Nutricionista Luís Cristino
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06 Abr, 2020 - 11:27

Cortisol: a sua função no organismo

Nutricionista Luís Cristino

A hormona cortisol está fortemente associada a mecanismos de “luta ou fuga” associados a situações de stress. Fique a conhecer as suas funções.

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O cortisol é uma hormona relacionada com a resposta do organismo ao stress e com o ritmo circadiano, apresentando em situações normais valores altos de manhã e baixos à noite. Contrariamente à conotação que muitas vezes lhe é dada, não é uma hormona prejudicial, é indispensável para a vida (1), mas o aumento crónico de cortisol pode causar diversos problemas como a resistência à insulina, disfunção endotelial, diminuição da função imunológica, entre outros. Está ainda relacionado com diversos efeitos no metabolismo

O que é o cortisol e as suas funções

Efeitos do cortisol no organismo

O cortisol é uma hormona corticosteroide produzida nas células do córtex das glândulas suprarrenais. Após a sua produção difunde-se para o sangue, e tem como percursor o colesterol. A sua excreção é feita pela urina após ser metabolizado no fígado (1). 

É considerado a hormona do stress, uma vez que tem um papel fundamental em respostas físicas de “luta ou fuga” perante a perceção de situações de emergência, através da ativação de mecanismos do sistema nervoso que originam uma cascata de respostas hormonais e fisiológicas (2).

Na resposta ao “stress” provocada pela elevação do cortisol inclui-se o aumento da disponibilidade de energia para o músculo (através do processo catabólico para obtenção de energia, disponibilizando mais glicose no sangue) e o aumento da pressão arterial. Enquanto ocorre esta resposta fisiológica, os processos anabólicos (por exemplo, a formação de novos tecidos) ficam comprometidos em detrimento da atividade catabólica (degradação).  Em suma, a sua ação geral é catabólica (1).

Para além da adaptação ao stress, o cortisol apresenta outras funções no organismo, como o controlo da glicemia e do metabolismo e apresenta efeito anti-inflamatório e imunossupressor (3, 4).

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Fatores que afetam a concentração de cortisol no sangue

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Existem dois importantes fatores fisiológicos que modulam a secreção de cortisol no sangue:

1.

O ritmo circadiano

A concentração de cortisol no sangue varia ao longo do dia, atingindo o pico nas primeiras horas da manhã (7h às 9h) existindo uma diminuição progressiva ao longo do dia até atingir os valores mais baixos à noite.

O aumento dos níveis de cortisol tem um papel fundamental no acordar: o pico da secreção de cortisol ocorre nessa altura. O cortisol tem um marcado ritmo circadiano, que pode ser modificado por alterações do sono (1).

2.

O stress

A secreção de cortisol pode elevar-se de modo agudo e de forma dramática, permitindo a adaptação a várias situações de stress, tais como: trauma (acidental ou cirúrgico), queimaduras, infeção e febre, ansiedade, exercício físico extenuante e hipoglicemia (nível baixo de glicose no sangue).

Efeitos metabólicos do cortisol

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Como já foi referido, o cortisol é uma hormona associada a várias funções metabólicas, tais como:

  • Estimulação da gliconeogénese, isto é, produção de glicose a partir de compostos como o lactato, o glicerol e aminoácidos
  • Resistência à ação da insulina
  • Prevenção da hipoglicemia durante o jejum
  • Aumento da degradação proteica e diminuição da síntese de proteína, isto é, aumento da perda de massa muscular e diminuição da sua formação
  • Oxidação de gordura (utilização da gordura como fonte de energia)
  • Aumento do apetite e consequente ingestão calórica.

Dados os efeitos descritos do cortisol no metabolismo, é fácil perceber que um excesso desta hormona, de forma crónica, poderá levar a uma situação de excesso de peso ou obesidade.

O cortisol é ainda responsável pela produção de efeitos em outros sistemas e tecidos, como no sistema cardiovascular, no sistema imunitário, nos rins, no osso, no trato gastrointestinal, no sistema reprodutor e no feto (3, 4).

A nível ósseo, reduz significativamente a osteogénese (formação óssea) e aumenta a reabsorção do cálcio, podendo levar à osteoporose quando presente em níveis persistentemente elevados.

Ao nível do rim, aumenta a filtração glomerular e a excreção de fosforo. A nível do sistema imunitário, apresenta um profundo efeito anti-inflamatório e imunossupressor. Tem ainda um efeito importante no Sistema Nervoso Central (SNC), a nível da memória, atenção, sono e estado emocional (1, 3, 4).

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Alterações patológicas na concentração sérica de cortisol

Cortisol: teste à síndrome de Cushing

Níveis altos de cortisol no sangue por um período prolongado podem indicar uma condição conhecida por hipercortisolismo ou como síndrome de Cushing. Esta pode ser provocada por problemas nas glândulas suprarrenais, como a presença de um tumor, (causa endógena) ou por toma de corticosteroides orais ou injetáveis (causa exógena). 

A presença desta síndrome pode original um ganho de peso descontrolado na região superior do corpo e na face. Pode ainda provocar alterações na pressão arterial, osteoporose, alterações de humor, diabetes e hirsutismo nas mulheres (2, 4).

Por sua vez, níveis baixos de cortisol podem causar uma condição conhecida por doença de Addison. É uma doença rara e auto-imune que causa danos nas glândulas suprarrenais. Os sintomas e consequências desta doença são a fadiga, a perda muscular acentuada, a perda de peso e alterações de humor (2, 4).

Como avaliar o cortisol

O teste de cortisol é feito através da medição do cortisol sérico ou salivar, apesar de refletir apenas efeitos transitórios e altamente variáveis. Assim, testes em vários dias, monitorização contínua ou outros testes, como o cortisol capilar, podem ser mais indicativos dos níveis desta hormona a longo prazo.

Em suma

Os muitos processos bioquímicos que envolvem cortisol e o stress e seu impacto na saúde e no surgimento de doenças são complexos e elaborados. A grande importância e variedade das ações desta hormona faz com que uma desregulação na sua produção e secreção tenha efeitos deletérios muito alargados (1).

Fontes

  1. Saraiva. EM et al. (2005). Oscilações do cortisol na depressão e sono/vigília. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/287/28770207.pdf
  2. Thau, L et al. (2019). Physiology, Cortisol. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538239/
  3. Koeppen, BM et al. (2009). Berne & Levy – Fisiologia. 6ª Edição
  4. Hormone Healt – Endocrine Society.  (2018). What is Cortisol? Disponível em: https://www.hormone.org/your-health-and-hormones/glands-and-hormones-a-to-z/hormones/cortisol
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