Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
09 Mar, 2020 - 06:15

Dieta escandinava e dieta mediterrânica: principais diferenças

Nutricionista Hugo Canelas

A dieta escandinava baseia-se em alimentos locais dos países nórdicos como a Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Islândia.

Variedade de alimentos da dieta escandinava

A dieta escandinava incorpora alimentos habitualmente ingeridos pelos povos dos países nórdicos. Vários estudos mostram que esta dieta pode contribuir para a perda de peso e para a melhoria dos marcadores de saúde, pelo menos a curto prazo (12).

Por outro lado, a dieta mediterrânica tem a reputação de ser um dos padrões alimentares mais equilibrados e saudáveis à nossa disposição. Pelo facto de ser um padrão flexível quanto à escolha dos alimentos, é rica em alimentos saborosos e está comprovadamente ligada a benefícios como a perda de peso.

Neste artigo revemos a dieta escandinava, incluindo os alimentos a ingerir e a evitar, os potenciais benefícios para a saúde e comparamo-la com a dieta mediterrânica.

O que é a dieta escandinava?

Óleo de colza característico da dieta escandinava

A dieta escandinava baseia-se em alimentos locais dos países nórdicos como a Noruega, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Islândia.

Foi criada em 2004 por um grupo de nutricionistas, pesquisadores e chefs como forma a dar resposta às crescentes taxas de obesidade e práticas de agricultura insustentável que se verificavam nos países nórdicos.

Uma vez que dá enfase a alimentos locais e de agricultura sustentável, a dieta escandinava pode ser uma boa escolha de um ponto de vista ambiental.

Comparativamente ao padrão alimentar ocidental, esta dieta apresenta valores médios de açúcar e gordura bastante inferiores, e dobra o teor de fibra e pescado (3).

Dieta escandinava: é melhor do que a dieta mediterrânica?

No fundo, a dieta escandinava é bastante similar à dieta mediterrânica. Ambas incentivam a ingestão de peixe fresco, vegetais, frutas e cereais integrais e limitam o consumo de carnes vermelhas, produtos lácteos e alimentos processados.

A principal diferença entre as duas dietas está na fonte de gordura. Enquanto a dieta mediterrânica sugere o consumo de azeite, a escandinava promove o consumo de óleo de colza.

Uma vez que é um produto mais refinado e com maior teor de ómega-6, o óleo de colza pode ter um impacto negativo na saúde.

Grande parte dos estudos envolvendo este óleo, o potencial inflamatório e os efeitos na memória foram realizados em ratos mas, em 2018, foi relatado que os adultos obesos que habitualmente consomem óleo de colza apresentam um risco superior de síndrome metabólica do que os que não usam este produto (4).

A síndrome metabólica é um grupo de condições – açúcar elevado, excesso de gordura abdominal, pressão arterial alta e níveis de colesterol e triglicerídeos elevados – que aumentam o risco de doença cardiovascular.

Os resultados do estudo de 2018 contrastaram com os estudos financiados pela indústria, que associaram o consumo de óleo de colza a um menor risco cardiovascular, incluindo a diminuição dos níveis de triglicerídeos e de colesterol LDL (mau colesterol) (5).

Importa ainda referir que grande parte dos estudos que apontam benefícios ao consumo de óleo de colza utilizaram versões menos refinadas ou não as submeteram as altas temperaturas, o que habitualmente acontece com as versões comerciais disponíveis (678).

Neste sentido, a dieta mediterrânica parece ser mais benéfica para a saúde do que a escandinava.

Alimentos a consumir e a evitar

Alimentos presentes na dieta escandinava

A dieta escandinava dá enfase aos alimentos tradicionais e locais, obtidos através de produção sustentável. Neste sentido, definiu-se a seguinte “escala”:

  • Consumir com frequência: frutas, bagas, vegetais, leguminosas, batatas, cereais integrais, frutas oleaginosas, sementes, pescado (incluindo marisco), lacticínios magros, especiarias e óleo de colza
  • Consumir com moderação: carnes de caça, queijo e iogurte
  • Consumir raramente: outras carnes vermelhas e gorduras animais
  • Não consumir: refrigerantes e bebidas açucaradas, açúcar de adição, carnes processadas, aditivos alimentares, fast food

De forma semelhante ao que se passa com a dieta paleo, surgiram algumas críticas a esta dieta, nomeadamente ao facto de alguns dos alimentos permitidos na versão moderna não terem existido nos países nórdicos há séculos atrás.

Alguns exemplos são os lácteos magros e óleo de colza, ambos alimentos modernos. Também algumas das frutas não são nativas destes países, exceptuando as maçãs e alguns tipos de bagas.

Ainda assim, a dieta escandinava não foi propriamente desenvolvida como forma de mimetizar os hábitos dos povos nórdicos de há seculos atrás. Em vez disso, enfatiza o consumo de alimentos saudáveis e produzidos localmente nos dias de hoje.

Potenciais benefícios para a saúde

Vários estudos examinaram os efeitos da dieta escandinava nos marcadores de saúde. No entanto, uma parte significativa desses trabalhos foi realizada em modelos animais pelo que não possível transpor de forma linear os resultados para os modelos humanos.

Perda de peso

Num estudo de 2014, 147 obesos foram instruídos a não restringir o valor energético consumido. Ao final de 6 meses, os participantes do grupo da dieta escandinava perderam, em média, mais 3,2 kg do que os do outro grupo (1).

No entanto, ao final de 1 ano, os participantes que seguiram a dieta escandinava tinham recuperado praticamente a totalidade do peso perdido (9).

Outro estudo de 6 semanas relatou perdas de 4% de peso corporal nos participantes que seguiram a dieta escandinava (10).

Tensão arterial

No mesmo estudo de 6 meses verificou-se uma redução na pressão sistólica (máxima) e diastólica (mínima) de 5,1 e 3,2 mmHg, respetivamente, em comparação à dieta controlo (1).

Outro estudo de 12 semanas relatou uma redução significativa da pressão diastólica nos participantes com síndrome metabólica que seguiram a dieta escandinava (11).

Colesterol e triglicerídeos

Embora a dieta escandinava seja rica em alimentos “amigos” do coração, o impacto nos níveis de colesterol e triglicerídeos ainda é uma incógnita.

Alguns, mas não todos, os estudos referem uma redução dos níveis de triglicerídeos, sendo as alterações nos níveis de bom e mau colesterol estatisticamente insignificantes (12).

No entanto, um estudo relata uma ligeira descida do mau colesterol entre outros marcadores de risco cardiovascular (2).

Conclusão

A principal razão pela qual a dieta escandinava é saudável é porque substitui os produtos industrializados por alimentos naturais como o mínimo de processamento possível.

Como benefícios para a saúde, podemos contar com a possibilidade de perder peso e controlar os triglicerídeos, pelo menos a curto prazo.

Uma das maiores críticas é a utilização de óleo de colza, um produto refinado com um conteúdo em ómega-6 bastante elevado.

O desequilíbrio no rácio ómega-6 – ómega-3 tem vindo a ser responsabilizado pela evolução de algumas doenças crónicas como o Alzheimer, a obesidade e a doença cardiovascular (1213).

Paralelamente a isso, o refinamento do óleo de colza envolve a exposição a elevadas temperaturas e agentes químicos. Este processo influencia a qualidade nutricional do produto, empobrecendo-o em ácidos gordos essenciais, antioxidantes e vitaminas (141516).

No fundo, qualquer dieta que dê enfase aos alimentos não processados em detrimentos dos produtos característicos dos padrões alimentares dos países ocidentais pode levar a melhorias na saúde e no peso.

Por isso, embora não seja melhor do que a mediterrânica, a dieta escandinava pode produzir efeitos interessantes a longo prazo, caso se desenvolvam estudos no sentido de explorar melhor o seu impacto na saúde.

Fontes

  1. Poulsen, S. K., et.al. (2013). Health effect of the New Nordic Diet in adults with increased waist circumference: a 6-mo randomized controlled trial. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24257725
  2. Uusitupa, M., et.al. (2013). Effects of an isocaloric healthy Nordic diet on insulin sensitivity, lipid profile and inflammation markers in metabolic syndrome – a randomized study (SYSDIET). Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/joim.12044
  3. Adamsson, V., et.al. (2012). What is a healthy Nordic diet? Foods and nutrients in the NORDIET study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3386552/
  4. Sun, Y., et.al. (2018). Cross-Sectional Associations between Dietary Fat-Related Behaviors and Continuous Metabolic Syndrome Score among Young Australian Adults. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6116055/
  5. Lin, L., et.al. (2013). Evidence of health benefits of canola oil. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3746113/
  6. Iggman, D., et.al. (2011). Replacing dairy fat with rapeseed oil causes rapid improvement of hyperlipidaemia: a randomized controlled study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21466598
  7. Karvonen, H., et.al. (2002). The effect of vegetable oil-based cheese on serum total and lipoprotein lipids. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12428175
  8. Stricker, H., et.al. (2008). Canola oil decreases cholesterol and improves endothelial function in patients with peripheral arterial occlusive disease – a pilot study. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1872931208000045
  9. Poulsen, S. K., et.al. (2014). Long-term adherence to the New Nordic Diet and the effects on body weight, anthropometry and blood pressure: a 12-month follow-up study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24664189
  10. Adamsson, V., et.al. (2010). Effects of a healthy Nordic diet on cardiovascular risk factors in hypercholesterolaemic subjects: a randomized controlled trial (NORDIET). Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20964740
  11. Brader, L., et.al. (2013). Effects of an isocaloric healthy Nordic diet on ambulatory blood pressure in metabolic syndrome: a randomized SYSDIET sub-study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24129358
  12. Loef, M., & Walach, H. (2013). The Omega-6/Omega-3 Ratio and Dementia or Cognitive Decline: A Systematic Review on Human Studies and Biological Evidence. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23451843
  13. Simopoulos, A. (2016). An Increase in the Omega-6/Omega-3 Fatty Acid Ratio Increases the Risk for Obesity. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4808858/
  14. Aniołowska, M., et.al. (2015). The effect of pan frying on thermooxidative stability of refined rapeseed oil and professional blend. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4711448/
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