Nutricionista Rita Lima
Nutricionista Rita Lima
30 Dez, 2020 - 15:06

Dieta do grupo sanguíneo: a ciência desmente os seus benefícios

Nutricionista Rita Lima

A dieta do grupo sanguíneo defende recomendações alimentares específicas para cada tipo de sangue. Será que faz sentido? Terá sucesso na perda de peso?

Dieta do grupo sanguíneo

Desenvolvida por Peter J. D’Adamo, a dieta do grupo sanguíneo defende um padrão alimentar específico para cada tipo de sangue, baseando-se na teoria de que o tipo sanguíneo influencia as funções digestivas, imunológicas e os alimentos mais corretos para potenciar o emagrecimento.

Grupos sanguíneos existentes

Mas antes de avançar para a teoria da dieta do grupo sanguíneo, importa salientar que o grupo sanguíneo é determinado pelos antigénios existentes na superfície dos glóbulos vermelhos, sendo que estes antigénios estão também presentes em alguns neurónios, plaquetas e no tecido vascular.

De uma forma geral, existem 4 grupos sanguíneos: A, B, AB e O.

Atualmente, existem já provas de que existe uma correlação direta entre os grupos sanguíneos e determinadas doenças, nomeadamente:

  • Grupos sanguíneos A, B e AB – as pessoas que pertencem a estes grupos têm taxas de doenças cardiovasculares e mortalidade mais elevadas, devido à presença de mais fatores de coagulação e, consequentemente, uma maior tendência para a formação de trombos;
  • Grupos sanguíneos A, B e AB – também parece haver uma relação direta entre estes grupos e o risco de cancro do pâncreas e do estômago;
  • Grupo sanguíneo A – no que toca ao cancro gástrico, este é o grupo sanguíneo que apresenta maior risco, por possuir maior propensão à infeção pela bactéria Helicobacter pylori.
  • Grupo sanguíneo O – têm risco cardiovascular baixo.

No entanto, e apesar do que foi referido anteriormente, a manutenção de um peso saudável e de um estilo de vida equilibrado é um objetivo a atingir por todos independentemente do seu grupo sanguíneo.

Dieta do grupo sanguíneo: em que consiste?

dieta do grupo sanguineo

Na dieta do grupo sanguíneo defende-se que para cada grupo, existem os produtos benéficos, ou seja, aqueles alimentos que são capazes de prevenir e de tratar de doenças, para além de facilitarem a perda de peso, os quais devem ser ingeridos diariamente.

Já os alimentos neutros são os que não fazem nem bem, nem mal e, por esse motivo, podem ser consumidos com alguma regularidade, mediante os gostos pessoais.

Finalmente, os ingredientes “nocivos” são eliminados totalmente da dieta do tipo sanguíneo. São estes “produtos que desequilibram o organismo, diminuindo a taxa metabólica basal e potenciando a doença”.

Neste contexto, esta dieta define os seguintes hábitos alimentares para cada grupo.

1

Grupo sanguíneo O

Segundo o autor, é o mais ancestral da humanidade, e as pessoas que detêm este tipo de sangue têm um sistema digestivo e imunológico mais robusto e preparado, pelo que devem optar por ingerir uma maior quantidade de proteínas animais e produtos hortícolas (alimentos benéficos), em detrimento de alimentos ricos em hidratos de carbono, como cereais e leguminosas (alimentos nocivos).

O azeite (alimento neutro) deverá ser a gordura de eleição para quem pertence a este grupo sanguíneo.

2

Grupo sanguíneo A

Acreditando que este grupo sanguíneo se desenvolveu em locais com menos proteína animal e que, por isso, as pessoas com este grupo sanguíneo têm um sistema digestivo mais sensível, o autor defende que a escolha destes indivíduos deveria passar por uma dieta vegetariana ou com pouca inclusão de carne (alimento nocivo), com preferência por carnes magras.

3

Grupo sanguíneo B

Segundo a teoria de que teria sido desenvolvido sobretudo por tribos nómadas, as pessoas que integram este grupo seriam as únicas a poder ingerir laticínios (alimento neutro) por terem um sistema digestivo tolerante, acompanhados por produtos hortícolas e grande diversidade de frutas (alimentos benéficos). Toleram bem os cereais, mas devem moderar o consumo de trigo.

Em conclusão

Enquanto a dieta do grupo sanguíneo indica que uma alimentação à base de plantas é melhor para o grupo sanguíneo A e menos favorável ao grupo sanguíneo O, a evidência mostra que uma alimentação à base de plantas é benéfica para qualquer pessoa, independentemente do seu grupo sanguíneo (1).

Na verdade, todos os grupos sanguíneos benificiam de igual forma de uma dieta à base de vegetais, frutas, leguminosas e cereais integrais principalmente em casos de perda de peso, saúde cardiovascular e sobrepeso nos adultos.

Assim é possível constatar que apesar de algumas orientações nutricionais propostas por esta abordagem parecerem fazer sentido, é importante perceber que uma dieta saudável passa pela inclusão de todos os macronutrientes, independentemente do tipo de grupo sanguíneo e que os benefícios de uma dieta à base de vegetais é transversal a todos os grupos sanguíneos.

PORTANTO, VALE A PENA ADOTAR A DIETA DO GRUPO SANGUÍNEO?

mulher com barriga inchada

Analisando os factos e a evidência conhecidos sobre esta dieta, é possível constatar:

  • Não existem provas irrefutáveis e consensualmente aceites de quando e onde se desenvolveram os grupos sanguíneos
  • O tipo de sangue não foi associado aos efeitos de uma dieta à base de plantas no peso corporal, gordura corporal, concentração de gordura no plasma nem com o controlo glicémico (1)

Posto isto, se pretende ter hábitos alimentares saudáveis que contribuem para um bom funcionamento do organismo, deve optar por uma alimentação variada, com grande foco em vegetais, sem esquecer que outros macronutrientes como a proteína também são essenciais e que fontes de origem animal também podem ser contempladas.

No caso de querer perder peso, lembre-se que o único factor que faz realmente diferença é o défice calórico, ou seja, ingerir menos calorias do que as que gasta.

Em caso de dúvida, consulte um nutricionista que será certamente o melhor profissional de saúde para o ajudar a atingir o seu objetivo.

Fontes

  1. Barnard, N. et al. Blood Type Is Not Associated with Changes in Cardiometabolic Outcomes in Response to a Plant-Based Dietary Intervention. Disponível em: https://jandonline.org/article/S2212-2672(20)31197-7/fulltext
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