Dr. Rafael de Castro Nobre
Dr. Rafael de Castro Nobre
13 Out, 2020 - 11:26

Dismorfia do Snapchat: como as redes sociais estão a influenciar a autoestima e as cirurgias estéticas

Dr. Rafael de Castro Nobre

A partilha de selfies nas redes sociais e a facilidade com que podem ser editadas está a influenciar padrões de beleza e a aumentar a procura por cirurgias pouco realistas.

Dismorfia do Snapchat

Vivemos numa era de selfies, imagens editadas e padrões de beleza em constante evolução. A popularidade das redes sociais baseadas essencialmente na imagem levou a um uso cada vez mais frequente e por vezes desenfreado dos filtros fotográficos e da edição de fotografias para que estas se tornassem mais apelativas e atraentes.

Consequentemente, temos assistido a uma alteração a nível mundial sobre o que são considerados os parâmetros gerais de beleza e harmonia.

A facilidade de criação de conteúdo alterado e o aumento descontrolado de partilha de imagens editadas como se fossem autênticas tem trazido consequências vastas. Hoje, é difícil distinguir o que é verdadeiro do que é manipulado. Os efeitos desta nova realidade manifestam-se com a diminuição de autoestima e dificuldade em aceitar o próprio corpo, e pode até atuar como precursor da Dismorfia do Snapchat.

Dismorfia do Snapchat: qual o contexto em causa?

Mulher a tirar selfie

Alguns deslizes no Snapchat podem adicionar à sua selfie uma coroa de flores ou umas orelhas de cão. Um pequeno ajuste no Facetune pode suavizar a pele e fazer com que os dentes pareçam mais brancos, os olhos mais rasgados, o nariz direito e os lábios mais carnudos. Segue-se uma partilha rápida no Instagram e os likes e comentários começam de imediato a aparecer.

Antigamente a tecnologia de edição de fotos era complexa e apenas exequível por profissionais experientes. Era usada essencialmente para se efetuarem alguns retoques em fotografias de celebridades, modelos e atores, para revistas e anúncios, onde a estética e o padrão de beleza eram imperativos, uma vez que estas imagens constituíam o modelo de perfeição a seguir para o público em geral.

Assim sendo, as pessoas idolatravam o padrão de beleza presente nos media, embora a maioria estivesse ciente da edição e das alterações necessárias para fazer as celebridades parecerem perfeitas.

Atualmente, com aplicações como Snapchat, Facetune e Instagram, as edições fotográficas e a semelhança com o modelo de perfeição está facilitada e mais acessível a todos nós. Já não são apenas as celebridades que exibem o padrão de beleza – é também um colega de turma, de trabalho ou uma amiga – seja ele 100% original ou ligeiramente retocado digitalmente.

Antes muitas pessoas pediam o nariz da Meghan Markle ou os lábios da Kylie Jenner ou da Angelina Jolie. Agora, quando recorrem a Cirurgiões Estéticos, mostram as suas selfies editadas e imagens com filtros e usam-nas como exemplo de como querem ficar.

O que é a Dismorfia do Snapchat?

Mulher a navegar nas redes sociais

Quem sofre com a Dismorfia do Snapchat ou Perturbação Dismórfica Corporal (PDC) possui uma preocupação extrema com a aparência e tem tendência a negligenciar as suas características, segundo a, Anxiety and Depression Association of America (1).

A maioria de nós tem algo que não gosta no seu corpo – um nariz torto, rugas na testa, um sorriso irregular ou olhos muito afastados. E embora possamos preocupar-nos com as nossas imperfeições, elas não interferem radicalmente no nosso quotidiano diário.

Por oposição, as pessoas que têm Pertubação Dismórfica Corporal sofrem de obsessões com a sua aparência e pensam constantemente sobre as suas imperfeições físicas. Os seus pensamentos são autocríticos e depreciativos e não acreditam noutras pessoas quando estas lhes dizem que a sua aparência é favorável.

Os seus pensamentos podem causar graves perturbações emocionais, sofrimento e ansiedade e interferir drasticamente na sua rotina diária, levando-as a faltar ao trabalho ou à escola, evitar situações sociais e provocar o isolamento, até mesmo da família e dos amigos, por temerem que outras pessoas percebam as suas imperfeições.

Quem sofre de PDC pode apresentar alguns comportamentos compulsivos ou repetitivos para tentar camuflar as suas falhas, embora esses comportamentos geralmente proporcionem apenas um alívio temporário.

Na busca por tentar corrigir efetivamente as suas imperfeições, estes indivíduos recorrem a inúmeros procedimentos estéticos. Desde pequenos tratamentos até grandes cirurgias estéticas, a busca por alterar a própria aparência em função de um ideal de beleza tem atingido um considerável número de pessoas, especialmente adolescentes e adultos jovens e afeta tanto homens como mulheres (2).

Com essas alterações, os doentes podem até encontrar uma satisfação temporária, mas, em geral, a ansiedade regressa e a pessoa retoma a sua procura para corrigir outras falhas. Assim, estes comportamentos estão associados a um visível aumento de procura por Cirurgiões Estéticos nos nossos dias.

O que mostram os estudos?

Mulher a tirar selfies após cirurgia estética

Esta perturbação de comportamento que se tem desenvolvido velozmente nos últimos anos tem conduzido diversas investigações com resultados interessantes.

Um estudo recente realizado na Austrália analisou o efeito das selfies editadas na insatisfação corporal entre a população adolescente e concluiu que os jovens que mais editavam as suas fotos demonstravam um maior nível de preocupação com os seus corpos e valorizavam excessivamente a sua forma e peso corporal (3).

Este estudo também referiu que as pessoas com uma imagem corporal dismórfica tendem a procurar as redes sociais como um meio de validar a sua
atratividade.

Por último, as pessoas com nível mais alto de interação nas redes socias – incluindo-se aqui também as que tentam ativamente apresentar uma imagem específica de si mesmas ou analisar e comentar as fotos de outras pessoas – parecem ter um maior nível de insatisfação perante o seu próprio corpo.

Num outro artigo, publicado no JAMA Facial Plastic Surgery, é referido que o uso das redes sociais está a alimentar a chamada “Dismorfia do Snapchat” (4).

Conclui-se que as edições e os filtros de fotografias estão a alterar a percepção que as pessoas têm de si próprias, a nível mundial e de uma forma perigosa, o que alimenta as tendências deste transtorno.

Uma investigação feita pela Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, EUA concluiu que cerca de 15% dos pacientes que procuram cirurgia estética sofrem de PDC (5).

Muitas vezes, os pacientes quando vão a consulta com o seu Cirurgião Estético preferem referir as suas imperfeições recorrendo a fotografias em vez de utilizarem o espelho ou as apontarem no próprio corpo.

De acordo com este estudo, estes pacientes geralmente pedem alterações e resultados “extremos e irreais”. Os pedidos mais comuns entre estes pacientes são procedimentos para ficarem com olhos demasiado rasgados e lábios superdimensionados, linhas de mandíbula acentuadas e estreitas, nariz refinado e pele impecável sem qualquer imperfeição. Muitos destes pacientes parecem não saber distinguir ou não se importar com o facto de que o objetivo que estão à procura possa parecer caricatural e pouco realista.

Se, por um lado, com o incremento das redes sociais as pessoas estão mais atentas às suas imperfeições, por outro lado, a cirurgia estética está mais disponível e aceite pela sociedade. Deste modo, as pessoas estão mais confortáveis em solicitar este tipo de procedimentos para alterar o seu corpo.

O Botox e preenchimentos como Ácido Hialurónico estão a crescer em popularidade, assim como mamoplastia, lipoaspiração, abdominoplastia, rinoplastia ou facelift.

Com base nas tendências globais verificou-se que, nos últimos 4 anos, o número de procedimentos de injeção anti-rugas (incluindo Botox) aumentou 63%, o número de preenchimentos faciais 22% e tratamentos de pele a laser aumentou cerca de 10%.

Segundo a Academia Americana de Cirurgia Plástica Facial, no último ano, 55% dos cirurgiões estéticos afirmavam já ter recebido pacientes que desejavam realizar cirurgias com o objetivo de parecerem mais atraentes em selfies, enquanto que no ano anterior essa percentagem era de 40%.

Tratamentos

Com a tendência crescente para procedimentos e cirurgias estéticas, é muito importante o médico e cirurgião estarem atentos a esta perturbação.

Para obter um diagnóstico preciso e um tratamento adequado, estes doentes devem começar por procurar ou ser encaminhados, para um Médico Psiquiatra, o profissional mais qualificado para tratar a saúde mental, e aí mencionar especificamente suas preocupações com a sua aparência. É muito importante saber que há tratamentos eficazes disponíveis para ajudar quem sofre de PDC a viver uma vida plena e produtiva.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) ensina os pacientes a reconhecer pensamentos irrealistas e mudar padrões de pensamento negativos. Os pacientes aprendem a identificar formas não saudáveis de pensar e de se comportar e a substituí-las por formas mais positivas.

Medicamentos antidepressivos, incluindo Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (SSRIs), podem ajudar a aliviar os sintomas obsessivos e compulsivos da PDC, mas deverão ser tomados apenas após avaliação e prescrição médica. Muitos médicos recomendam a combinação de tratamentos para obter melhores resultados.

Assim, o tratamento é feito individualmente para cada paciente, e por isso é importante conversar com um médico para determinar a melhor abordagem individual.

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