energy intake. Appetite. 2007 Mar;48(2):167-75.
  18. Zibell S, Madansky E. Impact of gum chewing on stress levels: online self-perception research study. Curr Med Res Opin. 2009 Jun;25(6):1491-500. 
  19. Scholey A, Haskell C, Robertson B, Kennedy D, Milne A, Wetherell M. Chewing gum alleviates negative mood and reduces cortisol during acute laboratory psychological stress. Physiol Behav. 2009 Jun 22;97(3-4):304-12.
  20. Torney LK, Johnson AJ, Miles C. Chewing gum and impasse-induced self-reported stress. Appetite. 2009 Dec;53(3):414-7.
Veja também