Mónica Carvalho
Mónica Carvalho
03 Nov, 2020 - 18:34

Maus hábitos alimentares tiram anos de vida aos portugueses

Mónica Carvalho

A conclusão é apresentada no relatório anual do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS).

Maus hábitos alimentares

Excessivo consumo de carne, baixo consumo de cereais integrais e elevado consumo de sal são os hábitos alimentares inadequados que mais contribuem para a perda de anos de vida saudável pelos portugueses.

Esta questão reflete-se num aumento das doenças do aparelho circulatório, diabetes, doenças renais e neoplasias.

Estes dados integram o estudo Global Burden Disease de 2019 e são apresentados pela primeira vez no relatório anual do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), publicado pela Direção-Geral da Saúde (DGS). Veja as conclusões das principais áreas.

Mais de metade dos portugueses tem excesso de peso

mulher a medir gordura abdominal

Apesar de a obesidade afetar mais de 22% da população nacional (cerca de 1,5 milhões de pessoas), nos utentes dos Cuidados de Saúde Primários, o seu registo ainda é bastante inferior. Anda assim há uma crescente proporção de utentes com registos de pré-obesidade e obesidade nos Cuidados de Saúde Primários, atingindo os 16,7% e os 11,9% a nível nacional em 2019, respetivamente, especialmente na zona Norte e Lisboa e Vale do Tejo.

Na população adulta portuguesa 53,6% apresenta excesso de peso, sendo o estado de pré-obesidade mais evidente em indivíduos do sexo masculino (42,2% vs 31,9%) e a obesidade nos indivíduos do sexo feminino (17,4 vs 16,4%).

Acompanhamento nutricional

Quanto à melhoria da prestação de cuidados nutricionais, principalmente nos hospitais, a maioria das unidades do SNS (68,3%) tem atualmente o rastreio do risco nutricional implementado.

Após a entrada em vigor de um despacho legal, que determinou a identificação do risco nutricional a todos os doentes hospitalizados, tem-se verificado um aumento do número de doentes hospitalizados que são submetidos ao rastreio, o que permite identificar mais facilmente necessidades dos utentes.

Por grupos etários, é no grupo dos idosos, dos 65-79 anos e 80 ou mais anos, que se verifica um maior número de doentes saídos com registo de “Desnutrição”, sendo este ainda mais prevalente no sexo masculino no grupo etário 65-79 anos e no sexo feminino no grupo etário 80 ou +anos.

Desnutrição no idosa: idosa sentada numa mesa a olhar pela janela
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Alimentação em tempos de COVID-19

Snacking: taças com snacks

A COVID-19 veio alterar para pior a alimentação dos portugueses, visto que quase metade da população inquirida (45,1%) reportou ter mudado os seus hábitos alimentares durante este período e 41,8% tem a perceção de que mudou para pior.

As razões para tal relacionam-se com o confinamento que levou a alterações no horário de trabalho (17,6%) e no modelo de compras dos alimentos (34,3%).

Um segundo conjunto de razões está associado ao stress vivido (18,6%) e a mudanças no próprio apetite (19,3%).

Um terceiro eixo de explicação, aparece associado ao receio com a própria situação económica (10,3%).

Nesse sentido, um em cada três portugueses (33,2%) manifestou preocupação quanto a uma possível dificuldade no acesso aos alimentos e 8% indicou mesmo estar já com dificuldades económicas no acesso a alimentos.

Publicidade de alimentos na televisão

Menina a ver televisão

No contexto da entrada em vigor da lei em 2016, que introduz restrições à publicidade alimentar dirigida a menores, o relatório confirma que os canais infantis não apresentam atualmente publicidade a alimentos.

Porém, cerca de 10,4% dos anúncios publicitários nos canais de televisão generalistas são relativos a alimentos. Desses, 65,6% dos alimentos que são publicitados não cumprem o perfil nutricional definido pela DGS e 18,6% dos anúncios a alimentos ainda apresentam conteúdo dirigido a crianças.

Ainda assim registou-se uma diminuição de 27,1% comparando com o relatório de 2008 e Portugal destaca-se ainda no panorama europeu: o país regista uma menor percentagem de publicidade a alimentos na TV.

Do total de anúncios alimentares analisados, as categorias de alimentos publicitadas nos anúncios dirigidos a crianças que mais se destacam são os chocolates e outros produtos de confeitaria e a categoria dos bolos, bolachas e outros produtos de pastelaria (38,3% e 32,7%, respetivamente).

No que diz respeito à caracterização dos géneros alimentícios, verificou- se que cerca de 93,5% não cumpria o perfil nutricional definido pela DGS.

Metas de saúde do PNPAS a 2020 e respetivos resultados

Metas de saúde a 2020 do PNPAS

Confira ainda as metas que o PNPAS se propôs alcançar até 2020 e qual o sucesso dessas mesmas medidas.

1

Controlar a prevalência de excesso de peso e obesidade na população infantil e escolar, limitando o crescimento a zero

Entre 2008 e 2019, Portugal tem vindo a apresentar consistentemente um decréscimo da prevalência de excesso de peso e obesidade infantil. Houve uma redução de 22% tanto na prevalência de excesso peso infantil, de 37,9% para 29,6%, como na obesidade infantil, de 15,3% para 12,0%.

2

Reduzir em 10% a média da quantidade de sal

Reduzir em 10% a média da quantidade de sal presente nos principais fornecedores alimentares de sal à população – esta medida continuará em vigor até 2022.

3

Reduzir em 10% a média da quantidade de açúcar presente nos principais fornecedores alimentares à população

Relativamente às bebidas açucaradas, estima-se que entre 2016 e 2020 o teor de açúcar tenha sofrido uma diminuição de 17%.

No que diz respeito à gramagem dos pacotes individuais de açúcar, entre 2016 e 2020, verificou-se, igualmente, uma redução do seu peso líquido de açúcar em quase 50%. Para as restantes categorias de produtos alimentares, o prazo de cumprimento das metas definidas alargou-se até 2022.

4

Reduzir a quantidade de ácidos gordos trans para menos de 2% no total das gorduras disponibilizados

O conteúdo em gordura trans presente na gordura total é de, em média, 1,9%. Apesar disso, verificou-se que alguns produtos alimentares disponíveis para consumo em Portugal, nomeadamente nos produtos de pastelaria local, bolachas e biscoitos importados, têm teores de ácidos gordos trans superiores a 2%.

5

Aumentar o número de pessoas que consome fruta e hortícolas diariamente em 5%

Esta é uma área pouco clara do PNPAS, visto que os dados relativos à frequência de consumo de fruta e hortícolas entre os três inquéritos nacionais de saúde aqui abrangidos não são diretamente comparáveis.

Em 2014, o consumo de fruta abrangia os sumos naturais de fruta fresca ou congelada e o consumo de hortícolas englobava as sopas e sumos naturais, o que não se verificou no INS 2019. Relativamente aos dados do INSEF 2015/2016, o consumo de fruta exclui os sumos e o consumo de hortícolas inclui a sopa.

6

Aumentar o número de pessoas que conhece os princípios da dieta mediterrânica em 20%

Entre 2013 e 2020 verificou-se um ligeiro decréscimo, de 1%, de pessoas que conhece a Dieta Mediterrânica.

Fontes

  1. Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável 2020. Disponível em: https://nutrimento.pt/activeapp/wp-content/uploads/2020/10/Relato%CC%81rio_PNPAS_2020.pdf
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