Psicóloga Ana Graça
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02 Mar, 2020 - 06:30

Enurese noturna: o que fazer quando a criança faz xixi na cama?

Psicóloga Ana Graça

É estimado que cerca de 20% das crianças aos 5 anos têm enurese noturna, o que mostra a relevância de saber um pouco mais sobre esta problemática.

Menino a dormir

enurese noturna é uma das alterações do desenvolvimento mais comuns na infância e pode ser responsável por significativos problemas emocionais, psicológicos e sociais na criança, pelo que importa conhecê-la em detalhe.

ENURESE: O QUE É?

Enurese noturna: menino envergonhado a esconder-se atrás da porta

Entende-se por enurese a emissão repetida de urina na cama ou nas roupas, involuntária ou intencional. Este comportamento é clinicamente significativo quando se manifesta de forma frequente (pelo menos 2 episódios semanais durante pelo menos 3 meses consecutivos) ou quando é causador de grande mal-estar, afetando importantes áreas do funcionamento diário da criança.

Podemos encontrar diferentes tipologias de enurese:

  1. Enurese só noturna (eliminação de urina apenas durante o sono noturno).
  2. Enurese só diurna (eliminação de urina durante as horas de vigília).
  3. Enurese noturna e diurna (uma combinação dos 2 subtipos anteriormente descritos).

COMPREENDER A ENURESE NOTURNA

A enurese noturna primária é habitualmente descrita como perda involuntária de urina durante o sono, na ausência de doença orgânica, em crianças com pelo menos 5 anos de idade. Já a enurese noturna secundária diz respeito às situações em que as crianças que apresentam enurese já estiveram previamente pelo menos 6 meses consecutivos sem molhar a cama (1).

A enurese noturna pode ser monossintomática, quando ocorre na ausência de quaisquer sintomas do trato urinário baixo, ou não monossintomática, quando estão presentes sintomas como urgência miccional ou manobras de retenção e/ou incontinência urinária diurna (2).

Enurese noturna: rapaz a dormir

Causas e fatores de risco da enurese noturna

Não existe uma causa única para a enurese noturna, pelo contrário, são vários os fatores que podem contribuir para o surgimento da mesma, nomeadamente problemas genéticos, neurológicos, urológicos, metabólicos, psicológicos ou perturbações do sono (3).

Alguns dos fatores de risco mais commumente descritos são:

  • Ser do sexo masculino
  • História familiar de enurese
  • Obstipação
  • Encoprese
  • Sono pesado
  • Baixo peso ao nascimento
  • Baixo estatuto socioeconómico do agregado familiar
  • Baixo grau de escolaridade dos pais
  • Infeções recorrentes do trato urinário
  • Stress (1)

Consequências emocionais da enurese noturna

A enurese noturna é uma das alterações do desenvolvimento mais frequentes na criança que, apesar de muitas vezes ter resolução espontânea com o crescimento, pode ser responsável por problemas emocionais e sociais na criança e na sua família, pelo que pode requerer atenção e acompanhamento especializado.

Algumas das consequências emocionais que a investigação tem vindo a mostrar estarem associadas à presença de enurese noturna são:

  • Baixa autoestima
  • Isolamento social
  • Alto nível de stress relacionado a preocupação da criança que os demais descubram o problema e a ridicularizem
  • Sentimentos como culpa e vergonha
  • Problemas de comportamento
  • Retraimento
  • Dificuldade em fazer e manter amigos (4)

As consequências negativas da enurese noturna podem também estender-se à família, nomeadamente custos financeiros e de tempo associados à limpeza e aquisição de colchões, roupas pessoais e de cama.

O QUE FAZER QUANDO A CRIANÇA FAZ XIXI NA CAMA?

Enurese noturna: criança no médico

Sendo a enurese noturna relativamente comum e podendo acarretar consequências emocionais sérias para a criança, interferindo e limitando o seu dia-a-dia (por exemplo, limitando a dormida na casa dos amigos por vergonha de molhar a cama), importa procurar ajuda desde logo.

Inicialmente, os pais podem e devem procurar o médico de família do sentido de obter uma correta avaliação médica da problemática e discutir o posterior encaminhamento para uma ajuda mais especializada, de acordo com a causa subjacente.

Algumas das primeiras medidas que as família podem adotar passam por:

  1. Instituir medidas antienuréticas (insistir na micção ao deitar e no reforço hídrico diurno com restrição nas horas prévias ao deitar).
  2. Implementar a utilização de um calendário de registo de noites secas e molhadas, com premiação das noites secas.
  3. Favorecer o uso de proteção de cama e produtos laváveis/descartáveis, na medida em que o uso de fralda pode ter um efeito regressivo.
  4. Incentivar a criança a assumir responsabilidade não pelo problema em si, mas sim pela sua resolução. Sempre que se mostre adequado, a criança pode colaborar com a família na troca e lavagem do pijama e das roupas de cama (5)
  5. Procurar ajuda especializada sempre que estas medidas não se mostrem suficientes para a resolução da enurese noturna.

Fontes

  1. Bandeira A, Barreira JL, Matos P. Prevalência da enurese nocturna em crianças em idade escolar na zona Norte de Portugal;. Nascer e crescer, revista do hospital de crianças maria pia. 2007;vol XVI, n.º 2. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/277048887_Prevalencia_da_enurese_nocturna_em_criancas_em_idade_escolar_na_zona_Norte_de_Portugal
  2. Butler RJ, Golding J, Northstone K. Nocturnal enuresis at 7.5 years old: prevalence and analysis of clinical signs. BJU international. 2005 Aug;96(3):404-10. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1464-410X.2005.05640.x
  3. Culbert TP, Banez GA. Wetting the bed: integrative approaches to nocturnal enuresis. Explore (New York, NY). 2008 May-Jun;4(3):215-20. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S155083070800092X?via%3Dihub
  4. Theunis, M., Van Hoecke, E., Paesbrugge, S., Hoebeke, P., & Vande, W. J. (2002) Self-image and performance in children with nocturnal enuresis. European Urology, 41, 660–667. Disponível em: https://www.europeanurology.com/article/S0302-2838(02)00127-6/fulltext
  5. Nevéus T, von Gontard A, Hoebeke P, Hjälmås K, Bauer S, Bower W, et al. The standardization of terminology of lower urinary tract function in children and adolescents: report from the Standardisation Committee of the International Children’s Continence Society.J Urol. 2006;176(1):314-24. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/7030430_The_Standardization_of_Terminology_of_Lower_Urinary_Tract_Function_in_Children_and_Adolescents_Update_Report_from_the_Standardization_Committee_of_the_International_Children’s_Continence_Society
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