Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
07 Set, 2020 - 09:54

Mel e infeções respiratórias: qual é a relação?

Nutricionista Hugo Canelas

O mel pode ajudar no alívio dos sintomas das infeções respiratórias. Tal deve-se ao facto de ser um agente anti-inflamatório, antioxidante e antibacteriano.

Mel e infeções respiratórias

O mel é amplamente utilizado quer pelas suas propriedades adoçantes, quer como agente anti-inflamatório, antioxidante e antibacteriano 1, 2 e, embora muitos dos benefícios que lhe são atribuídos sejam verdadeiramente questionáveis – cicatrização de feridas e fertilidade humana 3 –, a verdade é que o mel parece ajudar não no tratamento das infeções respiratórias, mas sim num dos seus sintomas, nomeadamente da tosse.

Os principais componentes nutricionais do mel – e razão para o seu potencial adoçante – são os hidratos de carbono na forma de monossacarídeos (frutose e glicose) e dissacarídeos (maltose, isomaltose, maltulose, sacarose e turanose).

Podem ainda ser encontrados vestígios de enzimas como a amílase, a peróxido oxidase, a catálase e a fosforilase, o que explica o uso deste alimento como agente terapêutico 3. Para além disso, o mel contém ainda aminoácidos livres, minerais, ferro, zinco e antioxidantes 4.

Mel e infeções respiratórias: que evidência existe?

Mulher a adoçar o chá com mel

Enquanto sintoma de doença, a tosse aguda é uma das principais queixas médicas, sendo bastante comum em crianças e frequentemente associada a outras causas patológicas. A sua origem depende muito da idade, bem como das condições meteorológicas e ambientais 3.

Independentemente disso, uma das principais causas de tosse são as infeções do trato respiratório superior, que afetam não só a qualidade de vida das crianças, mas também dos pais. Surpreendentemente, alguns dos fármacos disponíveis para o tratamento da tosse não são eficazes e podem ter efeitos secundários.

O volume de trabalhos que estudam o efeito do consumo de mel para a tosse aguda tem vindo a crescer e os seus resultados estão em concordância com as recomendações da Organização Mundial de Saúde em 2001 5.

De acordo com estes trabalhos, uma toma única de mel parece reduzir a inflamação da mucosa, diminuir a formação de muco e o número de episódios de tosse não só em crianças mas também em adultos.

Estes achados estão provavelmente associados aos seus efeitos antioxidantes e à sua capacidade para promover a libertação de citocinas com propriedades antimicrobianas 6. Comparemos, então, os efeitos do mel e de outros medicamentos de venda livre no tratamento da tosse.

Mel vs dextrometorfano

O dextrometorfano é um medicamento antitússico de venda livre. Em 2 estudos, ambos abordando a frequência e severidade da tosse, o mel não se revelou significativamente melhor do que o dextrometorfano na melhoria dos sintomas de tosse 7, 8 .

Mel vs difenidramina

A difenidramina é um anti-histamínico frequentemente utilizado no tratamento da tosse. Em 4 estudos analisados, o mel revelou-se significativamente superior à difenidramina na melhoria dos sintomas das infeções do trato respiratório superior, que incluíam frequência e severidade da tosse 7, 9, 10, 11 .

Mel e infeções respiratórias: quais são as limitações dos estudos?

Menina com gripe deitada na cama

O corpo de estudos existente mostra que o mel pode efetivamente melhorar os sintomas das infeções do trato respiratório superior, principalmente a severidade e frequência dos episódios 1.

Ao contrário dos antibióticos, o mel não apresenta efeitos secundários adversos e o seu consumo é seguro para a maioria da população acima dos 12 meses de idade 5.

No entanto, existem algumas limitações aos estudos realizados até ao momento, principalmente em indivíduos adultos. Um deles diz respeito à elevada variabilidade de diferentes intervenções utilizadas.

Grande parte dos estudos das meta-análises avaliam o efeito do mel puro, mas outros utilizaram formulações homeopáticas e mel combinado com leite e café, fazendo com que seja mais difícil estimar quanto desse efeito é devido ao mel e quanto é devido a qualquer um dos outros ingredientes.

De qualquer forma, e uma vez que os anti-histamínicos e outros fármacos não parecem ter efeitos significativos no tratamento da tosse aguda, o mel parece ser uma alternativa segura, em especial para as crianças. O efeito terapêutico do mel é conseguido em doses de 2,5 mL antes de deitar, para crianças 7.

Pode, todavia, haver risco de contaminação do produto com Clostridium botulinum pelo que esta recomendação apenas se aplica a crianças com mais de 1 ano de idade. Outros possíveis efeitos como insónia e hiperatividade devem ser mencionados aquando da recomendação 9.

Fontes

  1. Abuelgasim H, Albury C, Lee J. (2020). Effectiveness of honey for symptomatic relief in upper respiratory tract infections: a systematic review and meta-analysis. Disponível em: https://ebm.bmj.com/content/early/2020/07/28/bmjebm-2020-111336
  2. Noori S.Al.W., et.al. (2014). Effects of natural honey on polymicrobial culture of various human pathogens. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4042029/
  3. Meo, S. A., et.al. (2017). Role of honey in modern medicine. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5478293/
  4. Fatimah B., et.al. (2013). Analysis of biochemical composition of honey samples from North-East Nigeria. Disponível em: https://www.longdom.org/open-access/analysis-of-biochemical-composition-of-honey-samples-from-northeast-nigeria-2161-1009.1000139.pdf
  5. Department of Child and Adolescent Health. (2001). Cough and cold remedies for the treatment of acute respiratory infections in young children. Geneva, Switz: World Health Organization. Disponível em: http://whqlibdoc.who.int/hq/2001/WHO_FCH_CAH_01.02.pdf.
  6. Goldman, RD. (2014). Honey for the treatment of cough in children. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4264806/
  7. Shadkam MN, Mozaffari-Khosravi H, Mozayan MR. (2010). A comparison of the effect of honey, dextromethorphan, and diphenhydramine on nightly cough and sleep quality in children and their parents. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20618098/
  8. Paul IM, Beiler J, McMonagle A, et al. (2007). Effect of honey, dextromethorphan, and no treatment on nocturnal cough and sleep quality for coughing children and their parents. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/571638
  9. Ahmadi M, Moosavi SM, Zakeri S. (2013). Comparison of the effect of honey and diphenhydramine on cough alleviation in 2-5-year-old children with viral upper respiratory tract infection. Disponível em: https://www.semanticscholar.org/paper/COMPARISON-OF-THE-EFFECT-OF-HONEY-AND-ON-COUGH-IN-Ahmadi-Moosavi/a46cbac28057c43581508f3e41b5b3213f5b5d74
  10. Ayazi P, Mahyar A, Yousef-Zanjani M, et al. (2017). Comparison of the effect of two kinds of Iranian honey and diphenhydramine on nocturnal cough and the sleep quality in coughing children and their parents. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5245888/
  11. Gupta A, Gaikwad V, Kumar S, et al. (2016). Clinical validation of efficacy and safety of herbal cough formulation “Honitus syrup” for symptomatic relief of acute non-productive cough and throat irritation. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29491673/
Veja também