Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
04 Out, 2019 - 13:29

Os laticínios causam asma? Não, e explicamos porquê

Nutricionista Hugo Canelas

Há uma crença popular na medicina alternativa de que os laticínios causam asma. Porém, não há qualquer evidência científica desta relação.

Os laticínios causam asma? Não, e explicamos porquê
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Há uma crença popular na medicina alternativa de que os laticínios causam asma. Esta crença antiga – que pode ser rastreada até ao século XII – baseia-se no pressuposto de que o consumo de leite e derivados aumenta a produção de muco nos tratos respiratórios superior e inferior e que, por esta razão, estes produtos devem ser retirados da dieta. De qualquer forma, não existe explicação precisa para esta recomendação (1).

Laticínos causam Asma? Desmontando os conceitos

Lacticínios e asma

Independentemente da opinião popularizada pelas medicinas alternativas, os laticínios não causam asma. A verdade é que, quando também associada a uma alergia à proteína do leite, o consumo de leite e derivados pode piorar os sintomas da doença. Mas, vamos por partes.

O que é a Asma?

A asma é uma doença crónica caracterizada pela inflamação e hipereatividade das vias aéreas que afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo inteiro. Sendo uma doença tipicamente associada a respostas imunes exageradas, estas respostas são fortemente influenciadas pela exposição ambiental a determinados alergénios (3).

As dificuldades respiratórias causadas pela asma estão ligadas à inflamação e edema das vias aéreas, mas também produção exagerada de muco.

É uma doença que atinge tanto adultos como crianças, podendo ser potencialmente fatal. Os sintomas da asma incluem sibilos, falta de ar, tosse, sensação de aperto no peito e a presença de muco nos pulmões.

O tratamento da asma é médico, envolvendo a prescrição de broncodilatadores e esteroides de forma a aumentar o fluxo de ar nas vias e a diminuir o edema associado à reação imune exacerbada.

Muco

O muco é uma secreção que reveste a superfície na mucosa dos tratos respiratório e gastrointestinal, protegendo estas estruturas de uma série de agressões mecânicas, térmicas e químicas. É um produto das células epiteliais secretórias que consiste em água, mucinas e uma mistura de mucopolissacarídeos e glicoproteínas, lisozima, imunoglobulinas e leucócitos (2).

A medicina tradicional chinesa considera que o consumo de lácteos (exceto a manteiga) bem como chocolate, mel e outros adoçantes naturais aumentam o efeito humidificante em humanos, efeito esse que contribui para a espessura excessiva do muco.

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Uma vez que está documentado um aumento da produção de muco em doentes asmáticos, não é de admirar que se proponha uma relação entre laticínios e asma e que as recomendações das medicinas alternativas vão para a evicção de alimentos designados formadores de muco (1).

lacticínio causam asma

Laticínios causam asma? Há ou não uma relação causal?

Como referimos, os laticínios não causam asma. Associada a uma alergia à proteína do leite, o consumo de leite e derivados pode piorar os sintomas da doença, mas apenas neste caso em particular.

A asma e a alergia alimentar apresentam uma relação muito próxima, partilhando os mesmos fatores de risco como a alergia alimentar dos pais, eczema atópico e sensibilização ao alergénio.

Neste sentido, um ataque de asma pode sim ser provocado por um alergénio alimentar, independentemente de ser a proteína do leite ou outro alimento (4,5). Apenas neste sentido é que parece haver relação entre latícinios e asma.

A prova disso é que cerca de 45% das crianças asmáticas são também alérgicas ao leite ou a outros alimentos (4). O risco de asma em crianças que apresentem qualquer alergia alimentar é 4 vezes superior ao das crianças não alérgicas (5).

No entanto, o contrário também se verifica. Se não houver alergia à proteína do leite de vaca associada, a ingestão de produtos lácteos não irá despoletar sintomas de asma. Um estudo em crianças demonstra, inclusive, que o consumo de lacticínios está inversamente associado à prevalência dos sintomas da asma (6). Outro estudo mostra que a ingestão de leite por mulheres grávidas diminui o risco de asma, alergias e complicações alérgicas como o eczema nos bebés (7).

Laticínios causam asma: alergia à proteína do leite

lacticínios e asma

Define-se alergia alimentar como uma reação adversa aos alimentos ou constituintes alimentares (proteínas ou haptenos) mediada por mecanismos imunológicos (IgE). As reações ocorrem habitualmente imediatamente ou até 2 horas após a exposição, podendo variar de gravidade.Os sintomas são causados pela resposta específica do indivíduo e não pelo alimento em si.

A percentagem de pessoas com alergias alimentares é muito baixa. Cerca de 5% das crianças apresentam alergia à proteína do leite de vaca (8). Destas, cerca de 80% deixa de ser alérgica durante a infância ou adolescência (9).

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Os sintomas de qualquer alergia alimentar incluem reações respiratórias, gástricas e cutâneas, o que pode explicar em parte o frenesim associado à relação entre laticínios e asma. Reações como sibilos, tosse, falta de ar e edema das vias respiratórias são transversais às duas doenças mas, no caso da alergia, incluem também vómitos, diarreia, cãibras abdominais e urticária. Nos casos mais graves, a reação alérgica pode causar anafilaxia, uma condição potencialmente fatal.

Em caso de alergia alimentar, e embora possa haver um papel terapêutico na indução de tolerância oral específica (SOTI) na gestão dos sintomas, a verdade é que a evicção alimentar é a única forma de tratamento comprovada.

Ao contrário da maior parte das intolerâncias alimentares, que permite a ingestão de quantidades reduzidas do alimento agressor, as alergias/hipersensibilidades alimentares não.

Produtos como bebidas energéticas, enlatados, embutidos, pastilhas elásticas e mesmo alguns medicamentos podem causar ataques de asma. Consulte-se com o seu médico ou nutricionista antes de iniciar qualquer padrão de evicção alimentar de forma a não correr o risco de possíveis carências nutricionais.

Conclusão

A asma pode ser uma doença fatal. No entanto, nada aponta para que haja relação entre os laticínios e asma, a menos que haja uma alergia ao leite de vaca associada. Uma vez que a prevalência de alergias alimentares na idade adulta é muito baixa, dificilmente um asmático terá sintomas após a ingestão de produtos lácteos.

Na verdade, pessoas que excluem os lacticínios da sua dieta perdem também uma importante fonte de proteína de alto valor biológico e de cálcio, incorrendo em todos os riscos que essas carências acarretam.

Nas medicinas alternativas é muito comum ouvir-se a recomendação para a não ingestão de lácteos e, no caso da asma, essa crença está associada ao aumento da produção e viscosidade de muco nas vias respiratórias. No entanto, está demonstrado que o consumo de laticínios não altera significativamente a função pulmonar, podendo, inclusive, melhorar os sintomas da asma e, se for consumido na gravidez, pode prevenir o seu aparecimento nas crianças.

Em suma:

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  • A sensação associada à produção de muco não é específica ao leite de vaca, dependendo muito mais das características físicas de algumas bebidas do que da origem delas;
  • Em casos raros, os sintomas de asma podem ser despoletados, mas apenas quando há confirmação de alergia à proteína do leite de vaca;
  • Limitar o consumo de laticínios sem que haja confirmação de alergia à proteína do leite de vaca pode conduzir ao aporte inadequado de vários nutrientes incluindo o cálcio;
  • Começam a ser frequentes os casos de carência nutricional em crianças associado à substituição do leite por bebidas vegetais, com destaque para o aumento da incidência de raquitismo, kwashiorkor e escorbuto, para além da diminuição da estatura média em crianças (10).

Aconselhe-se com o seu médico ou nutricionista antes de eliminar qualquer alimento da sua dieta – ou da dos seus filhos – acreditando na crença antiga de que há relação entre os laticínios e asma.

Veja também:

Fontes

1. Wüthrich, B., Schmid, A., Walther, B., & Sieber, R. (2005). Milk Consumption Does Not Lead to Mucus Production or Occurrence of Asthma. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16373954 
2. Silberberg A, Meyer FA. (1982). Structure and function of mucus. Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-1-4615-9254-9_6
3. Pivniouk, V., et.al. (2019). The role of innate immunity in asthma development and protection: lessons from the environment. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31581343
4. Caffarelli, C., et.al. (2016). Asthma and Food Allergy in Children: Is There a Connection or Interaction? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4821099/
5. Kewalramani, A., Bollinger, A.E. (2010). The impact of food allergy on asthma. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3047906/
6. Hallit, S., et.al. (2017). Correlation of types of food and asthma diagnosis in childhood: A case–control study.. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28925766 
7. Bunyavanich, S., et.al. (2014). Peanut, milk, and wheat intake during pregnancy is associated with reduced allergy and asthma in children. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24522094
8. Venter, C., et.al. (2013). Diagnosis and management of non-IgE-mediated cow’s milk allergy in infancy – a UK primary care practical guide. Disponível em: https://ctajournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/2045-7022-3-23
9. Milk & Dairy Allergy (n.d.) (2019). Disponível em: https://acaai.org/allergies/types-allergies/food-allergy/types-food-allergy/milk-dairy-allergy
10. Bebidas vegetais – uma boa alternativa ao leite? (2019). Disponível em: https://pensarnutricao.pt/bebidas-vegetais-alternativa-leite/