Psicóloga Ana Graça
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26 Fev, 2020 - 10:48

Encoprese infantil: causas, consequências e tratamento

Psicóloga Ana Graça

A encoprese, mais frequente nos rapazes, é a eliminação involuntária ou voluntária de fezes em locais inapropriados, em crianças de pelo menos 4 anos.

Encoprese: mãe a cuidar do filho

Os transtornos de eliminação dizem respeito à eliminação inapropriada de urina ou fezes e são habitualmente diagnosticados pela primeira vez na infância ou na adolescência. Esse grupo de transtornos inclui a enurese (eliminação repetida de urina em locais inapropriados) e a encoprese (eliminação repetida de fezes em locais inapropriados).

A aquisição do controlo esfincteriano

Criança com síndrome de Aperger a olhar pela janela

Apesar de nos primeiros meses de vida a criança não dominar o controlo intestinal, é desejável que com o avançar do desenvolvimento tal venha a acontecer, quer de noite, quer de dia.

Na aquisição do controlo esfincteriano estão envolvidos fatores neurofisiológicos (quando o reflexo automático se transforma num comportamento voluntário controlado), mas também fatores culturais e relacionais, na medida em que o controlo dos esfíncteres e a aprendizagem dos hábitos de higiene são muito valorizados por todos os adultos que rodeiam a criança.

Mais ainda, esta importante aquisição implica não só a essencial maturidade fisiológica mas também requer o adequado desenvolvimento cognitivo, afetivo e comportamental.

É relativamente consensual que a melhor altura para iniciar o treino do controlo esfincteriano é por volta dos 2 anos de idade, no entanto, tal é variável de criança para criança. As principais dificuldades sentidas pelos pais nesta fase tendem a ser transitórias e tendem a estar ultrapassadas antes dos 4 anos de idade.

Infelizmente, nem todas as crianças fazem esta aquisição com sucesso, no devido tempo, o que pode acarretar um impacto profundamente negativo no desenvolvimento da criança.

Compreender a encoprese

A interação entre a fisiologia e as respostas comportamentais necessárias para um controlo esfincteriano adequado nem sempre corre da melhor forma e, por vezes, pode estar comprometida.

Estamos perante uma situação de encoprese quando a eliminação intestinal de fezes acontece em locais inapropriados, como por exemplo na roupa ou chão, na ausência de patologia orgânica que o justifique, e quando ocorre depois dos quatro anos de idade (ou nível de desenvolvimento equivalente) (1).

A encoprese, mais comum de ocorrer durante o dia do que à noite (2), pode apresentar diferentes tipologias:

  1. Encoprese retentiva: quando se verifica uma excessiva retenção de matéria fecal, sendo acompanhada de obstipação e hiperfluxo. Na encoprese retentiva, fezes líquidas ou semiformadas atravessam o reto cheio de fezes duras e secas, sendo libertadas sem que a criança se aperceba.
  2. Encoprese não retentiva: quando há uma expulsão incontrolável de fezes que se acumulam no cólon ou no reto em quantidades anormais, sem obstipação ou hiperfluxo.

Diferentes crianças manifestam a encoprese de diferentes formas. Algumas crianças isolam-se e adquirem uma postura semelhante à das crianças que vão à casa de banho, enquanto outras expulsam as fezes sem interromper as atividades que estão a realizar, havendo ainda outras que deixam as fezes sair no caminho para a casa de banho.

Também a reação aos episódios de encoprese variam de criança para criança. Se por um lado algumas crianças manifestam indiferença, outras adotam comportamento de dissimulação e vergonha.

Quais as causas da encoprese?

Encoprese: criança com dores de barriga

Sendo a encoprese tão complexa e multidimensional, são muitas as variáveis que a podem influenciar, desde fatores biológicos, emocionais, de aprendizagem ou até dietas alimentares:

  • Fatores biológicos: vulnerabilidade genética; megacólon congénito; anomalias anoretais (3)
  • Fatores emocionais: alterações na organização familiar; atrasos de desenvolvimento; residir num ambiente familiar caótico; treino do controlo de esfíncteres precoce, com interrupções, coercivo ou intrusivo; acontecimentos de vida stressantes (3).

Assim sendo, quando uma causa orgânica não está presente, a existência de encoprese pode indiciar a presença de problemas de ordem emocional, sendo importante que a criança e a família procurem ajuda especializada.

Consequências negativas e tratamento da encoprese

A investigação tem vindo a mostrar que a encoprese está muitas vezes associada a perturbações psicológicas e psiquiátricas, sendo que são elevados os níveis de problemas emocionais e comportamentais relatados pelos pais de crianças com encoprese, quando comparados com pais de criança sem encoprese (2).

De forma geral, crianças com encoprese tendem a ser mais passivas, ansiosas, inseguras, menos tolerantes às exigências e menos capazes de controlar a agressividade, podendo também apresentar baixa autoestima e uma autoconceito negativo (4). Estas características não se tornam difíceis de compreender, na medida em que a encoprese naturalmente causa desconforto, angústia e zanga na criança.

Torna-se assim evidente que a encoprese pode afetar largamente o bem-estar e a qualidade de vida das crianças, interferindo com a relação familiar, a interação com os pares e a integração na escola. Estas crianças são não raras vezes marginalizadas e excluídas pelos pares e impedidas de realizar certas atividades (5).

Em suma, perante uma situação de encoprese é importante que tenha lugar uma avaliação médica e psicológica, no sentido de apurar as causas do problema. Posteriormente, uma intervenção combinada destas duas áreas é habitualmente suficiente para assegurar a resolução do problema.

Fontes

  1. Doleys, D. M. (1983). Enuresis and encopresis. In T. H. Ollendick & M. Hersen (Eds.), Handbook of child psychopathology (pp. 201-226). New York: Plenum Press.
  2. Hoghughi, M. (2004). Parenting – An introduction. In M. Hoghughi & N. Long (Eds.). Handbook of parenting: Theory and research for practice (pp 1- 18). London: SAGE.
  3. Carr, A. (1999). The handbook of child and adolescent clinical psychology: A contextual approach. London: Routledge.
  4. Joinson, C., Heron, J., Butler, U., Von Gontard A., & The Avon Longitudinal Study of Parents and Children Study Team (2006). Psychological differences between children with and without soiling problems. Pediatrics, 117, 1575-1584.
  5. Costa, N. J. D., & Silvares, E. F. (2003). Enurese na adolescência: Estudo de caso com intervenção comportamental. Interacção em Psicologia, 7, 9-17. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/psicologia/article/view/3202/2564
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